Vida e Morte na tradição Védica

Na Katha – Upanishad, Nasciketas, um menino enviado por engano pelo próprio pai, para Yama, a deidade que simboliza a morte, recebe o mais sagrado dos ensinamentos que é representado pela palavra OM.

No segundo capítulo – quinta seção, no desdobramento desses ensinamentos, senhor Yama diz alguns versos sobre a vida e a morte como vemos a seguir:

कठोपनिषत् वल्लि-५
 
न प्राणेन न अपानेन मर्त्यो जीवति कश्चन इतरेण तु जीवन्ति यस्मिन्नेावुपाश्रितौ ।।५।।
 
हन्त ते इदं प्रवक्ष्यामि गुह्यं ब्रह्म सनातनम् । यथा च मरणं प्राप्य आत्मा भवति गौतम ।।६।।
 
योनिमन्ये प्रपद्यन्ते शरीरत्वाय देहिनः । स्थाणुमन्येऽनुसंयन्ति यथाकर्म यथाश्रुतम ।।७।।
 
Um mortal não vive devido a suas capacidades fisiológicas, sua respiração e alimentação. É devido a outro fator externo que essas capacidades todas existem. 5
 
Preste atenção, descendente de Gautama (Nasciketas),
eu vou te revelar esse segredo que é Brahma, o eterno. 6
 
Com esse conhecimento, mesmo da morte você se tornará livre,
pois ele é a “tela” onde todos os indivíduos caminham de corpo para corpo,
de acordo com o dharma e seus karmas. 7
 

Às vezes pensamos que nossas capacidades fisiológicas sustentam a vida, o que por um ângulo parece correto, contudo se olharmos de maneira mais ampla vamos observar que existe muito mais por detrás da vida do que as capacidades do nosso corpo. Não basta respirar, é necessário oxigênio. Não basta comer, os alimentos tem que ser nutritivos e curar as doenças do corpo. Não basta estar vivo, é necessário interação com ser humano, troca, carinho e afeto. Vida não é um sinônimo de respirar, a vida é sustentada por todo universo e por nossa experiência nele. A causa das nossas capacidades fisiológicas, é a mesma causa do oxigênio da comida e de todo universo e é devido a ela que existe vida, em outras palavras ela é a própria vida.

Essa causa é chamada nos textos da tradição védica como Brahma, que quer dizer o maior de todos, aquele que está em todo lugar e é a base de tudo, eterno, sem sofrer modificações e que está na forma de todo o universo. Esse é um grande segredo, pois o universo está na nossa frente o tempo todo, mas não percebemos esse fato. O maior segredo não está escondido em um cofre, ele está escondido no nosso próprio bolso. Brahma a causa do universo está sempre disponível e portanto ele não pode ser mostrado, apenas revelado.

Esse conhecimento é libertador, pois elimina a identificação com a individualidade corpo e mente. Não se vendo como corpo e mente, não existe mais razão para o medo, pois não existe visão de morte. Ele é a base como a tela de uma pintura, onde todos os indivíduos “caminham” na sua vida e depois para outra adquirindo novos corpos. Essa aquisição de novos corpos é governada por uma lei, que traz a cada um, o corpo necessário para receber os resultados das suas ações anteriores.

Na tradição védica,tumulo a morte é vista como uma passagem de um corpo para outro, não existe uma distinção entre morte e nascimento. Nascer em um lugar significa morrer em outro, como alguém quando acorda de um sonho morre para ele, e quando entra em um sonho morre para o mundo físico. O peso da morte é o medo proveniente da identificação com o corpo físico e a liberdade da morte é a visão de que sou diferente do corpo, da mente, das emoções e das ações como um todo. Entender Brahma é uma operação cirúrgica de um professor para fusão da personalidade com a base imutável do universo.

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