Combatendo a Falsa Honestidade com Comunicação Yogui

Honestidade é um dos valores que formam a base da vida de um Yogui, definida classicamente como uma retidão entre pensar, falar e agir. Contudo, em nossa sociedade, muitas vezes nós mascaramos a honestidade observando somente a sua definição, sem uma conexão com o seu real significado. Através de um condicionamento, fruto de uma análise intelectual e fria da vida, nos afastamos de “nós mesmos”, de nossa essência, do que sentimos e do que realmente é importante. Aprendemos a não ser verdadeiramente sinceros e a não dizer o que pensamos como uma forma de  proteção. A falsidade externa só é possível perante uma falsidade interna. A forma como interagimos com o mundo é um reflexo de como interagimos internamente. Com o tempo a nossa a comunicação e relações externas e internas se tornam omissas e fragmentadas, e por isso as pessoas nunca se entendem. De verdade todos querem se conectar com os outros, mas o afastamento dos nossos valores fundamentais através de um doutrinamento sócio-cultural nos coloca com obstáculos fantasmas: crenças e tabus do que deve e não deve ser feito por mim. Nossa comunicação fica pobre,  nossa fala superficial e distante sem ao menos nos darmos conta. Para facilitar o entendimento do conceito de HONESTIDADE ele será dividido em dois tipos: A Honestidade falsa e a Honestidade Divina.

Enquanto essa distinção não for realizada, por mais que sejamos honestos de acordo com a opinião pública, nosso coração não transcende o peso das relações humanas, e vivemos a vida com uma retidão nostálgica, onde o mundo parece injusto e egoísta. Qual é então o real significado da palavra honestidade e qual diferença entre esses dois tipos de honestidade?

Chamamos de honesto genericamente a pessoa que age de maneira proporcional, de acordo com  as regras sociais, que não rouba,  e que  diz o que pensa. Como se a honestidade fosse uma qualidade de “se reter, de se fechar”, e não se deixar guiar pelos impulsos e emoções. É verdade que saber controlar os impulsos é algo bom, ainda mais em uma sociedade tão categórica e punitiva como essa que vivemos. Contudo controlar os impulsos não faz uma pessoa ser honesta. Controlar o impulso de não pegar o que é do outro, faz da gente “respeitoso” e “justo” em algumas ocasiões. Dizer o que pensa independente do que o outro pensa, pode ser dito como coragem, ou ousadia, mas também não necessariamente é honestidade, até por que agir independente da opinião das outras pessoas, pode nos tornar grosseiros e ríspidos, o que não é desejado.

Em todas essas ocasiões onde existe um compromisso em se dizer uma verdade, podemos dizer que existe algum tipo de honestidade, afinal não existe mentira e podem existir qualidades positivas como a coragem de se expor. Entretanto existe um passo ainda maior a dar, que os sábios apontam como a honestidade divina, em contraponto com a falsa honestidade do mundo dos homens.

Rumi, um poeta sufi, costumava dizer:

“Existe um espaço além do certo e do errado, eu te encontro lá.”

 

“Certo”, “errado”, “egoísta”, “justo”, e todos os nomes categóricos, que julgam as pessoas e as ações, foram criados pelo homem e surgem da nossa necessidade natural de viver em harmonia e ordem, da necessidade de proteger as pessoas de abusos e etc. Contudo no tempo esquecemos para que essas categorias foram criadas e damos mais realidade a elas do que as próprias pessoas. Pessoas cometem erros e viram num piscar dos olhos criminosos, pecadores e errados. Uma pessoa pode cometer um crime, mas ela não pode virar uma “criminosa”. O “criminoso” como categoria me separa da humanidade na outra pessoa e me coloca em um patamar superior que me dá ao direito de julgar e até mesmo punir a outra pessoa com prazer.

As palavras de julgamento categórico são as grandes responsáveis pela violência entre as pessoas, e de uma maneira mais profunda a violência consigo mesmo.

Imagine uma mãe há 100 anos atrás, onde se acreditava piamente que lugar de mulher é na cozinha e ela não goste de cozinhar. Como ela vive em uma sociedade que prescreve que uma mulher deve saber e inclusive gostar de cozinhar?

Ela vive com um sentimento de inadequação que é irreparável por aquela sociedade. Quando a lei e os rótulos se colocam na frente da humanidade e das pessoas o fim é sempre trágico. Existe um autojulgamento constante de que “eu não sirvo” “que sou um errado” e consequentemente que “eu mereço sofrer”.

A honestidade divina consiste em levar um vida com a liberdade de quem está livre dos rótulos, sendo capaz de se expressar e ouvir as pessoas e sua realidade. Pré-julgamentos até certo ponto são inevitáveis, não estamos dizendo que devemos abandonar qualquer julgamento, mas sim, gostaríamos de ter a flexibilidade e a disposição de se surpreender com as pessoas. Para isso vamos querer desenvolver uma linguagem interna que não seja baseada neles, nem que façam a mente ficar se maltratando continuamente. De verdade, queremos uma “linguagem de vida” que esteja presente nos nossos pensamentos e nas nossas palavras, que nos faça viver melhor em sociedade e que nos dê o espaço necessário para crescer. Essa linguagem, que é ensinada, respeita as pessoas da maneira como Deus criou, sem o julgamento da opinião do certo e errado, a honestidade divina.

“A honestidade divina não julga, nem em atos, nem em palavras, nem em pensamentos.”

 

Curiosamente essa honestidade não é mais uma categoria criada para julgar as pessoas, mas um espaço, uma habilidade interna de se expor e entrar em contato com uma vulnerabilidade pessoal e social. A honestidade divina não é um atributo de uma pessoa, é apenas uma linguagem disponível para qualquer um. Ninguém pode possuí-la pois ela já está disponível para você, e através do seu reconhecimento poderá entrar em contato com ela.

Imagine um filho que é chamado a atenção e leva um bronca na frente dos amigos pela sua mãe, e que passado alguns dias ainda guarde o remorso do ato. Se pedíssemos a ele para ser honesto e contar para a mãe o que ele pensa. Ele poderia dizer:

“Eu acho minha mãe uma imbecil e burra!”

Ele foi honesto? Podemos dizer que sim, mas uma honestidade muito pobre, porque com certeza essa expressão lhe afasta da mãe, das pessoas a sua volta e de si mesmo. Afinal filho de peixe, peixinho é!

Imagine que ele tivesse o preparo para dizer:

“Eu to morrendo de raiva, porque minha necessidade por respeito não é atendida quando você grita comigo na frente dos meus amigos.”

Observe como apesar de expressar a raiva “com todas as letras” e dizer com detalhes o ocorrido, existe um sentimento muito melhor ao ouvir a segunda frase do que a primeira. Observe como é possível se expressar sem transformar a outra pessoas em um “imbecil” ou condenável.

Essa é uma honestidade divina, pois mostra o que está acontecendo com ele naquele momento do ponto vista emocional, sem condenar a outra pessoa e ainda estimulando sua aproximação.

Conquistar essa linguagem é uma necessidade para viver e se comunicar com o próximo, por isso que durante a formação do Swami Dayananda na Índia, os mestres dão tanta importância para convivência mestre discípulo e o aprendizado que ocorre fora da sala de aula. Existe muito a se aprender no viver e se relacionar embutido no conhecimento de vedanta e yoga.

Gostaria que refletissem sobre um ditado de lutador muito interessante e profundo que diz assim:

Comunicação Yogui - Honestidade

“Em um combate o vencedor sempre perde, mas quem perde ganha.”

 

“Na minha convivência com os Mestres na Índia, entrei em contato com essa forma fantástica de se comunicar dos mestres e elaborei com auxílio dos meus professores um “curso de comunicação yogui” – visando dar ênfase no aspecto humano dos nossos pensamento usando como veículo a comunicação. De todos os cursos que ministrei, esse foi o que mais despertou o interesse dos alunos. Esse curso visa trazer esse aspecto da mudança de linguagem para aprendermos a resolver nossos problemas emocionais e mediar conflitos em família ou no trabalho. Esse curso já foi ministrado mais de 20 vezes e sempre é muito emocionante e revelador. – Jonas Masetti”

 

 

 

 

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