Como expressar meus sentimentos efetivamente? (Vak Ahimsa)

Esse é um tema muito importante para quem deseja viver com harmonia e lutar contra o espírito capitalista de competição e rivalidade na sua família e ambiente de trabalho. Fomos treinados por muito tempo em expressar nossos sentimentos através de rótulos e um conjunto de regras como: “você é um idiota, não podia ter feito isso comigo.”. Esse treinamento, imposto pela sociedade, de crítica e julgamentos nos afasta da nossa humanidade que é aquilo que faz com que sintamos bem na presença dos outros. Mesmo que a pessoa tenha cometido uma injustiça e nos ferido, uma linguagem negativa de críticas afasta as pessoas dos nossos sentimentos e da dor, instalando no outro a culpa, a vergonha e o medo. Instintivamente a outra pessoa se fecha, em um processo de defesa e muitas vezes cria-se o hábito ainda pior de provar que a outra pessoa está sempre errada. Por outro lado a expressão sincera e honesta dos nossos sentimentos, nos aproxima e invoca na outra pessoa a compaixão e consequentemente a vontade de ajudar e contribuir um na vida do outro, por isso é fundamental saber como expressar meus sentimentos efetivamente e usar desse conhecimento no nosso dia a dia.

Apesar da nossa fonte de estudos serem os Vedas e a tradição como um todo de professores, não devemos ser ortodoxos de achar que a nossa sociedade não possui nada de bom para nos ensinar. Na psicologia e nos grupos terapêuticos da Califórnia muitos conceitos que circundam o yoga já são muito bem disseminados e trabalhados com outros nomes. De certa maneira os trabalhos terapêuticos ocidentais acabam fazendo parte da busca espiritual contemporânea, tendo em vista que o modo de vida que era seguido antigamente supria diversas necessidades, que hoje ficam ao léu.

As famílias há um pouco mais de 100 anos atrás viviam em núcleos mais definidos, eram mais unidos e tinham menos privacidade. Se por um lado isso não é bom nos olhos de um cidadão da sociedade atual com toda sua necessidade de espaço e independência, essa convivência supria uma necessidade natural de troca de pensamentos, sentimentos, experiências e idéias que permitia uma espécie de tratamento terapêutico natural, nas trocas de dentro de casa. Claro que não precisamos generalizar e sabemos que tudo tem seu lado negativo, mas o sentimento de alienação do homem e suas escolhas de vida eram suportadas por diversas outras cabeças familiares, dando um senso de segurança e acolhimento. Com a mudança societária, a vida moderna e independente surge a necessidade natural de um momento de diálogo e expressão que na maioria das vezes é preenchida por um psicólogo ou terapeuta.

Mesmo na Índia talvez em um dos únicos ashrams – retiros, que são abertos para ocidentais e os ensinamentos ainda são passados tradicionalmente, vemos como todas as pessoas tem uma carência por um trabalho terapêutico que lhe permite enxergar os próprios sentimentos com objetividade. Graças as bênçãos dos mestres durante o curso de 3 anos que passei de 2010 – 2013 tive a oportunidade de conhecer diversos amigos que tinham alguma experiência nesse assunto, seja de uma formação de psicologia ou terapêutica. De fato não era um leigo no assunto quando cheguei lá, já tinha feito alguns anos de análise e diferentes terapias que foram importantes para ser capaz de receber e apreciar os ensinamentos dos mestres, mas existiu um conjunto de técnicas que aprendi para lidar com os meus momentos mais difíceis que realmente fizeram diferença e é uma delas que gostaria de compartilhar com vocês nesse momento.

Tradicionalmente ela deveria ser chamada de VAK TAPAS, uma disciplina da fala ou de comunicação, mas é muito mais que uma disciplina como vocês vão ver. É todo um entendimento de si e da sociedade em termos da razão por detrás das ações, nossa humanidade e um cuidado especial em transmitir esses valores enquanto nos comunicamos.

Um dos autores que me marcou nesse processo de estudo foi o Marshall Rosenberg, um americano de origem judaica, que apresenta uma estrutura muito semelhante ao que apresento a vocês, e para ele vão pelo menos 60% dos meus pranams – saudações, pois além de ser um ótimo orador seus exemplos tornam muito claro a eficiência dessa técnica. Uma outra referência que gostaria de citar de fora da tradição védica é o livro chamado “Shambala” que apesar de ter uma linguagem bem figurativa e lúdica apresenta nossa relação com a criança interior de forma bem acessível para a mente ocidental e que pode ser um complemento ao uso dessa técnica quando ela usado nos nosso diálogos internos.

Para entender essa técnica, disciplina ou modo de viver,  se faz necessário perceber que existe um valor como ser humano que está por detrás de todos os outros, esse é o que é chamado de AHIMSA, traduzido popularmente como não-violência.

A tradução é correta, porém existe um pouco mais para ser entendido sobre as implicações desse nome. A apresentação de um valor com uma negação, “não”-violência é algo no mínimo curioso. Por que não é dito para gente “harmonia”, ou “saúde”, “paz”?  Por que dizer o que eu não quero?

A resposta é mais interessante ainda. Porque não temos realmente um interesse pela paz e a harmonia, vistos que elas são condições naturais nossas como ser humano e por isso quando estamos em paz “não queremos nada”. No momento de equilíbrio, a disciplina ou exercício perdem seu propósito, contudo quando não existe a harmonia, existe a divisão e no decorrer do tempo a violência também aparece. Portanto de forma prática o nosso desejo vem junto com a presença da divisão e da violência, que é o que queremos evitar e por isso o termo não-violência se torna relevante.

Por detrás de todos os sentimentos, existe essa divisão, entre eu e o outro; seja porque “ele não quer o melhor para mim, porque eu preciso disso ou não suporto aquilo”, então quando dizemos que o principal valor é ahimsa, isso quer dizer que através do exercício para evitar a violência, invocamos a unidade e a harmonia com as pessoas e situações. Essa divisão que combatemos é a verdadeira causa dos nossos problemas em sociedade.

Esse é o princípio que está delineando todo essa disciplina de comunicação e que uma vez entendido fará com que o processo como um todo seja natural. Assim tradicionalmente vamos chamar esse método de “comunicação yogui” de “Vak Ahimsa”, a não violência aplicada a fala, esse mesmo termo aparece na Bhagavad Gita como um dos aspectos da fala de um yogui. É dito que a fala do yogui deve ser: satyam (verdadeira), priyam (agradável), hitam (com o propósito do bem) e anudvegakaram (sem despertar reações nas outras pessoas).  Esse último termo anudvegakaram é o nosso tema de discussão.

Em geral acreditamos que não despertar reações nas pessoas significa dizer o que as pessoas querem ouvir, ou de maneira agradável. Falar de um jeito doce e agradável é priyam, certo nível de simpatia e sensibilidade; já dizer o que as pessoas querem ouvir sempre, nos impossibilita de se comunicar, afinal temos um compromisso com a verdade satyam. Nosso problema é exatamente ser capaz de comunicar as coisas que não são desejáveis quando elas tem um bom propósito (hirtam) sem despertar reações no outro. Anudvegakaram é o nosso verdadeiro desafio.

É ser capaz de mostrar nossas humanidade para outra pessoa, através dos nossos sentimentos e necessidades, que faz com que mesmo que a notícia seja ruim a outra pessoa não sinta uma desconexão e bloqueio conosco. A linguagem, a escolha das palavras são apenas uma parte pequena de todo o processo, estamos lidando com um sistema de valores, estilo de vida e maneira de pensar que é manifesto em uma forma de comunicação. Esse protocolo, método de se comunicar suporta e contribuí para uma forma de vida que é o que estamos interessados. Anudvegarakam é mais do que simplesmente nossa intenção de não machucar ou perturbar o próximo, ele contribui e reforça uma maneira saudável de se viver, em outras palavras o yoga.

Vak-Ahimsa como estamos chamando para fins práticos essa disciplina e técnica de comunicação  é um esforço para uma mudança cognitiva e de uma estrutura de pensamentos, que humaniza as nossas relações, traz de volta uma sensibilidade e um contato com as nossas necessidades básica como ser humano e consequentemente dos outros também. Somos ensinados a dizer: “obrigado; eu te amo; por favor” mas essas são apenas formas de ser educados e fazer a outra pessoa se sentir bem. Essas palavras e muitas outras que conhecemos no nosso dia dia precisam de um recheio, um conteúdo emocional e humano para que sejam realmente uma maneira eficiente de passar nossas emoções.

Dar as palavras a capacidade de transmitir nossos sentimentos é uma arte que para ser dominada se faz necessária a prática e certa dose de coragem para se comunicar de uma forma diferente. As palavras são um veículo de sentimentos quando elas são capazes de recriar com seu significado as emoções que sentimos ao pronunciá-las. E expressar essas emoções exige um conjugo de quatro fatores:

  1. Mudança de paradigma onde eu entendo o valor dos meus sentimentos na comunicação e estou diposto a expo-los.
  2. Contato com meus sentimentos e um vocabulário capaz de transmitir as nuances do que está vivo dentro do coração
  3. Conhecimento a respeito das minhas necessidades que são responsáveis por cada sentimento
  4. Sensibilidade na forma de expor esse pacote de sentimentos e necessidades para que esses possam ser entendidos pelo outro

Esse é o papel de Vak-ahimsa, que está por trás de anudvegakaram, mostrar como rechear nossas palavras com aquilo que temos de melhor na gente e contribuir para vida das outras pessoas, não é realmente uma disciplina é uma necessidade como ser humano de ser entendido emocionalmente expressa na forma de uma visão a respeito da forma de se comunicar com o próximo.

OM TAT SAT

 

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