Aquecimento Global

O aquecimento global – o fato da temperatura do planeta Terra estar subindo desde que começou a ser medida, por volta do fim do século XIX – em si mesmo não está diretamente relacionado com Yoga, mas a maneira como nos relacionamos com esse tema está. Yoga, na verdade, nada mais é do que um modo de relacionamento com as coisas no qual deixamos que as coisas falem conosco e nos comuniquem suas qualidades reais, ao invés de apressadamente impormos nossas opiniões subjetivas sobre as coisas e falarmos dessas opiniões achando que estamos falando sobre as coisas mesmas.

Quando se discute o tema do aquecimento global é muito difícil que haja uma conversa objetiva, presa ao fatos e desprendida de qualquer tomada de posição prévia de cunho moral ou político. De fato, existe na discussão pública brasileira o cacoete da ‘tomada de posição’ antes mesmo que as informações básicas acerca do tópico discutido tenham sido apresentadas. O sujeito, antes de ter feito qualquer pesquisa mais aprofundada sobre o tema, já está previamente imbuído do espírito de que ‘precisamos salvar o pobre planeta Terra’ (como se o aumento da temperatura tivesse uma relação necessária a priori com a devastação do planeta), e à mera audição das palavras ‘aquecimento global’ sente aquela indignação que impede seus ouvidos de ouvirem qualquer argumento cuja a possível validade possa negar as razões pelas quais ele se sente indignado – porque há nesse sujeito o amor prévio pela indignação e pelo nobre e bonito sentimento de estar combatendo o mal.

Ninguém parece ser capaz de negar o fato de que a temperatura dos mares e da atmosfera perto da superfície terrestre está aumentando já há algumas décadas, mas a razão para esse aumento não é consenso entre os próprios cientistas. O que um grupo afirma é que o dióxido de carbono é o principal responsável pelo efeito estufa (o que já é controverso; muitos afirmam que o vapor d’agua é de longe o maior responsável) e pelo consequente aumento da temperatura, e a razão dessa suposição é o fato de que o gráfico de aumento das temperaturas coincide perfeitamente com o gráfico do aumento da emissão do dióxido de carbono.

A conclusão aparentemente inconteste então é de que o dióxido de carbono provoca um efeito estufa na atmosfera e a temperatura dos mares aumenta. Contudo, alguns pesquisadores dizem que a coisa se dá ao contrário: é o aumento da temperatura dos mares que causa a emissão do dióxido de carbono – o que também explica a coincidência dos gráficos. É um fato cotidiano facilmente verificável por qualquer um que já tomou cerveja ou refrigerante que a água retém mais o gás carbônico quanto mais fria ela estiver. A cerveja chega à mesa estupidamente gelada e cheia de bolinhas (o gás), e à medida que passa o tempo ela se torna choca, desprovida das bolinhas. Por que isso acontece? Além de ter que estar aberta, a cerveja perde o gás porque esquenta. O aquecimento das águas do oceano também provoca a liberação do dióxido de carbono dissolvido na água.

A temperatura do planeta aumentou e diminuiu em diferentes períodos, sem qualquer relação com a atividade industrial humana e com a emissão de dióxido de carbono pelo homem. A própria noção de que o gás carbônico seja poluente é controversa e debatida no meio científico, e o fato das plantas se alimentarem do gás faz com que essa noção seja mesmo difícil de engolir. Além do mais, a emissão do gás pelo oceano – que cobre mais de 70% da superfície terrestre – há de ser muito maior que a emissão causada pelo homem.

Não estou aqui tomando uma posição definitiva acerca do tema. Sei que não tenho informações suficientes para isso, e que para tê-las provavelmente teria que me tornar um cientista climático amador. Quero apenas contribuir para a reflexão de que muitas vezes somos levados pela ‘opinião pública’, que nem sempre está correta simplesmente por ser a opinião da maioria. O que acredito que aconteça – e que tem tudo a ver com o funcionamento emocional do indivíduo e portanto com Yoga – é que é muito confortável seguir a opinião da maioria simplesmente pela pressão da nossa necessidade natural de aprovação e pertencimento.

Além disso, há muitas vezes o apego por crenças cuja aderência nos faz sentir que somos seres humanos intrinsecamente melhores que outros, o que está diretamente ligado com a noção que fazemos de nós mesmos de pessoas insignificantes. Há, por exemplo, toda uma ideologia de que a ‘sociedade capitalista’ esteja destruindo o planeta, e que a luta contra o capitalismo é um dever moral do cidadão de inteligência superior. Não sei se isso corresponde ou não à realidade (acho que não), mas sei que a maioria de nós está tão comprometida em termos culturais com essa tese (mesmo que não o saiba) que se torna muito difícil colocá-la em suspenso para analisar as outras possibilidades. Nesse caso, o fato do capitalismo ter fomentado a indústria e esta por sua vez ter emitido o dióxido de carbono faz com que a aderência à crença de que o dióxido de carbono é o vilão seja muito atraente para o sujeito, que tem então a impressão de verdade auto-evidente em uma coisa que é apenas uma crença baseada em outra crença.

A capacidade de viveka – de distinguir uma crença, uma esperança ou um desejo de um dado objetivo da realidade – é o que no final das contas faz uma pessoa ser um yogin, de acordo com todos os textos tradicionais, da Gita ao Yoga-sutra. A identificação cega, inconsciente, com os processos mentais (vritti-sarupyam) é o oposto de yoga.

Leave a Comment

Start typing and press Enter to search