As Palavras e Vedanta

As palavras foram feitas para revelar coisas. Elas podem revelar coisas apenas em termos de espécie, atributo, ação e relação. Por exemplo, se eu digo a palavra “livro”, você imediatamente entende do que se trata, porque livro é uma espécie de coisa distinta de todas as outras. Se eu disser, “livro vermelho”, você também é capaz de compreender do que eu estou falando, pois a vermelhidão é um atributo particular prontamente revelado pela palavra “vermelho”. Palavras como “cozinheiro”, “motorista”, “professor,” “zelador”, revelam as coisas em termos da ação que elas desempenham. Finalmente, palavras como “pai”, “marido”, “dono”, revelam coisas em termos da sua relação com outras coisas.

As palavras podem revelar as coisas apenas na medida em que essas coisas possam ser enquadradas em uma das quatro características citadas acima, e o fato é que tudo o que conhecemos pode ser enquadrado nelas. Mesmo coisas invisíveis e intangíveis como emoções ou sentimentos estéticos podem ser precisamente comunicadas por simples palavras. Quando digo que estou com raiva, a raiva sendo uma espécie distinta de coisas que existem, as pessoas parecem entender o que eu digo, e, nesse caso, às vezes entendem tão bem que fingem que não entenderam só para verem o pobre coitado aqui fazendo careta.

Sentimentos estéticos, ainda que por sua própria natureza sejam difíceis de definir, como a noção de belo e sublime, podem ser facilmente comunicados. Quando digo que acho algo belo, tenho certeza de que comunico algo concreto, inteligível para os demais.

Mesmo coisas sensoriais completamente indefiníveis, como os gostos doce, salgado, ou amargo, na medida em que são experimentadas diretamente pelas pessoas, tornam-se também facilmente comunicáveis pelas palavras que se convencionou para indica-las.

O munda inteiro, enfim, é abrangido pelas palavras. O assunto de que Vedanta fala, contudo, não o é. Vedanta não fala sobre algo no mundo, sobre alguma coisa. O que Vedanta pretende revelar é, precisamente, o ilimitado.

Qualquer coisa, qualquer objeto (mesmo coisas invisíveis e intangíveis como sentimentos estão aqui incluídos na noção de objeto) só pode ser comunicado justamente porque é limitado. É a limitação que define uma coisa em particular, que a distingue das demais. A palavra “vaca” comunica algo porque vaca é uma espécie de coisa particular limitada por não ser todas as outras coisas. Mesmo uma vaca particular, a Mimosa, pode ser distinguida de todas as outras vacas porque ocupa um lugar particular no espaço, distinto de todos os outros lugares; ou seja, porque é limitada pelo espaço.

Vedanta, contudo, toma para si a peculiar tarefa de, por meio de palavras, revelar o ilimitado, o que não é distinguível em termos de objeto, tempo ou espaço. O ilimitado não é alguma coisa dentre outras, e nem existe no tempo ou no espaço. Não possui qualidades, não faz ação alguma (nem de ficar parado) e tampouco tem relação com qualquer coisa que seja. É muito claro que esta “coisa” não pode ser revelada pelas palavras.

É nesse ponto que o Vedanta tradicional se distingue do “Vedanta moderno”, como pejorativamente Swami Dayanada costumava a se referir às pessoas que ensinam algo que elas chamam de Vedanta, mas que não merece esse nome de fato. Porque o “Vedanta moderno” conclui que, se não pode ser revelado pelas palavras, o ilimitado deve ser experimentado “na caverna profunda do coração”!

Essa conclusão é – sendo educado ­– bastante constrangedora. Ter uma experiência significa necessariamente viver um evento particular no tempo, distinto dos demais eventos e nascido em um momento particular. Ora, ser algo distinto de outras coisas e ser produzido no tempo são coisas que rigorosamente não podem ser atribuídas ao ilimitado. Mas os Neo-vedantinos não se constrangem com “meras” inconsistências lógicas, fazendo delas inclusive o seu invencível trunfo: “Você ainda está preso pela lógica porque não teve A Experiência” – dizem, com um sorriso sereno no rosto, para a vergonha alheia ser completa, ilimitada.

Mas a objeção é séria: se as palavras não podem revelar o ilimitado, então Vedanta é uma brincadeira de mau gosto, porque Vedanta é justamente um meio de conhecimento para o ilimitado na forma de palavras, e apenas palavras. Como saímos desse beco sem saída?

É verdade que as palavras não podem, por seu próprio poder intrínseco, revelar o ilimitado, mas nem sempre as palavras são usadas no seu sentido literal. Existe o uso implicado das palavras, por meio do qual o ouvinte consegue largar o seu significado imediato e entender algo que não foi expressamente dito.

É claro que, no uso implicado das palavras que fazemos cotidianamente, aquilo que fica implicado pode por fim ser dito por alguma outra palavra, ou pelo acréscimo de alguma palavra que falta. Por exemplo, quando digo para alguém que tenho uma casa na praia, esse é um uso implicado das palavras, pois, se entendida literalmente, a frase dá a entender que minha casa fica de fato na praia, na areia, e não é esse o caso. Mas, como para bom entendedor meia palavra basta, não precisamos explicar isso, pois todo mundo sabe que “casa na praia” significa “casa perto da praia”. Eu estou certo de que o ouvinte adicionará por si mesmo, subconscientemente, o advérbio “perto” na frase. Aqui é importante notar que existe um contexto silencioso e social, compartilhado, que permite que usemos as palavras desse modo. Se você disser a mesma frase para um criança pequena que está começando a entender as coisas, ela certamente imaginará a casa na areia.

Em Vedanta, o processo de comunicação é similar; existe um contexto, conhecido somente por professor e aluno e conscientemente construído, dentro do qual as palavras são usadas. O aluno torna-se capaz de largar o significado imediato das palavras que pretendem revelar o ilimitado, mas reter o sentido essencial, por assim dizer. Por exemplo, a palavra “existência”, quando usada para definir o ilimitado, não tem o significado comum e literal de um atributo de um objeto. Pois só entendemos a palavra existência como uma condição, uma espécie de atributo de um objeto qualquer. Quando dizemos que o livro existe, existência é entendida como algo que pertence ao livro. O livro é que tem existência. Por si mesma, sem qualificar algum objeto, não entendemos o que significa “existência”. Nada definido nos vem à mente pela mera pronúncia da palavra.

Entretanto, quando Vedanta usa essa palavra, no contexto do ensinamento, o aluno larga naturalmente o sentido limitado e condicionado por objetos, mas retém o essencial implicado na noção de existência – aquilo que existe sempre, não condicionado por tempo, espaço ou objeto. Essa “pura existência” não é, na cabeça do aluno, um conceito abstrato, mas o seu próprio fato de ser, na medida em que essa “existência” é usada em conjunto com a palavra “consciência”. Consciência aqui, é claro, não tem o sentido imediato e comum de algo que é um atributo do sujeito, separado dos objetos, ou de uma “energia” produzida pelo cérebro. Consciência é o fato auto-evidente que permeia a tríade conhecedor-conhecimento-conhecido em qualquer momento da nossa experiência.

Este artigo não tem a mais mínima pretensão de revelar o significado do ilimitado, isto é, não pretende substituir o contexto do ensinamento tradicional de Vedanta, mas apenas dar um lampejo de entendimento de como as palavras funcionam em Vedanta. Isso porque há um muito natural mal-entendido de que as palavras em Vedanta são usadas com o seu sentido imediato, literal, o que é um engano bastante traiçoeiro, pois leva as pessoas ao seguinte raciocínio: “Eu já entendi que eu sou o ilimitado, mas agora eu preciso “realizar” isso, “experimentar” isso.” Na verdade, a pessoa não entendeu nada, zero, bulhufas, patavinas, apenas pegou no ar a palavra “ilimitado” (que no seu sentido imediato é apenas um conceito lógico, abstrato) e, ficando sem nada, concluiu naturalmente que deve “realizar” isso, o que é uma infelicíssima conclusão. Normalmente, contudo, talvez mesmo em cem por cento dos casos, essa confusão é culpa unicamente do professor, e não do pobre aluno.

Showing 5 comments
  • ludyoga@gmail.com l
    Responder

    OM…

  • mariajoaomatos.ap@gmail.com M
    Responder

    muito bom _/_

  • Lica C
    Responder

    sem palavras ! om.

  • Adriano A
    Responder

    OM
    Não há uma distancia, há uma conexão. É isso?

    • Luciano Giorgio
      Responder

      Olá, não sei se entendi a pergunta, poderia reformular com mais informações?

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