A armadilha do pensamento categórico

O QUE O TROUXE ATÉ AQUI NÃO IRÁ LEVÁ-LO ATÉ LÁ

Este artigo aborda de maneira profunda as maneiras sutis com que nossas próprias mentes podem nos enganar, (in)compreendendo e (ab)usando do conhecimento de Vedanta para fortalecer velhos padrões de pensamento categórico e conclusões acerca de pessoas e situações. O propósito de esclarecer este assunto é estar consciente das sutilezas envolvidas nos processos visíveis e não visíveis da mente. Isto pode nos permitir irromper livres da prisão do pensamento categórico, porque a natureza do Atma, Eu, é o todo que nunca pode ser categorizado.

Para muitos de nós, a jornada espiritual começa quando começamos a questionar os vários aspectos das nossas vidas. Algumas das questões que talvez tenhamos nos perguntado – Há algo mais do que a labuta diária dessa existência cotidiana? O que os relacionamentos e a família podem me dar? O que eles não podem me dar? Isto está tranquilo para mim? Há algo na vida além de ganhar bem, ter filhos e usufruir da vida? Para alguns de nós, podemos ter feito tudo isso e ainda assim sentir algo faltando em nossas vidas.

O modo como a vida se desdobra é uma série de eventos/experiências/situações nas quais simplesmente nos encontramos ou para as quais contribuímos. Logo, para ser capaz de responder de maneira eficaz a uma situação, é uma guinada significativa reconhecer que eu posso escolher responder, não responder, ou responder de modo diferente. Para responder a uma situação, o que eu reconheço acerca dela sem usar lentes coloridas torna-se decisivo e, portanto, ver as coisas como elas.

Então, como nós tendemos a ver os diferentes aspectos de uma situação, especialmente as pessoas envolvidas? Aqui, vale examinar como a mente tem sido treinada quando exposta à educação formal. Qualquer categoria de conhecimento – digamos a Ciência – requer que a mente conheça as coisas distintamente ou categoricamente como ‘isto ou aquilo’ ou alguma categoria. As pessoas prosperam na certeza. A mente também prospera e se regozija na certeza. Daí, nós seguimos essa orientação de ver as coisas e fazemos o mesmo pensando sobre pessoas. A maioria de nós está confortável quanto a conclusão categórica sobre uma situação ou pessoa – ‘Isto foi terrível’, ‘Como essa pessoa é chata’, ‘Ele é tão emotivo, etc., etc…’ A razão pela qual concluímos é porque queremos nos proteger de qualquer dano ou ameaça. Nada de errado com isso. Mas quando isso se torna o fator preponderante, então eu não consigo mais ver a pessoa objetivamente. Se a pessoa em questão se comporta com compaixão ou compreensivamente, nós não conseguimos acomodar este aspecto na nossa visão da pessoa, porque já concluímos que a pessoa é emotiva. Para justificar o rótulo de ‘emotiva’, podemos dizer que este novo evento é apenas um acaso ou que a pessoa está fingindo a compreensão. Nós deixamos de responder às pessoas; respondemos apenas às nossas percepções delas – é como usar óculos com lentes verdes e dizer que essa pessoa está verde de inveja ou usar óculos com lentes vermelhas e dizer que essa pessoa está sempre raivosa. Nós continuaremos batendo de frente com a realidade por causa desta visão colorida.

Devido às nossas conclusões categóricas, começamos a viver com medo de sermos magoados ou ficarmos com raiva e, portanto, tentamos evitar todas as situações e pessoas que possam nos causar isso. Pensamos que no momento em que rotularmos a pessoa ou situação, apenas então conseguiremos lidar com ela. Isso funcionou bem para nós no passado e então pensamos que irá funcionar bem no futuro. Pensamos que o que nos trouxe até aqui irá nos levar até lá (em termos do nosso entendimento).

À medida que alguém continua a se expor a algum ensinamento, palavras como ‘aceitação, ser não crítico, dar a pessoa a liberdade de ser’ começam a entrar no seu mundo.  Tudo isso soa bem e começamos a desejar que as pessoas à volta sejam mais acolhedoras e não críticas. Acontece que nós mesmos não conseguimos deixar de criticar as pessoas e começamos a ficar irritados. Como dizem, caridade começa em casa. Então dolorosamente nos damos conta, como podemos começar a sermos não críticos?

Na nossa busca espiritual, existe uma (in)compreensão da nossa natureza de devido a ela queremos algo para nos segurar e, daí, duas coisas contribuem para a continuidade da nossa rotulação de pessoas e situações: nossa busca pelo infalível e o processo de negação.

 Busca pelo infalível:

 Todos nós, a despeito de culturas, estamos procurando por algo maior do que nós mesmos na medida em que reconhecemos que não criamos este mundo. Isto se traduz numa busca focada ou simplesmente num “tateamento” às escuras que se materializa nossa necessidade em heróis e modelos de conduta. Quando expostos a um guru, nós super impomos e projetamos nossas noções sobre como mestre ‘deveria ser’. Poucos de nós reconhecem que estamos buscando pelo infalível nas pessoas. No entanto, apenas Deus é infalível. Então, como esperado, alguns de nós podem se magoar ou enraivecer porque nossas expectativas nascidas da necessidade pelo infalível nunca podem ser cumpridas. É mais fácil para nós se reconhecermos que nossas frustrações com as pessoas e situações não são devido a elas, mas no nosso profundo desejo e busca pelo infalível. Isso pode ser um grande alívio.

Processo de negação:

Além disso, quando alguém é inicialmente exposto à Vedanta, com o propósito de ajudar a discernir o propósito da vida, existe uma ênfase em ver as limitações de uma situação em termos de segurança e prazer. Há uma alegria inicial experimentada quando alguém vê as limitações de algo (carreira ou relacionamentos, por exemplo) porque isso transmite à pessoa que ‘Eu sou mais do que esta situação’, ‘Eu não sou tão limitado quanto eu pensava ser’. Ver as limitações da minha própria situação naturalmente também se traduz então na maneira como eu vejo as pessoas ou tendo a focar mais nos seus aspectos negativos. Algumas visões que podem ser comuns são: ‘Esta pessoa alega ser espiritual, mas veja como ele não tem controle da sua raiva. Eu definitivamente tenho mais equanimidade nas situações do que os outros. Esta pessoa não tem maturidade apesar de estudar Vedanta.’ Desavisadamente, usamos estas visões para fortalecer o pensamento categórico e nos dar uma falsa noção de superioridade. Não suportamos ser qualquer coisa menos do que completos. Junto com o processo de negação da excessiva identificação com o corpo, mente e sentidos, qualquer professor tradicional de Vedanta apresenta a visão dos Vedas – “Você é o todo”. Para alguns, leva tempo para verdadeiramente assimilar isso.

A razão pela qual leva tempo é porque alguns de nós estamos acostumados com a mente concluindo ou categorizando pessoas e situações em perfeitas caixas, porque assim podemos lidar melhor com elas. Aos poucos começamos a ver que Vedanta é o único conhecimento onde nossos métodos de concluir/categorizar param de funcionar para mim. Quanto mais tentamos encaixar as coisas no nosso entendimento, tanto mais falhamos em ver a verdade. O professor também complementa a isso dizendo: ‘Sua verdadeira natureza não pode ser categorizada ou objetificada’.

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 Suponha que eu pergunte: ‘O que é isso que você vê?’. Algumas pessoas podem dizer 3 linhas com pontos, algumas pessoas podem dizer quadrado, algumas pessoas podem dizer 9 pontos. Ainda que não haja um quadrado na figura, o que fez a mente concluir que é um quadrado? O princípio por trás disso é que o todo é maior que a soma das suas partes. E, portanto a mente projeta para criar uma forma ou ver algum padrão ou apenas dar algum sentido para o que ela está vendo. É testado e comprovado que a mente é capaz de sustentar ou conter muitas visões – algumas contraditórias e algumas maiores que a soma das suas partes.

Levando adiante o mesmo princípio, é possível não concluir? A resposta é sim e não. Podemos concluir ao mesmo tempo em que a mantemos como uma conclusão provisória – na dependência do que sabemos da pessoa, de nós mesmos e da situação. Ao invés de dizer – ‘Eu conheço muito bem essa pessoa, ele/ela só se comporta deste modo’, ou, ‘Esta pessoa é tão…’, é melhor substituir estas palavras absolutas como ‘sempre’, ‘nunca’ por ‘Na minha visão esta pessoa tende a ser ou se comportar algumas vezes deste modo…

O pensamento acima é poderoso. Eu qualifiquei que esta pessoa é assim e assado… ‘na minha visão’, significando que é possível que seja a minha visão e não a visão. Novamente, usar palavras que expressam tentativas como, ‘às vezes, tende à, frequentemente, talvez’, ajuda a me conscientizar da realidade de que a pessoa não é sempre assim. Para a mente, esta é uma mudança poderosa porque afrouxa a tendência da categorização. Também me permite ver os ‘tons de cinza’ em mim mesmo e nas pessoas, e aprender a ficar tranquilo com isso.

Ao passo que ver as pessoas e a nós mesmos objetivamente sem rotular é um lado da equação, a nossa reação a eles no sentido de sermos mais amáveis e acolhedores torna-se o outro lado da equação. Não há mais nenhum grande esforço envolvido em ser amável e acolhedor. Isso flui de nós porque somos mais capazes de ver objetivamente o que é – nós mesmos e nossas situações. Reconhecemos que antigamente costumávamos a rotular as pessoas porque não conseguíamos lidar melhor com elas. Agora nós invertemos a equação e vemos que, por causa da nossa própria competência e entendimento, podemos cada vez mais lidar ou não lidar com diferentes pessoas e situações. Logo, não precisamos mais rotular ou categorizar as pessoas – é possível ser relativamente acolhedor e não crítico. O que quer que seja nós pode gerenciar com a graça de Deus. Isso não é pensamento positivo – apenas um simples reconhecimento do fato de que nós fomos capazes de lidar com diferentes situações e amadurecemos.

O que quer que tenha nos mantido inicialmente na busca espiritual – a categorização bem definida das pessoas, nossa busca pelo infalível, nosso próprio pequeno entendimento e a excessiva negação das limitações – não funcionam por muito tempo, nem para nós nem para os outros. Entender a verdade nos impõe a exigência de irmos além da nossa própria categorização e enxergarmos o sentido implícito do ensinamento de Vedanta.

Quando somos mais capazes de apreciar que o Satyam ou a verdade da nossa existência é tanto isto e aquilo; ao mesmo tempo, nem isto nem aquilo, podemos nos iluminar. Somos capazes de ver que não sentimos mais a necessidade de sempre categorizar ou rotular uma experiência, uma situação, ou nosso entendimento. E quando expostos à Vedanta e à verdade de nós mesmos, podemos ver claramente e usufruir o que é.

Om Tat Sat

Esse texto foi escrito por Mrinalini Rao.

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  • Prakash Chandra Jaiantilal
    Responder

    É dito que precisamos de ser como o espelho, espelho limpido, sem poeiras!!!.. isto é, sem história, portanto, sem o pssado e, sem o futuro. Sintetizando, é necessário que estejamos aqui e agora….viver o PRESENTE que é a única realidade REAL!!!

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