Quanto custa uma aula de yoga?

[dropcap style=”dropcap2″]A[/dropcap]pesar de termos noção da faixa de valores que se paga por uma aula, o que a tradição védica diz sobre isso às vezes passa despercebido. Seja como professor ou aluno o quanto custa uma aula de yoga é sempre um assunto amplamente discutido. Alguns dizem que é muito barato pelo resultado proposto, outros dizem que o yoga e o conhecimento espiritual de uma forma geral, deveriam ser de graça. Existem alunos que só valorizam quando o preço é alto e professores que cobram baixo e acreditam que essa é a sina do professor de yoga. E por fim alguns professores que conseguem realmente viver da aula de yoga e alunos que pagam as aulas com prazer. Qual a verdade de tudo isso? Yoga deveria ser de graça? Quanto custa uma aula de yoga?

No ocidente existe essa idéia de que o conhecimento espiritual deveria ser gratuito. Talvez ela tenha surgido por influência da Igreja que por defender o “direito do homem aos céus” e propor seu trabalho de “salvação” pela causa do próximo, tenha construído na nossa mente uma espécie de dissociação entre o dinheiro e os “céus” que representam para muitos o conceito de espiritualidade. O dinheiro ainda é chamado de “demônio ou tentação”, e os monges fazem voto de pobreza, apesar de viverem em uma das instituições mais ricas na história da humanidade. Não temos nada a ganhar em criticar a história ou a Igreja e com certeza existem pessoas sinceras e vários tipos de administração para essa instituição. Seria injusto condenar, porém não podemos negar que esses conceitos são muito bem enraizados na nossa cultura ocidental e nesse reconhecimento reganhamos consciência sobre esse assunto e podemos mudar.

Se não bastasse essa influência religiosa, existe ainda a influência da mentalidade capitalista. O capitalismo produz em geral dois efeitos: a supervalorização do dinheiro, tornando-o tão forte que vira uma espécie de tesouro fazendo a vida girar em torno dele; e uma paranóia coletiva, onde pensamos que todo mundo a todo o momento só quer pegar o que é nosso ou até mesmo nos enganar.

Nos dias de hoje, realmente, o dinheiro é um assunto importante para quem deseja o autoconhecimento, pois ele tem um papel importante na nossa mente e naturalmente na nossa vida. O uso inapropriado do dinheiro é um distúrbio, pois é um uso inapropriado de si mesmo. O dinheiro representa o “nosso suor”, os dias trabalhados, o esforço… E ele é tão forte e sutil que em folha de papel podemos fazer um cheque que representa todo o valor produzido por nós em uma vida inteira. Assim, para um yogi uma boa relação com o dinheiro é fundamental para ter uma mente equilibrada. E a boa relação com o dinheiro é que o fluxo de dinheiro “flua” proporcionalmente para aquilo que a pessoa valoriza.

Somos capazes de Custo yogagastar 200 reais em um uma bolsa ou restaurante, mas consideramos o mesmo valor caro para uma aula de yoga. Gastamos 10.000 reais para visitar índia e não somos capazes de dar 10 rupias para um mendigo na porta do templo. E ainda queremos fazer grandes negócios até mesmo com nossos supostos amigos e parentes onde “você me dá tudo e eu não te dou nada”, queremos consultas de graça, serviços e soluções para nossas vidas. Uma “cara de pau” sustentada pela fantasia de que estamos ainda fazendo um grande favor ou que pagaremos depois de outras formas. Temos a impressão que estamos economizando no bolso, mas estamos economizando no coração e nos tornando cada vez mais alienados do mundo, separados por essa barreira do “demônio”, o dinheiro.

Na visão dos Vedas o dinheiro é considerado um Devata, um aspecto divino muitas vezes chamado pelo nome de Mahalakshmi – a Deusa da riqueza. Nessa tradição ela tem que ser sempre bem tratada para que nossos empreendimentos dêem certo sejam eles quais forem. Talvez alguns mestres não estabeleçam preço ou uma mensalidade, mas mesmo no coração da Índia de acordo com os Vedas não existe aula de graça, uma vida de aluno, “brahmacari”, é uma vida de seva, serviço ao mestre, onde se trabalha muito. Isso acontecia não só porque mestre e alunos moravam juntos, mas porque enquanto estudam os alunos muitas vezes não tem condição de pagar pelos seus custos. E por isso tradicionalmente ao completar o estudo a pessoa para poder casar e seguir sua vida em frente tinha que trabalhar alguns anos para pagar ao mestre, ao local de estudo e por tudo que ele recebeu.

Da mesma maneira a tudo na tradição védica existe uma troca, que não é necessariamente financeira, mas ela sempre está presente. Quando você vai ao médico ayurvédico, você paga. Quando alguém faz um ritual, os pujares e até mesmo as pessoas que ajudam recebem um dinheiro. Quando você vai ao astrólogo, você paga pela consulta. E até mesmo quando você faz aniversário, é você quem paga. Na Índia o aniversariante não recebe presentes, o aniversário é visto como uma oportunidade de oferecer comida para todos os seus amigos e a comunidade. E ainda através deles, que ritualisticamente representam seus antepassados, a pessoa agradece por tudo que recebeu na sua vida.

Essa visão e jeito de lidar com o dinheiro não é transformar a espiritualidade em um comércio, mas se a pessoa for capaz de espiritualizar o  seu dinheiro, a sua própria vida deixa de ser um comércio. A verdade é que a vida é composta de muitas coisas que não podem ser compradas e muito poucas que o dinheiro pode pagar. Qual o valor de um pai? E uma mãe? Quanto custa a paz e a felicidade de uma pessoa? Quanto vale saber o remédio correto quando se está doente? Quanto custa um abraço? E um sorriso? Quanto se pagaria por mais um ano de vida?

Quando estamos lidando com yoga, não das posturas propriamente ditas, mas de tudo que esse nome comporta, da meditação, dos mantras, das pujas, do estilo de vida e do próprio autoconhecimento, existe realmente um valor para tudo isso? Ninguém realmente pode pagar por uma aula, talvez a gente possa pagar o tempo do professor, ou o aluguel da sala, mas esse conhecimento vem vindo atravessando milênios em cada sementinha dos japa-malas (cordão de contas usadas na meditação), que vem passando de pessoa para pessoa, de mestre para discípulo. De verdade, ninguém pode cobrar por ele, porque ele não pertence a ninguém, e ninguém pode pagar por ele porque ele não tem preço. Então quem ensina cobra o suficiente para ter um padrão de vida aceitável e faz valer todo o seu tempo dedicado a isso, como em uma aula de qualquer outro assunto, sua contribuição é dar o melhor de si pelos alunos; e quem estuda contribui proporcionalmente a suas capacidades, e seu papel é fazer com que esse conhecimento possa continuar fluindo para os próximos, como também deveria ser para qualquer outro assunto que se valoriza. Essa atitude de contribuição transforma o pagamento em o que é chamado de “dakshina”. Dakshina é um oferecimento, uma contribuição, a nossa parte, a nossa retribuição, o reconhecimento pelo que é dado a nós em cada aspecto das nossas vidas; e o respeito com os nossos próprios valores e as pessoas ao redor.

E nessa tradição é assim, se na forma da riqueza Deus é Mahalakshmi, na forma daquele que dá o conhecimento Deus é chamado de Dakshinamurti.

ओम् नमो भगवते दक्षिणामूर्तये नमः॥

 

Showing 11 comments
  • Victor Mattos
    Responder

    Muito bom (e pertinente)!

  • iqmasetti
    Responder

    Dinheiro ê um recurso necessário para se viver e uma ferramenta para se fazer algo. Dinheiro não pode ser considerado como um fim em si próprio. Ganha-se dinheiro para se fazer algo, essa troca é positiva.

  • iqmasetti
    Responder

    Também gostaria de inverter a pergunta, quanto custou para se chegar a ponto de lecionar? Quanto esforço e dedicação foram necessários? Abraços.

  • Responder

    Muito bom!!!

    • admin
      Responder

      Fico feliz que tenha gostado do artigo, essa questão do dinheiro é um ponto importante de ser trabalhada em cada um.
      abraços e harih om

      Jonas

  • Tatiane Fernandes
    Responder

    Querido Jonas,…

    Tenho acompanhado os seus textos e estou adorando ler o que você escreve.
    …gostaria de pedir sua permissão para postar este texto em nosso site.
    quero mais uma agradecer pelas ótimas conversas que tivemos.
    um grande abraço!

    Tatiane

  • rebmendes
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    Oi Jonas,

    vou compartilhar seu texto no meu blog http://actveda.blogspot.com com os devidos creditos.
    Esse texto ficou realmente bom e claro! obrigada por compartilhar!!
    Hari Om

  • Leila Maua Marnoto
    Responder

    DEPENDE MUITO DO VALOR QUE A PESSOA DA AS PRATICAS COM ORIENTAÇAO DO SEU PROFESSOR TUDO VALE A MEDIDA DO SEU INTERESSE

  • Ciro Azul Cobalto
    Responder

    Eu sei que cada "palestrinha" não sai por menos de R$500,00. E tudo que esses profissionais investem atrelando ao seu estilo de vida realmente devem e merecem ser bem remunerados. Mas confesso que a Yoga no Brasil é ainda restritiva por preço e local (geralmente as escolas ficam em áreas nobres, esquecendo de outros nichos da sociedade) e isso até dificulta terem mais adeptos, mesmo aqueles que buscam na Yoga somente a atividade física. Confesso que acho caro as aulas e gostaria de estar praticando em uma boa escola, no meu local de trabalho era oferecido aos colaboradores e eu adorava, ia todo dia. Agora pratico em casa com ajuda de dvds e livros, pois onde moro não tem onde eu fazer yoga.

  • Jonas Masetti
    Responder

    Quanto custava a aula no seu local de trabalho e perto da sua casa?
    om

  • Jonas Masetti
    Responder

    Da onde voce eh? como sao os precos das aulas por ai?

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