As Três Ordens de Realidade

No estudo de Vedanta – assim como no resto na vida – não há confusão maior do que misturar ordens de realidade distintas. Se você sonha que uma pessoa briga injustamente com você, por mais que o sonho tenha aparentado ser muito verdadeiro e você tenha acordado zangado ou triste, você não pode cobrar satisfações daquela pessoa no estado acordado. Isso seria loucura, porque o sonho tem apenas uma realidade subjetiva, isto é, ele é apenas uma projeção da sua própria imaginação, da sua própria memória, e existe apenas enquanto você pensa nele. O estado acordado, ao contrário, possui uma realidade empírica comum, objetiva, disponível para ser conhecida e referida por vários sujeitos, e continua existindo se você deixar de pensar nele. E só por isso acidentes acontecem: quer eu veja ou não veja o buraco, ele estará lá. É melhor andar atento.

A mistura indiscriminada entre os âmbitos subjetivos e objetivos ou empíricos, em maior ou menor grau, é o que caracteriza os diversos tipos de transtornos mentais ou loucuras. O sujeito imagina ser Napoleão Bonaparte e age no mundo empírico como se fosse o próprio. Não há uma distinção dos planos subjetivo e objetivo ou empírico, e é somente essa não distinção que chamamos de loucura. Imaginar ser Napoleão e agir como tal não é necessariamente loucura, pode ser uma diversão, uma encenação… Loucura é não discernir a imaginação da realidade e tomar um pelo outro.

Se definirmos a realidade, de acordo com o senso comum, como aquilo que existe independentemente de qualquer coisa, que existe sempre, por si só, e, assim existindo, não pode ter essa existência negada em nenhum tempo ou circunstância, então, partindo dessa definição, concluímos que o estado acordado é real, e o sonho é falso, porque o sonho depende do acordado, de onde derivo o conhecimento do mundo através dos cinco sentidos, que se torna então memória, a matéria prima do sonho. Sem estado acordado não haveria sonho, mas o contrário não é necessariamente verdadeiro. Posso supor o estado acordado sem precisar imaginar a necessidade do sonho. A realidade subjetiva é menos real que a realidade objetiva. Um paralelepípedo imaginário solto no chão não me faz tropeçar; um paralelepípedo objetivo ou empírico sim. O pensamento de que possuo 100 bilhões de dólares não me coloca na capa da revista Forbes. O pensamento “cachorro” não morde.

Temos, então, que a referência que possuímos de realidade é o estado acordado, essa experiência que estamos tendo aqui, nesse momento. Vedanta, contudo, revela um outro nível de realidade, que podemos chamar de realidade absoluta, ou realidade no sentido mesmo do termo. Esta sim, existe por si só, independente de qualquer coisa e é realmente inegável. O estado acordado, a realidade empírica, ainda que de certa forma seja mais real que o estado de sonho ou realidade subjetiva, também não existe por si só, de forma independente. Nada do que chamamos de mundo objetivo ou empírico subsiste por si mesmo. O copo que dizemos existir aqui, no qual bebemos água, é apenas vidro. Tire o vidro e não restará nada do copo. O copo não tem, portanto, realidade. Quando apontamos o copo, estamos apontando tão somente vidro e nada mais. Da mesma forma que o copo é negado à luz do vidro, o vidro é negado à luz de quaisquer que sejam as suas causas materiais. Que seja areia, moléculas, átomos, tanto faz. Quaisquer nomes e formas sempre poderão ser negados à luz de constituintes mais fundamentais.

Portanto, esse estado acordado também não é real, também não é a realidade. A consciência que sustenta, sem sofrer qualquer modificação, os três estados, i.e. acordado, sonhado e dormindo, e que permita que eu fale: “Eu dormi muito bem, sonhei com isto e aquilo e, agora, estou acordado”, essa consciência, o significado real da palavra eu, é a realidade, pois é completamente inegável (sendo a natureza do negador) e existe independentemente, não sendo um nome, uma forma, um conceito. Sou eu mesmo.

Temos, então, três ordens de realidade, se é que podemos falar dessa forma. A realidade é uma só, mas o mundo, a nossa experiência é tal que devemos acomodar certas coisas. Ainda que o copo não tenha realmente nenhuma existência independente do vidro, ainda sim o mero vidro não é suficiente para bebermos água. Portanto, nós acomodamos o copo dizendo que ele é aparente ou relativo. Esse copo relativo desfruta de um certo nível de realidade que também é distinto do nível de realidade que as asas de um cachorro possuem. Não há asa de cachorro. Copo também não há, mas há uma diferença entre essas duas coisas. Uma tem um nível de realidade empírico, enquanto a outra tem apenas uma realidade subjetiva, na minha imaginação. Isto é, se eu chegar na padaria e pedir um copo de suco serei prontamente atendido, ao passo que, se chegar pedindo por cem gramas de asa de cachorro, serei motivo de gozação, na melhor das hipóteses.

Portanto, temos que entender cada coisa no seu lugar, ainda que só haja uma única realidade. A não discriminação entre esses níveis de realidade causa confusões no mundo de Yoga e Vedanta. Causa até problemas de etiqueta! Por exemplo: morre um grande professor, como aconteceu esses dias com TKV Desikachar, ou mesmo no caso da morte do Swami Dayananda. Se dizemos, “Infelizmente o Swamiji se foi”, ou “É com pesar que anunciamos a morte de TKV Desikachar”, imediatamente recebemos vários comentários: “Não entendi o pesar!” “Infelizmente por quê?” Ou, “Por que o pesar? Não é tudo Brahman? Brahman é imortal.”

Não é assim que as coisas funcionam! É verdade que só há Brahman e Brahman é imortal, mas eu não estou falando disso. Brahman não morre nem vive, não ensina, não é professor, nem aluno, não tem ignorância nem alcança o conhecimento, não comenta no Facebook, não responde, não bebê água, nem café, nem chá, não tem dúvidas – não tem nada. Em outras palavras, não se fala de Brahman, a não ser muito cautelosamente e na hora da aula. De resto, tudo que se fala é sobre os níveis empírico ou subjetivo da realidade, ainda com o cuidado de não tomar um pelo outro desavisadamente.

Assim, quando alguém como um grande professor, que inspirava milhares de pessoas mesmo pela mera força da sua presença, morre, há motivos suficientes para o pesar. Não há? Sim, menos um bom professor na praça! Pior para o Yoga, pior para Vedanta. É simples. Não lamentar a morte de uma pessoa porque tudo é Brahman é como não almoçar hoje porque vou ter que almoçar de novo amanhã… A gente almoça porque tem fome, não para resolver o problema do vir-a-ser da vida. Se misturo os dois problemas (como cantava o bendito Raul Seixas: “Dois problemas se misturam, a verdade do universo e a prestação que vai vencer. Entro com a garrafa de bebida enrustida porque minha mulher não pode ver…”) o tiro sai pela culatra. Eu faço papel de bobo, tanto para o ignorante, que me achará estranho, quanto para o sábio, que me considerará simplório.

Comments
  • Adriana
    Responder

    Adorei essa matéria.

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