O infame ‘sistema de castas’, como conhecemos no ocidente, é a tradução de uma organização social Védica conhecida como varna-dharma, que divide a sociedade em quatro grupos de pessoas de acordo com a função a ser realizada por cada uma delas. Ainda que a ideia dessa divisão nos soe mal aos ouvidos, porque se choca com valores humanos que prezamos como básicos, como liberdade e igualdade, ela tinha uma função importante a cumprir na sociedade Védica. Este artigo não tem como objetivo defender a aplicação do ‘sistema de castas’ na nossa sociedade (o que seria absurdo) mas simplesmente mostrar como esse sistema fazia sentido no contexto Védico.

A maneira como uma sociedade está organizada depende dos valores que ela preza como fundamentais. Em outras palavras, depende de como a sociedade encara a questão da felicidade humana. Se acompanharmos o panorama geral da história da evolução social no ocidente veremos que ela se direciona para uma maior “liberdade individual”, se afastando de tudo aquilo que cerceia a possibilidade de um indivíduo realizar plenamente seus gostos e aversões mais imediatos.

Instituições como o casamento, por exemplo, são muito difíceis de se defender hoje em dia, porque não há nada que justifique um casamento vitalício entre duas pessoas em termos de ‘satisfação pessoal’, se entendemos esse termo como a capacidade de um indivíduo realizar plenamente seus gostos e aversões. Pois permanecer casado com uma pessoa por décadas exige a sublimação de muitos desejos do indivíduo em nome do bem-estar de algo maior do que ele, chamado casal ou família.

Também, a ascensão sempre galopante e imune a crises das indústrias do entretenimento, das drogas, do sexo, da estética, e do “bem-estar” em geral – tudo facilitado maximamente pela onipresença da internet – indica claramente qual é valor maior da nossa sociedade: o máximo de desfrute, o mais rápido possível e com o mínimo de desconforto. Afinal, é para isso que estamos trabalhando há séculos, desde que deixamos Deus de lado (para a metafísica inócua) e nos concentramos nas ciências para a domínio do mundo sensível.

Para uma sociedade assim, com esses valores, o ‘sistema de castas’ naturalmente parece uma coisa atroz, monstruosa, digna de ser combatida por todos os meios. No entanto, é só mudarmos a escala de valores que aquele sistema deixa de ser tão absurdo assim, e até apresenta certa coerência.

A sociedade Védica, tendo os Vedas como meio de conhecimento para o problema da finalidade da vida, considerava o individualismo como um obstáculo para a felicidade, de modo diametralmente oposto ao modo como a nossa sociedade hoje considera. O indivíduo cheio de gostos e aversões que precisa satisfazê-los para somente então ser feliz é produto da ignorância e está fadado ao sofrimento, porque tudo no mundo é vão e passageiro. Portanto, o valor maior era por uma diminuição da individualidade à luz de uma ordem maior chamada Ishvara, Deus, que segundo os Vedas está manifesto como a ordem universal.

Dentro dessa ordem universal – que inclui a ordem física, biológica, matemática, geométrica, química e todas as outras, conhecidas e desconhecidas – está a ordem social, aplicada ao modo como os seres humanos se organizam para benefício mútuo. Cada um tem seu papel a cumprir, e existe todo o tipo de trabalho a ser feito – desde o mais braçal e fisicamente cansativo até o mais intelectual e mentalmente exigente.

As pessoas também são diferentes, com aptidões próprias. O Veda – que sempre foi considerado revelação divina – organizou a sociedade de maneira que cada pessoa trabalhasse com aquilo que se encaixasse com sua aptidão natural, de modo a tornar as coisas muito simples e diretas, sem espaço para muitas dúvidas ou escolhas (gostos e aversões). Assim, as pessoas com disposição sattva (capacidade intelectual) foram designadas para o ensino e liturgia, o que resultou na classe dos brâmanes, e os filhos dessas pessoas, tendo grande chance de herdar a mesma qualidade dos pais, exerciam a mesma profissão por nascimento.

Similarmente, as pessoas com disposição principal de rajas (capacidade de ação) e com sattva como disposição secundária foram organizadas na classe nos governantes e guerreiros, kshatriyas, e as pessoas com disposição principal de rajas, mas com tamas (capacidade de inércia, estagnação, ignorância) como disposição secundária, foram organizadas na classe dos comerciantes, vaishyas. Finalmente, as pessoas com disposição principal de tamas foram organizadas na classe dos serviçais.

Essa organização deixava muito claro para cada indivíduo qual era o seu svadharma, o seu papel a cumprir na sociedade. Deixando de lado as vantagens materiais de que as classes mais altas usufruíam (existem mais coisas entre o céu e a terra do que marxismo, acreditem), o principal é notarmos como esse tipo de organização social está ligado ao modo como a sociedade Védica entendia a questão da felicidade humana.

Segundo os Vedas, um indivíduo é tanto mais feliz quanto menor for o domínio que os seus gostos e aversões têm sobre ele. É claro que qualquer indivíduo terá seu grupo de gostos e aversões, mas a capacidade de abrir mão deles quando necessário sem que isso cause uma sensação fundamental de perda é o que os Vedas consideram uma realização pessoal de fato. Pois a satisfação de gostos e aversões, ainda que muito agradável, não é realização nenhuma, já que os gostos e aversões não diminuem à medida em que são satisfeitos, mas, justamente o contrário, aumentam. O indivíduo tende a tornar-se mais mimado e intransigente e, portanto, mais difícil de ser agradado quanto mais ampla e sofisticada for sua experiência de satisfação de desejos.

Considerando a realização humana desse modo, torna-se possível apreciar a função do varna-dharma na sociedade Védica, pois todas as quatro castas têm a mesmíssima possibilidade de realizar esse ideal, desde que façam o que é esperado delas com um espírito de contribuição para a ordem social (que é uma expressão do dharma universal, de Deus) deixando de lado seus gostos e aversões mais imediatos. De fato, esse sistema não faz sentido quando pensamos a finalidade da vida como satisfação de gostos e aversões, mas esse conceito de felicidade, longe de ser universal e atemporal, é apenas uma concepção muito particular da nossa sociedade, que tem uma data de início e certamente encontrará seu fim em algum apocalipse aparentemente não muito distante.

Assim, o sistema de varna-dharma só pode ser apreciado por nós se conseguirmos vislumbrar a verdade acerca da relação direta entre felicidade e diminuição da individualidade (dos gostos e aversões), o que é certamente difícil de se fazer levando em conta que crescemos permeados pela infeliz ideia de que felicidade significa a satisfação mais eficiente de todos os nossos desejos.

Comments
  • Dirceu E
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    Muito bom texto!
    Gostei da abordagem do assunto. Traz um contraponto entre a visão ocidental materialista de felicidade e a organização social de castas proposta pela cultura védica.
    Ficou claro que não podemos analisar uma cultura diferente da nossa por uma análise superficial, descontextualizada e preconceituosa.
    No próprio ocidente, na idade média, existiu um sistema de divisão de classes semelhante denominado Feudalismo, dividido entre Clero, nobres e vassalos e servos.
    Então, nós vemos o cisco no olho do olho de nosso irmão e não conseguimos ver a trave que está diante dos nos nossos olhos, como disse o Mestre.
    Mas, como está mencionado no texto, o sistema de castas foi um sistema de organização de outra época e seria um absurdo querer mantê-lo nos dias atuais, além do fato de que esse sistema se degenerou no decorrer dos anos e ocorreram muitos abusos na sociedade indiana, muitos deles combatidos por M. Gandhi.

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