Como ver Deus e qual o propósito do trabalho? – História de Pitu (1)

Essa é uma pequena história que ocorreu no coração da floresta negra de Bengala. Lá havia um pequeno gurukulam, local de estudo, onde alunos tinham a oportunidade de se isolar do mundo e passar um tempo estudando. Morando com o mestre, desfrutavam do conhecimento dos Vedas. O nome do discípulo em questão é Pitu, que significa o néctar, aquilo que é bom e auspicioso. Foi então que Pitu resolveu esclarecer alguns pontos que ainda estavam obscuros para ele no seu entendimento sobre si. Indiretamente ele pergunta ao mestre: “como ver Deus e qual o propósito do trabalho?

Aproximou-se do mestre e disse:

– Namaskaram Swamiji, gostaria de fazer 2 perguntas se o Senhor tiver tempo.

Com um pequeno riso o mestre, enrolando sua sobrancelha branca, disse:

– Por que você não vem comigo caminhar até o templo de Ashvatha-Ganapati? Preciso ir buscar o Soma, líquido sagrado, para os rituais da tarde.

Durante a caminhada, enquanto conversavam observando o pôr do sol, cruzaram inúmeras pastagens e encontraram diversos animais…

Pitu: Minha primeira pergunta é… Estou voltando para Calcutá em breve. Lá vou ter que voltar ao trabalho, como você sabe meu pai é dono de uma sapataria, mas não estou certo que é isso que quero fazer. A profissão de fazer sapatos não me parece atraente, se ganha pouco, os produtos são todos iguais e ainda tenho que lidar com um monte de gente que não consegue realmente valorizar as novas idéias que eu tenho. Eu queria saber o que fazer, pensei em estudar para ser médico porque acho que é uma profissão mais bem vista e depois poderia juntar meus conhecimentos e fazer sapatos e acessórios para medicina. O que você acha?

Mestre: Pitu, às vezes por não sabermos o propósito das coisas nós complicamos o que é simples e ainda a sua análise sobre a profissão do médico talvez seja muito simplista. Você tem noção quanto se estuda para ser um médico e que mesmo depois de todo estudo a maioria das doenças não se pode resolver? A Ashvata (árvore) do vizinho sempre parece mais frondosa, mas se pararmos para olhar tem tantos problemas.

Médico trabalha muito. Não pensa que você poderia estar vindo para o gurukulam com essa facilidade se você fosse um médico. Muito trabalho, muito estudo e muita frustração porque ou a doença é simples se passa o remédio ou é uma complicação que ninguém sabe a causa e é muita dor e sofrimento. Por fim, nem ao menos se ganha bem porque é preciso muito tempo de profissão para ser reconhecido e ter a sua clientela.

Pitu: Então não sei o que fazer…

Mestre: Talvez o conceito da profissão perfeita esteja deturpado na sua mente, pois o propósito do trabalho não está claro, como estava dizendo. Toda a profissão terá sempre uma quantidade imensa de obstáculos e variáveis que não controlamos e por isso uma pessoa sábia não escolhe sua ocupação pela quantidade de obstáculos. Todas as pessoas vêm com uma aptidão e uma atração natural por certas atividades nesse mundo, essas atividades são na verdade o melhor ponto de partida.

Pitu: Mas o ponto de partida é para que? Qual é o propósito do trabalho?

Mestre: Todos os karmas, ações desse universo, estão entrelaçados, como seres humanos dependemos de tantas coisas: dos nossos pais, dos animais e da sociedade. Por isso o trabalho é naturalmente uma forma de participar desse grande esquema. Ele é a sua parte, a maneira de contribuir com sua família, com seus amigos, com o nosso país, com a humanidade e com a natureza, com a mãe Terra e com todo o cosmos.  E se você me perguntar o que fazer comece pelas as pessoas em volta de você e contribua com as aptidões que são seu ponto de partida, o que é até bem natural.

O ponto de partida é um ser humano que está tentando sobreviver com um conjunto limitado de capacidades e o ponto de chegada é um contribuinte que consegue enxergar o papel da sua pequena parte no movimento do universo. O foco realmente do que fazer para ser feliz é um erro, ou melhor, uma fantasia apenas. Se houvesse algo, que fazendo, uma pessoa fosse ficar feliz, todos estariam fazendo isso e não seria possível a vida em sociedade. O desafio é descobrir como gostar do que deve ser feito por você e o que deve ser feito se desdobra naturalmente em cada momento da sua vida.

Pitu: Entendi, mas é engraçado porque apesar de saber que o trabalho não é a causa da felicidade, ele tem uma força que tira meu bom humor para não dizer outra coisa. Na verdade, essa é minha segunda pergunta. Eu já estudo faz um tempo, não me sinto preenchido e resolvido, o que fica bem evidente quando estou lidando com o mundo. Estou fazendo todas as minhas disciplinas e me expondo a esse conhecimento, mas na hora de lidar com o mundo eu só vejo sofrimento. Fico me questionando se realmente existe solução para essa vida, tudo que eu faço parece não dar certo. Não sei se é o momento que estou vivendo, mas e se isso não mudar?

Depois de fazer sua saudação no templo de Ganesha, o mestre pede ao vendedor local por dois potes de Soma. Pitu aproveita para colher os galhos de Ashvatha que são peças importantes nos seus rituais diários.

Mestre: Meu jovem, você já estuda há um tempo, mas você não se vê livre no dia a dia e você quer saber o que fazer. Sou eu que te pergunto. O que fazer?

Pitu: Não sei, parece sem solução.

Mestre: Larga a preguiça e pensa! O que fazer depende do que você precisa, não é?

Pitu: Mas eu não sei o que eu preciso. Seja sincero, com tanta desgraça por aí é possível ser feliz? Todo mundo tem tanta razão para estar triste. Em termos de estudo eu sei, eles vão dizer que você precisa reconhecer Ishvara, o criador, que é a ordem desse universo. Agora me diz, tanto a compaixão quanto a violência não são Ishvara???

Mestre: Ops, agora achei algo que pode ser corrigido. Presta bem atenção. Tanto compaixão quanto violência são Ishvara sim, mas não é isso que se diz em termos de reconhecer Ishvara. A idéia é que a mesma violência, sem a visão de Ishvara é motivo de sofrimento e com a visão de Ishvara não. Sem Ishvara violência além de ser indesejável me faz me sentir indefeso, pequeno e com a impressão de que Deus é injusto e com Ishvara por  mais que seja indesejável, ela tem um papel no esquema do mundo e um motivo para ter chegado até cada um e ninguém se torna uma vítima do universo. A idéia é que quando a visão de Ishvara está presente na vida da pessoa mesmo que a situação seja desconfortável vai existir um espaço interno para que o desconforto não vire sofrimento, lamento e nem reclamação de que a vida não tem jeito. Essa é boa! Um planeta lindo, tanto conhecimento, tanto para se fazer e compartilhar e você tem cara de pau de dizer que “minha vida não tem jeito”!?!?!

Pitu sorriu. Ele sabia que o mestre guardava um carinho enorme por ele e que na verdade essa forma de falar tinha um propósito, por mais que parecesse agressiva. Ele entregou seu coração às palavras do mestre e foi com elas…

Pitu: Então tá eu preciso da visão de Ishvara. Ishvara é a ordem que governa tudo que acontece aqui nesse universo, não é isso??

Mestre: Não. O que você diz não está errado, mas falta algo aí.

Pitu: O que?

Mestre: Você me diz.

Pitu: Deixa eu pensar… Para ter a visão de Ishvara preciso estudar mais os Vedas.

Mestre: Meu garoto, sem os Vedas você não vai ter a visão de Ishvara, isso é correto, mas você já está estudando, né? Você sabe sânscrito, mantras, os rituais, yoga, pranayama e até as upasanas secretas do Yajurveda, né? E você faz com sinceridade, conforme prescrito, todo dia, né? Então não pode ser isso que falta, afinal de contas isso você já faz. Pensa mais, você pode fazer melhor que isso.

Pitu: Bom, então não sei. Preciso viver a vida e só.

Mestre: Todos estão vivendo a vida, isso não é uma resposta que espero de você…

O sol se pôs e, de volta ao ashram, se podia ver o céu estrelado sem praticamente nenhuma nuvem, uma visão incrível. Pitu se senta à beira do templo de Subramanyam e com lágrimas nos olhos faz as últimas tentativas de achar uma solução. O mestre, sério por fora, mas muito feliz por dentro, olha para as estrelas e faz uma oração pedindo que Ishvara abra os olhos do menino. O mestre estava feliz porque esse é um momento muito importante na busca pelo autoconhecimento.

Pitu: Eu não sei… (voz trêmula)

Mestre: Vou tentar te ajudar acompanhe meus pensamentos. Você precisa da visão de Ishvara, que você não tem. Você não sabe como obter. Correto?

Pitu: O que você quer dizer com o termo visão?

Mestre: Boa pergunta. Visão é um termo que se refere à cognição limitada de um tema que é necessária para realizar uma tarefa. Por exemplo, para fazer sapatos você não precisa ser um expert em ortopedia, ou na anatomia do pé, mas é necessária uma visão sobre o tema. Você muitas vezes pode não saber explicar o porquê de um determinado corte ou solado, que não funciona, mas você já tem acumulada uma experiência, vendo pés e sapatos, que te dá essa visão. A verdade é que nem um ortopedista especializado em pés sabe todas as peculiaridades do funcionamento do pé, mas a visão dele tem mais detalhes e mais clareza que a sua, por isso categoricamente dizemos que ele tem um conhecimento e você tem uma visão de ortopedia. Assim, você já tem esse entendimento de que Ishvara é a ordem que permeia tudo e isso é correto e realmente em detalhes não é nem um pouco possível conhecê-lo. Olha só quanta estrela tem nesse céu, apesar de ter muitas, a verdade é que nesse universo existem muito mais estrelas do que estamos vendo agora, mais estrelas do que grãos de areia na praia de Calcutá! Por isso é dito uma visão, porque é o que cabe na nossa mente. Contudo Ishvara mesmo que relativamente tem que estar presente no meu dia a dia. Enxergar essa presença é a visão de Ishvara.

Pitu: Entendi, mas como obter essa visão? Porque no caso do sapato dá para gente ter a experiência do ofício, mas com Ishvara não.

Mestre: Pois é. E agora? O que fazer? Tudo a nossa volta é Ishvara, o que fazer? Até mesmo a lógica que você está usando para descobrir como ter a visão de Ishvara, é Ele também, não é?

Pitu: Então?

Mestre: Então nada. Pensa bem. Você não tem a visão e Ishvara não é que nem um sapato que você pode conviver com ele. Nem a lógica pode te ajudar. A verdade é que a menos que você tenha a visão de Ishvara, você não tem como saber como o obtê-la. Porque Ishvara não é mais um objeto que você pode esbarrar por aí. O que fazer? Você não tem a visão, não sabe como obtê-la e sabe que não tem como saber sozinho.

Pitu: Pergunto para alguém que saiba?

O mestre sorri. Apesar de ele poder ter dado a resposta para essa pergunta em primeira instância ela não faria sentido nenhum para o discípulo naquele momento.

Mestre: Realmente não tem outro jeito, mas a menos que você veja isso (que não tem outro jeito), com clareza, o que tenho para dizer não iria fazer sentido. Muito menos sentido faria se você não tivesse estudando Vedanta e fazendo suas disciplinas com a seriedade necessária.

Escute com atenção, porque qualquer coisa diferente disso não podemos dizer que está errado, mas será sempre incompleto. Você sabe quem é Ishvara, o criador?

sahasrashirsha purushaha, (pequeno trecho do purusha suktam)

Ele tem infinitos olhos. De todos os olhos da criação, de todos esses animais que estão andando aqui, sabe quem está por trás? Ele. Ele que está vendo, inclusive através do meu e do seu.

shasraksaat sahashrapaat,

Ele tem infinitos pés, quando algo se move seja rastejando, seja correndo ou voando, sabe quem permite esse movimento? Ele. Na forma dos pés, das asas, na forma do oxigênio, do ar que alimenta os músculos, na forma do nosso sangue e até mesmo do desejo de se movimentar…

Sa bhuumim vishvato vrtva atyatiStaddashangulam…

E tendo criado tudo que está aqui e permeando tudo, não pensa que ele agora está preso ao universo, ele permanece à “dashangulam” 10 polegadas de tudo que está aqui, em outras palavras, ele é livre. Como a pessoa que dorme sonha com um universo imenso, tudo é ela e ao mesmo tempo ela não é aprisionada por nada que acontece dentro do sonho.

E você diz Leis!? Ishvara são leis?!? Parece que estamos falando de um conjunto de regras como as leis do transito.

Ele está vivo Pitu! E está escutando você nesse momento, sempre esteve. Sabe qual o tamanho dele?

Vê só. Existem mais estrelas na nossa galáxia do que grãos de areia na praia, você sabe o que é isso?!? Dá para ter uma noção do tamanho, do poder?!?

Só ele pode te dar essa visão Pitu, é como uma benção é só você pedir ele está te escutando. Mesmo com todo estudo a visão de Ishvara é uma benção que não leva tempo, leva apenas a maturidade do momento.

Está todo mundo correndo de lá e para cá nesse planeta minúsculo, por no máximo uns cem anos de vida, que não é nem um espirro na história do universo e pedindo por coisas tão mais minúsculas ainda. É como se ele estivesse esperando por esse momento: “Finalmente alguém que quer me conhecer!” (risos)

Apenas abra seu coração deixe as lágrimas correrem e peça por ele que  no mesmo instante ele está presente.

Do templo até os dormitórios existe uma pequena estrada de chão por onde eles caminhavam. Pitu estava processando tudo que foi dito e o Mestre ficou feliz de poder ter contribuído com a parte dele. De acordo com a tradição védica, Ishvara, o criador, ou a causa do universo que estamos vivendo, não é um assunto para ser acreditado ou para se ter fé. É algo para ser entendido, é uma descoberta que é suportada pela lógica e pela nossa experiência com auxílio dos Vedas, que são nosso meio de conhecimento. Contudo a verdade é que o entendimento de que tudo a nossa volta é Ishvara só se torna verdadeiro quando toda nossa personalidade vê, tem a visão de Ishvara como um ser presente e não como um conjunto de leis inertes ou pior ainda um ser inteligente que vamos encontrar depois da morte. E é assim que todos os grandes mestres que conhecemos na história dos Vedas, também eram grande Bhaktas, devotos, porque essa é a expressão relativa da visão de Isvhara.

Por fim para se identificar com o aluno e inspirá-lo o mestre passou a mão na cabeça do discípulo e  disse:

Mestre: Lembro de quando fiz essa pergunta ao meu professor é um momento muito especial, porque desse ponto em diante não estamos mais sozinhos. Porque quanto mais Isvhara se torna presente, mais maturidade na busca e quanto mais maturidade mais Isvhara e é assim até o fim. Quando o peito aperta eu lembro que não é sofrimento é apenas saudade e canto para mim mesmo essa canção:

“Darshanam tarun maya…” Oh senhor, por favor, dê a nós sua visão…

Esse é um pequeno video do Tata que mora no Ashram de Coimbatore cantando a música em questão e algumas outras Dravida Ganas.

Showing 0 comments
  • Henrique Castro
    Responder

    Obrigado! Muito bom!

    um abraço

Leave a Comment

Start typing and press Enter to search