As Leis da Natureza e Karma-Yoga

É muito fácil para a mente moderna pensar o mundo como um conjunto dinâmico de processos regidos pelas infalíveis “leis da natureza”, entendidas como necessidades físicas que simplesmente se impõe nos modos uniformes e regulares com que a matéria se comporta. O avanço da tecnologia não exige de nós mais do que o conhecimento dessas leis, e a pergunta pela origem delas parece supérflua. Mas para a filosofia e, mais ainda, para a religião – dois campos tão essenciais para a humanidade quanto o da ciência e da tecnologia – essa pergunta não poderia ser mais pertinente. De onde vêm as “leis da natureza”?.

O próprio adjetivo “natural” que qualificam as leis naturais inclinam nossa mente a aceitar que elas são criadas e sustentadas por si mesmas. A noção paradoxal de natureza como instância ao mesmo tempo criadora e inerte (inconsciente, não-inteligente) é o que faz com que aceitemos que as leis da natureza simplesmente estão aí, dadas, sem que fosse preciso para a existência delas a presença de um ser inteligente.

Entretanto, uma coisa não pode ser ao mesmo tempo inerte e criadora, porque criação significa uma organização inteligente de várias partes visando um propósito definido. O relógio é uma criação, e não um mero amontoado de partes jogadas ao acaso, porque nele podemos identificar claramente as várias partes reunidas servindo a um propósito específico: a informação das horas para um ser consciente, necessariamente distinto das partes que formam o relógio. A pulseira tem buracos para se adaptar aos diferentes diâmetros de pulso, o visor protege os frágeis ponteiros e é ao mesmo tempo transparente, para que se veja os ponteiros, que são de tamanhos diferentes indicando as diferentes medidas de tempo, e assim por diante. Vendo um relógio e entendendo as regras que regem seu funcionamento, inferimos imediatamente a existência de um ser inteligente – o relojoeiro – que o planejou. Ninguém supõe que o relógio se organizou “naturalmente”.

O que nos faz, então, supor que o mundo se organizou “naturalmente”, isto é, sem a necessidade de um ser inteligente que o planejou propositadamente? Se olharmos para a natureza, tudo o que vemos é uma arrumação inteligente de várias partes servindo não a um, mas a muitos propósitos distintos ao mesmo tempo, da maneira mais eficiente e perfeita, desde o átomo até o sol (ser um criador onisciente e onipotente significa ser o mais eficiente possível, realizando o máximo com o mínimo de fatores possíveis). Quão mais sofisticada que a inteligência presente no relógio é a inteligência presente em uma mera folha de planta? Tudo o que chamamos de natureza e supomos inerte é na verdade a inteligência manifesta de um criador. Não é sensato que não seja, e assim nos informam os Vedas.

A batalha da ciência contra Deus deve-se somente ao desconhecimento da natureza do criador que, de acordo com os Vedas e com a lógica mais fundamental, não é só a causa inteligente, mas também a causa material da criação. O que o materialismo científico parece querer negar – com toda a razão – é a existência de um ser separado do universo, em algum lugar fora dele, que o criou e o está comandando desde fora, como um bandeirinha de futebol, fora do campo, cuidadosamente vendo a linha do impedimento e pronto para levantar a bandeira vermelha! Ora, isso é uma impossibilidade lógica que nenhuma filosofia ou grande religião realmente pode sustentar. O criador de tudo, mesmo do espaço, não pode estar em algum “outro lugar” que não seja a criação mesma. A causa material de um efeito permeia todo o efeito, é todo o efeito, assim como o barro permeia todo o pote e, no fim das contas, é todo o pote. O criador do universo é a própria criação.

O criador se manifesta como a criação, o que significa dizer que ele mesmo é o “material” da criação, da mesma forma que o sonhador – criador do sonho – é o “material” o sonho. Tudo o que o sonhador vê no sonho é ele mesmo – vem dele, é sustentado por ele, e dissolve-se nele. Da mesma maneira, Deus, a inteligência criadora de tudo, está na forma de tudo, na forma da matéria e das leis que a regem – as “leis da natureza”. As leis naturais não são, portanto, expressões inertes da “natureza”, mas a manifestação, no nosso intelecto, de um recorte muito limitado de uma inteligência infinita, onisciente, incompreensível no seu todo, presente para nós como o universo.

E o que isso tem a ver com yoga? Quando Krishna, na Bhagavad-Gita, define yoga como uma equanimidade da mente (samatvam), capaz de aceitar o sucesso e o fracasso sem que se perca a paz fundamental, isso só é possível quando aceitamos que as leis do karma, que regem a ação e o seu resultado – assim como as outras leis da física, química, psicologia, etc. – são infalíveis e perfeitas, porque dadas por Deus, Ishvara, do qual tudo o que é dado é uma benção, prasada, ainda que nós não a entendamos e ela seja contrária ao nosso desejo imediato.

Fazendo a ação adequada dentro da ordem na qual está inserido, o yogin abre mão da expectativa rígida com relação ao seu resultado, porque sabe que é Ishvara quem, por assim dizer, dará o resultado daquela ação, sempre de forma perfeita e infalível. Existem relatos de pessoas que perdem a crença em Deus porque alguma tragédia ocorreu na vida delas. Ora, quem elas acham que Deus é? Alguém que a está agradando, um mordomo que está lhe servindo? Quem ela pensa que é dentro deste universo? O conceito de erro, inadequação ou mesmo de tragédia só pode ser entendido com relação a nossa expectativa (de seres fundamentalmente ignorantes), e não com relação aos fatos mesmos. Não há nada errado no universo. Não há nada de errado mesmo em você pensar que está tudo errado – que você está errado, suas emoções estão erradas, sua mãe está errada, o lugar onde você vive está errado, sua doença está errada… Contudo, estes pensamentos são tolos (sim, impressionantemente a tolice também faz parte do universo. Na verdade, é a única contribuição do indivíduo para a criação. Mas isso são outros quinhentos…). Tudo é Ishvara. Com esta atitude de devoção, uma pessoa tem uma vida apenas de amadurecimento, tomando mesmo as adversidades como oportunidades preciosas de crescimento pessoal.

O ponto que quero deixar claro aqui, com esta contraposição entre leis da natureza e karma-yoga, e que era sempre enfatizado pelo Swami Dayananda, é que não existe karma-yoga secular, isto é, mundano, meramente mecânico, prático, utilitarista, desprovido de uma visão e de um relacionamento com Deus. Uma pessoa meramente ética e madura o suficiente, pela experiência de vida, para aceitar as dificuldades sem sair por aí se descabelando não é só por isso um karma-yogin, porque lhe falta a devoção: o coração cheio e grato que apenas o relacionamento ativo com Ishvara como uma presença imediata, na forma de tudo o que acontece, de desejado ou indesejado, pode trazer. “Que seja feita a vossa vontade” é um “mantra” que sempre deveríamos ter em mente.

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