Como alcançar a felicidade?

Tudo o que uma pessoa faz, ela faz tendo em vista a sua felicidade. Mesmo o mais abnegado humanista, que abdica dos seus prazeres e confortos em benefício do próximo, também faz isso pela sua própria felicidade, por que se sente bem fazendo isso.

Talvez o filantropo obtenha uma felicidade mais consistente do que o avarento que só pensa em dinheiro e não consegue gastá-lo nem consigo mesmo, o que dirá com os outros. De qualquer modo, em ambos os casos a felicidade não é estável, segura. O avarento só se satisfaz no fugaz momento em que ganha algum dinheiro, e no minuto seguinte já está preocupado em como investi-lo da melhor maneira ou em como escondê-lo dos outros. Mas o filantropo também se perturba e se sente infeliz ao reconhecer seus próprios limites de não conseguir ajudar todos o tanto quanto queria, entre outras coisas.

Há também aqueles que procuram garantir a felicidade por meio da busca contínua pelos prazeres da vida, e o destino deles também é a mesma infelicidade. Pois os sentidos se cansam dos objetos, e se tornam mais exigentes, perdendo o interesse nos deleites costumeiros e reivindicando novos e mais extravagantes. No final, o sujeito está esgotado e infeliz.

Ainda que nunca alcancemos plenamente a felicidade que buscamos, não conseguimos abdicar desta busca. Sempre que buscamos por algo e não o alcançamos depois de algumas tentativas (ou de muitas, se formos teimosos), nós naturalmente desistimos da busca. Mas a busca por felicidade não se enquadra nesta categoria. Ninguém desiste da felicidade.

Desistir de algo significa abandonar este algo e esquecer dele. Desistir da coisa e ficar pensando nela, frustrado, é não desistir, pois você ainda está de algum modo insistindo nela. Pois bem, ninguém consegue colocar a busca por felicidade realmente de lado e dizer, – ‘Chega disso’, simplesmente porque a vontade de abandonar a busca pela felicidade é apenas mais uma expressão desta busca mesma. Querer abandonar a busca incessante e frustrante pela felicidade é só mais uma maneira de tentar ser feliz.

Não conseguir alcançar a felicidade e ao mesmo tempo não conseguir desistir dela é o que a tradição Védica chama de samsara. O samsara é: se ficar o bicho come, se correr o bicho pega. O que você vai fazer?

Todo o problema, dizem os Vedas, está no fato de considerarmos a nós mesmos como seres carentes, buscadores de algo que nos complete. Todo mundo parte da premissa de ser insignificante e a partir daí logicamente não consegue tornar-se algo de significativo, por mais que se esforce. Porque quem se esforça é o próprio insignificante, aquele que já concluiu a sua pequenez.

Os Vedas pretendem revelar para nós que esta conclusão é falsa, baseada na ignorância. O Veda pretende nos dar a libertação do samsara, mas não dando ao insignificante alguma coisa a que se prender para tornar-se significante, mas negando por meio de um conhecimento a nossa conclusão inicial de insignificância.

O ‘eu’ não é insignificante. O corpo pode até ser, com a suas doenças, fraquezas, e  mortalidade. A mente também, com o seu conhecimento limitado e insatisfatório. Mas eu – eu mesmo – que sou distinto do corpo e da mente, não sou. É isto que o Veda pretende revelar, livrando você definitivamente da busca por se tornar melhor, por se tornar feliz.

 

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