De que consiste o acervo de vedanta?

Um dos conceitos mais difíceis de ser entendido é que Vedanta não é simplesmente uma soma de livros e textos. De fato essa é uma tradição oral cujo os primeiros escritos encontrados, são as obras mais antigas da humanidade, são datadas de 3000 anos antes de Cristo por alguns historiadores. Esses entretanto são apenas os escritos e sua origem do ponto de vista histórico se perde no tempo. Dentro da tradição é dito que esse conhecimento se manifesta junto com a própria humanidade e que esses escritos são já uma tentativa de preservar esse conhecimento em uma era onde as pessoas não possuiriam as mesmas capacidade de memorização e estilo de vida. Imagine a imensidão dessa tradição que propõe a incapacidade humana de guardar o seu conhecimento a 4000 anos atrás.

O assunto dos Vedas, onde Vedanta é apenas uma pequena parte, é dar conhecimento aos seres humanos daquilo que não pode ser obtido diretamente pelos seus sentidos e lógica. Seja porque não temos acesso ao assunto como o “pós-morte”. Seja porque não é possível fazer uma experiência para comprovação, imagine que fosse dito que: “a mistura de manga com leite provoca doenças no final da vida”. Como alguém poderia fazer tal experimento? Teria como controlar a comida de uma pessoa a vida inteira para dizer que ela morreu de “leite com manga”!? Não é viável. E no caso de Vedanta porque o assunto é nossa real natureza que não é o objeto de um pensamento como estamos acostumados. Estamos falando de um sujeito que está além dos pensamentos. Observe como existe uma impossibilidade de conhecer o “eu” livre dos pensamentos, através de pensamentos como estamos acostumados. Mesmo que uma pessoa passasse a vida inteira pensando ela não pode descobrir raciocinando que ela mesma não raciocina. É uma contradição lógica. O “eu” é o que enxerga os pensamentos, ele é livre deles, livre das emoções e do próprio conhecimento e ignorância.

Assim os Vedas e Vedanta se colocam mais do que como um conjunto de livros. Eles são um meio de conhecimento para assuntos inacessíveis de primeira mão, mas cuja informação pode ser útil na nossa vida. Funcionam como um espelho que permite que o sujeito seja entendido mesmo ele não sendo um objeto.

Alguns assuntos como a “mistura de leite com manga” talvez não passe para muitos de uma crença, a menos que nos deparemos com um câncer ou uma doença que não se sabe a origem. Nesse momento crença ou não tentamos de tudo e os Vedas estão ali para nos ajudar, com o Ayurveda, Yoga e etc.

Vários assuntos podem não estar acessíveis para descobrir sozinho e permanecerão sempre na categoria de uma crença mas como em Vedanta o assunto sou “eu”, ele nunca fica no categoria de uma crença. Uma vez exposto pelo professor o aluno reconhece imediatamente o conhecimento como verdadeiro.

Se existe vida após a morte, não temos como saber, agora o “eu” está sempre disponível e ninguém pode nos enganar sobre ele. De fato Vedanta apenas remove um véu de ignorância que temos sobre nós mesmos, por isso que quando estudamos sempre temos a impressão de já saber o que o professor está dizendo e concordar. O estudo de Vedanta é como apreciar a si mesmo frente a um espelho existe um reconhecimento constante de si mesmo.

Essa porção chamada de Vedanta possui o que é constituída de alguns tipos de obras.

As Upanishads são os “livros fonte”. Todo conhecimento de Vedanta é encontrado lá na sua forma original. Assim as Upanishads são chamadas de pramana, um meio de conhecimento na forma de palavras e frases.

A Bhagavad Gita também é vista como um texto essencial e um livro fonte. Embora ainda seja apenas uma coleção dos conhecimentos principais contidos nas upanishads, ela possui uma linguagem muito voltada para a vida cotidiana e apresenta um estilo de vida muito importante para quem almeja esse conhecimento. Esse estilo de vida é chamado de yoga, que inclui as posturas também.

Há também os Brahma Sutras, uma análise minuciosa de todo ensinamento de vedanta organizada por tópicos. Ela se torna necessária pois existem muitos termos nas Upanishads para serem discutidos e compreendidos em profundidade. Vyasa também chamado de Bhadarayanah, outro grande professor que antecedeu Shankara, compôs um conjunto de aforismos que analisa o conhecimento dado pelas Upanishads. Sempre que uma análise era necessária, ele montava um aforismo para ela e assim o Brahma Sutra se compões.

Do que consiste o trabalho de Shankara?

O trabalho de Shankara pode ser entendido em três níveis: Upanishad Bhasyas, Prakarana Granthas e Stotrams.

Os Upanishad Bhashya, comentários das Upanishads, são as notas de Shankara a respeito das dez principais upanishads, a Gita e também esse texto de análise chamado de Brahma Sutras, ou seja toda a grande massa do acervo de Vedanta foi comentado por ele. É interessante saber que hoje se conhecem aproximadamente 108 upanishads, muitas já se perderam com o tempo, pois a tradição de ensinamento é oral, alguns textos apontam a presença de 1008 upanishads originalmente nos Vedas. Então Shankara escolheu as dez mais representativas e junto com a Gita e os Brahma Sutra, teceu seus comentários, chamados de Upanishad Bhashyas, também chamado de prasthana traya bhashya. Prasthana quer dizer caminho e traya “triplo”. A idéia é apontar que esses comentários são um caminho de três aspectos para o entendimento de Vedanta.

Sendo o shastra muito profundo e muitas vezes difícil, por causa do grau de abstração intelectual que exige das pessoas, os alunos para estudar os bhashyas, devem se preparar e entender os conceitos básicos das Upanishads com a ajuda de outros textos. Com esse propósito, foram escritos os Prakaranas Granthas. Neles, um determinado aspecto do estudo é exposto com bastante  detalhes de uma maneira acessível. Shankara escreveu muitos Prakaranas que são a referência básica para o estudo. Quando se diz que está se estudando vedanta, na maioria das vezes se estuda os prakaranas como: Tattva Bodha, Drkdrshya Viveka, Sadhana Panchakam, entre outros.

Existe também um terceiro tipo de textos oferecidos por professores como Shankara, os Stotrams. São versos livres que podem conter pequenas doses de ensinamentos, questionamentos sobre a vida ou até mesmo um caráter devocional. Não requer um comprometimento para serem estudados e vem misturado com um aspecto lúdico. Quando se conhece superficialmente Vedanta, se fala sobre as diferentes escolas da religião hindu com a visão que Shankara, é contrário ao aspecto ritualístico, devocional ou meditativo  do estudo popularmente chamado de bhakti. Existem muitas razões para as pessoas defenderem essa idéia. A principal delas talvez seja que exista uma resistência interna dupla. Das pessoas que tem o compromisso com um estudo meramente intectual a resistência por qualquer atividade associada a devoção e a Deus e elas são tratadas como se fossem uma expressão de ignorância, um nível mais básico de estudo. Para eles é muito conveniente deixar de lado o trabalho devocional de Shankara. Já para as pessoas com compromisso a atividades devocionais a resistência vem ou porque estudar exige um esforço que muitas vezes não estamos dispostos ou pelo apego as próprias praticas devocionais que são questionada e analisadas no estudo.

Contudo ambas visões são uma grande fantasia não existe autoconhecimento sem devoção e sem um entendimento maduro de Deus e vice-versa. Todos os grandes mestres incluindo Shankara eram grandes devotos e mesmo no campo devocional os textos principais foram escritos por eles. A Gita foi escrita por Vyasa, as Puranas pelo seu filho Shuka, textos emocionantes como o Ganga Stotram são do próprio Shankara.

O acervo de Vedanta dessa forma são as Upanishads a porção final dos Vedas, com todo o aparato da tradição que suporta o entendimento de sua mensagem que inclui inclusive textos devocionais, de meditação, de yoga e outros assuntos cotidianos. A idéia é que Vedanta expõe a mensagem, que “nós já somos a pessoa feliz que tanto buscamos.” na forma de um entendimento melhor sobre a vida e o mundo, que está além de grupos, religiões ou regras de vida. Por isso é preciso ter um tanto de entendimento de vedanta e maturidade pessoal para ouvir os ensinamentos, é preciso ter um desapego para avaliar nossa própria filosofia de vida e grupo que pertencemos com honestidade.

 

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  • José Francisco Dória
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    Há algum tempo tenho me interessado pelo Advaita Vedanta. Gostaria de saber qual a relação do Vedanta que vc ensina e as diferenças do Advaita.

    Grato.

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