Aprendendo a parar

Mais importante do que começar as vezes é saber parar. Quando as coisas não parecem estar no caminho certo é muito comum que busquemos uma solução para a vida. O que eu posso fazer para melhorar essa situação? O que você quer de mim? São frases comuns repetidas por nós tentando se resolver. Infelizmente o problema é mais fundamental, já fazemos coisas que nos tiram da nossa integridade e em vez de parar, nossa ansiedade em receber o amor e atenção das pessoas nos faz buscar mais. Contudo simplesmente parar poderia já ter resolvido o problema.

Quando estava no ashram as discussões entre alunos eram muito comuns. Isso mesmo! Comuns! Ashram é um local de confinamento e crescimento e como é de se esperar, a dor vem junto e com ela as confusões e discussões.

Se parássemos para pensar nenhuma discussão faria sentido. Um pai não tem motivo real para discutir com o filho, os dois se amam não é?! Mas a vida não segue esse caminho. A ignorância tem o poder de encobrir a nossa sanidade e muitas vezes projetamos no outro a causa das nossas dores e sofrimentos e trocamos violência. Pais abandonam filhos, filhos culpam os pais, amigos brigam por coisas que nunca aconteceram ou discutem a culpa das fatalidades da vida, quando na verdade nenhum quer o mau do outro…

E ashram não é para menos. Eu mesmo tive várias discussões, mas me lembro de uma vez um amigo que costumava ajudar um outro companheiro de curso a cuidar de suas plantas. Esse companheiro mais velho não dispunha de muito rigor físico e pedia ajuda ao meu amigo para carregar sacos e mais sacos de terra no intervalo do almoço.

O espírito de crescimento e a maturidade das pessoas em um lugar como esse inspira a gente, é um prazer poder contribuir ao outro e também de ter alguém contribuindo para nossa vida. Então as relações vão pegando inércia. A quantidade de sacos aumentou e agora o companheiro já solicitava pontualidade de horário porque ele precisava estudar… Quem vê de fora parece piada mas quando estamos por dentro do problema não é,… muito desconfortante ter alguém cobrando da gente um favor e ainda alegando que tem outras necessidades que nós estamos sacrificando para colaborar com ele.

Me lembro ao conversar com meu amigo a indignação dele de estar se dispondo do seu tempo de estudo para ser cobrado pelo outro por uma pontualidade para que o outro não perca tempo. É indignante mesmo, não só pelo desconforto, mas pelo não reconhecimento do outro pelo nosso esforço. Após mais alguns dias os dois brigaram e passaram quase 6 meses sem se falar porque: “Ele abusou de mim.”

De fato eu passei por várias situações desse tipo e quem não se vê diante desses impasses onde aparentemente qualquer caminho que siga só existe sofrimento. Em alguns casos o ponto não é o que fazer, mas saber parar de fazer, saber dizer não, se colocar como uma pessoa inteira com o poder, a sua liberdade em suas mãos. Mais cruel do que alguém abusar de nós, é nós deixarmos isso acontecer. Não pense que o abuso é unilateral, ele é sempre duplo. E não basta que eu te perdoe por “você ter me ofendido”, eu também tenho que me perdoar por “ter deixado você me ofender.”

Quando a nossa ação passa do limite onde podemos oferecê-la de livre e espontânea vontade é nossa responsabilidade parar. No caso do meu amigo ele poderia ter parado quando achasse que seu tempo ou seu esforço não fosse mais do seu interesse, mas o sacrifício em nome do outro é a semente da violência e não um símbolo de amor. Em nome de tudo que eu te fiz eu posso agora cobrar e punir você.

Por isso mais importante do que agir para consertar é saber parar o que está indo na direção errada. Vencer esse ímpeto interno, seja ele exercido por uma necessidade de ser querido ou amado, ou simplesmente entendido. Porque se o outro não está reagindo da maneira como esperamos com certeza ele não está se sentindo mais querido e amado dessa forma.

Existem 3 ensinamentos básicos para quem deseja viver em um ashram com tranquilidade e na vida com sanidade, em resumo, conviver com a ignorância do mundo:

1 – Aprender a parar.

2 – Aprender a esperar.

3 – Aprender a rezar.

Todos eles são extremamente difíceis, mas eles são o coração da nossa caminhada. São a expressão de um ser humano errante que caminha livre em um mundo que é muito maior do que ele. Essas são três qualidade que todo yogui deveria ter.

 

Showing 0 comments
  • christian aragão prado da fonseca
    Responder

    Precisava ouvir isso, obrigado Jonas!

  • Alessandra S
    Responder

    Gratidão pelas palavras tão necessárias.
    Om

  • Rodrigo Ceregatti
    Responder

    Um texto que me caiu no momento apropriado! Muito obrigado professor

Leave a Comment

Start typing and press Enter to search