A diferença entre a abordagem psicológica e a abordagem de Vedanta para o problema humano

Tanto a psicologia em geral quanto a espiritualidade védica – aquela que tem origem nos Vedas hindus – têm como objetivo um autoconhecimento por meio do qual o sofrimento é atenuado. A diferença entre o autoconhecimento da psicologia e o autoconhecimento da espiritualidade Védica, entretanto, consiste em uma visão diferente dessas duas tradições acerca do significado do prefixo ‘auto’, no termo ‘autoconhecimento’. Vejamos de que consiste essa diferença.

O prefixo ‘auto’ significa algo relativo a si mesmo. Autoconhecimento é o conhecimento que a pessoa que conhece as coisas tem ou pode ter de si mesma. Para a psicologia, o termo diz o conhecimento daquelas forças psíquicas que constituem uma personalidade. Essa disciplina entende o ‘eu’ como o somatório dessas forças psíquicas, conscientes e inconscientes, que freudianamente podem ser subsumidas nos conceitos de ego, superego e id.

Existem certas neuroses causadas por desejos reprimidos e coisas do tipo, e essas coisas, além dos nossos processos cognitivos conscientes, formam o todo da personalidade. Essa personalidade é a própria pessoa, para a psicologia. Autoconhecimento significa então o conhecimento dessa pessoa inteira que, vindo à luz, pode ser liberada de muitas das suas neuroses e viver uma vida mais satisfatória.

A espiritualidade Védica, que chamamos de Vedanta, não tem nada a dizer contra essa visão psicológica do indivíduo, e pode até utilizar-se dela para entender certos problemas de uma pessoa que não são abordados diretamente pela tradição védica. Contudo, Vedanta vê na abordagem psicológica uma limitação muito clara: ela não pode dar uma resposta final à busca do ser humano por plenitude.

Existe uma situação muito clara na vida de todas as pessoas, que é o esforço por tornarem-se livres das limitações que as acompanham. A dita felicidade que todos buscam nada mais é que o esquecimento daquelas limitações que em geral ocupam a mente das pessoas. O homem quer ir pescar com os amigos porque em um boa risada com eles ele se esquece dos seus problemas e vê a si mesmo de uma perspectiva na qual ele não tem carências. Mas basta ele olhar o relógio e se lembrar que deve voltar para casa – para suas funções de marido, pai, empregado, etc. – para que o seu sorriso murche.

Isto que uma pessoa é nos fugazes momentos de felicidade não inclui nenhum tipo de auto-identidade limitada: nem pelo corpo, nem pela mente, nem pelos relacionamentos baseados no corpo-mente. O homem que ri está disponível para si mesmo apenas como o ser consciente simples que ele é, e não como alguém com esse ou aquele emprego, com esse ou aquele corpo, com contas pra pagar e assim por diante. É muito claro que a psicologia não trata desse ‘eu’, desse ser consciente simples, mas apenas da auto-identidade relativa ao corpo-mente; e, considerando a auto-identidade relativa como a realidade do indivíduo, ela pretende aproximar o indivíduo da felicidade através do aprimoramento dessa auto-identidade – por meio da ‘liberação de neuroses’ ou qualquer coisa do tipo. Mas nenhum aprimoramento da auto-identidade relativa pode jamais livrar o indivíduo dela – que é justamente o que o indivíduo quer e está buscando incessantemente através dos seus momentos de felicidade, nos quais ele de fato se vê livre dela! E, vendo-se completamente livre nesses momentos, uma pessoa não consegue se contentar com nada menos que isso.

O fato é que não há realmente uma resposta para a busca humana enquanto o próprio buscador estiver sendo validado. O buscador é aquele que se identifica com as limitações do corpo/mente e depois luta por se tornar livre delas, e a psicologia, na forma da psicanálise e todas as outras formas de terapia disponíveis, não elimina esse buscador, mas justamente o valida, engajando-se em seguida na contraproducente tarefa de ensiná-lo a conviver de forma ‘madura’ com sua ‘condição humana’ (coisa que ninguém conseguiu até hoje, até onde eu sei).

Vedanta, ao contrário, não propõe um aprimoramento da auto-identidade relativa do indivíduo, mas mostra a ele que a identificação do ser consciente com o corpo e mente – objetos da consciência – é um erro, uma confusão, porque o sujeito que vê é eternamente distinto daquilo que é visto. Quando Vedanta se utiliza do termo autoconhecimento, o ‘auto’ se refere àquele que é a base da auto-identidade relativa, que não muda enquanto os processos da mente e do corpo mudam. Pois você mesmo que reconhece que antes estava triste e que agora está ansioso, não é idêntico à ansiedade nem à tristeza, pois se fosse nem poderia falar delas ou se identificar com elas, e tampouco poderia se ver livre delas em outros momentos. É este ser consciente livre dos processos mentais e que não precisa ser aprimorado, porque não carece de nada, que Vedanta pretende revelar, livrando o sujeito da necessidade de ter que melhorar sua identidade relativa, baseada no corpo e mente.

Showing 5 comments
  • Ana L
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    Perfeito! Quando a gente consegue entender o que Vedanta nos diz, descobrimos que é perfeito e sumamente inteligente, tão inteligente que não conseguimos descobrir sozinhos. Precisamos do outro para nos mostrar este caminho tão evidente, que sempre esteve ali, mas que nunca fomos capaz de enxergar. É por isto que este outro é chamado de Mestre!

  • Joel A
    Responder

    Muito bom o texto. Muito esclarecedor. Da pra saber quem é o autor?

    • Luciano Giorgio
      Responder

      Eu escrevi.

      • Joel A
        Responder

        Muito bom Luciano, fica clara a diferença.
        Harih Om.

  • Patricia M
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    Boa! Estava aguardando esse tema e realmente foi esclarecedor! Om

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