Ao sabor da onda, num barco sem remos

Trabalhava das 7 da manhã às 3.30 da tarde em Stansted a distribuir comida pelas vending machines do aeroporto, trabalhava das 17.30 às 23:00 como empregado de mesa num restaurante italiano em Braintree. 4 meses de trabalho em que só tive 4 dias de folga seguidos.

O único objectivo desse esforço era juntar dinheiro suficiente para estudar 6 meses na Lituânia (sem trabalhar), de Janeiro a Julho de 2007 e terminar a Licenciatura. Porquê Lituânia? Simples, porque estava muito apaixonado por uma Lituana. Neste artigo o nome dela será… Elsa.

Um dia, durante a minha pausa no trabalho da noite e como habitualmente acontecia, liguei à Elsa mas ela não atendeu. Liguei no dia seguinte, não atendeu, liguei liguei liguei e nada…

Senti uma ansiedade que crescia a cada chamada não atendida. Para me sentir seguro, havia uma necessidade por saber que ela estava segura. Preocupado tentei ligar para o Pai da Elsa com quem eu tinha uma óptima relação. Ele também não atendeu o telefone e aí então, recebi uma mensagem dela a pedir para eu não ligar mais, nem para ela nem para o seu Pai pois tinha chegado o fim da nossa relação. Uma tristeza profunda invadiu o meu coração. Uma necessidade por sentir presente aquele Amor, outrora tão forte, corroía todo meu interior. O pensamento sugeria o pior, e eu não só seguia fielmente como alimentava todo o pensamento que cruzava a minha mente.

Absolutamente incrédulo, sem entender o que se passava, abandonei os 2 empregos e comprei uma passagem para a Lituânia. Tinha um plano em mente, dirigir-me até à porta de casa da Elsa, sentar-me no chão à espera que ela entrasse ou saisse, demorasse o que que demorasse.

Lituânia, Julho de 2006

Cheguei à Lituania, viajei 100 km de táxi pois não tinha tempo a perder, sentia um certo medo de ser rejeitado mas ao mesmo tempo sentia que controlava a situação e que seria impossível ela não me querer depois de uma atitude assim. Aluguei um quarto num hotel, pousei as minhas coisas e iniciei a caminhada final.

Estava a 5 minutos do destino e, azar, a Elsa passou por mim de carro, viu-me e não quis acreditar. Parou o carro e dirigiu-se a mim. O sorriso não escondia um contentamento por me ver. Sem motivo racional para verbalizar o porquê do “nosso” fim, a não ser o óbvio esfriar de sentimentos pela distância que nos separava, rapidamente, ainda nesse próprio dia, estávamos juntos novamente. Fiquei por 2 semanas de férias na Lituânia, mas como ainda faltavam 6 meses para ir para lá estudar, tive que voltar a Portugal.

Portugal Setembro de 2006

Passadas poucas semanas… eu liguei, ela não atendeu… eu liguei, ela não atendeu… eu… não liguei mais. Deja vu. Não estava no meu controle, não dependia da minha vontade, não era para acontecer.

A tristeza que tinha sentido no passado era agora uma espécie de raiva. Não raiva dela, não raiva de mim… era só raiva. Quase instantaneamente a raiva deu lugar a uma frustração, frustração que nascia do desespero por ser respeitado. Sim, a necessidade por amor não preenchida no passado era agora uma simples necessidade por respeito. Após as minhas atitudes recentes e dado o carinho que ainda sentia, achava que um telefonema ter-me-ia feito sentir esse respeito.

Vim mais tarde a saber que as razões eram as mesmas. Outra vez…

Sinto-me hoje muito grato por uma fase linda e muito emotiva que me ensinou que eu não estou no controle da Vida, que me mostrou que tenho que fazer o que posso, da melhor forma possível e que “se” tenho alguma escolha na acção, o mesmo não se pode dizer do seu resultado. Forte ou suave, Vida, bate de frente!

Esse texto sobre uma dificuldade enfrentada na vida foi escrito por João Goulart, aluno da turma Shiva.

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  • Mariana M
    Responder

    Adoro ler os textos! É bom saber da história dos alunos, acalma! rs

  • Renata A
    Responder

    Ótimo texto!
    Obrigada por compartilhar, João Goulart! =)

  • Rosi S
    Responder

    Ótimo texto, obrigada por nos presentear com ele.

  • Ana Lucia S
    Responder

    Adorei

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