Vedanta utiliza a palavra consciência de maneira bastante peculiar, e todo o estudo serve para que entendamos o que essa palavra quer dizer no contexto em que está sendo apresentada. Acho que será benéfico para os estudantes de Vedanta que neste artigo eu trate da distinção básica que existe entre o significado usual da palavra consciência e aquele que Vedanta visa quando utiliza o termo.

Procure a palavra consciência no Google e um dos primeiros resultados será a definição de consciência dada pela Wikipédia, cuja primeira linha diz: ‘A consciência é uma qualidade da mente…’, e mesmo sem acabar de ler a frase qualquer estudante de Vedanta já é capaz de dizer que o termo homônimo usado por nós em Vedanta não diz a mesma coisa de maneira nenhuma.

A consciência como uma qualidade da mente é de fato o significado usual da palavra consciência. Quando dizemos, ‘Eu sou consciente do livro’, isto significa que o livro é um pensamento na minha mente. Ou, quando dizemos de nós mesmos, ‘Eu sou consciente’, estamos dizendo que temos uma capacidade de percepção do mundo e de auto-percepção que uma pedra não tem, porque pedra não pensa, não é consciente. Em ambos os casos, as atividades de pensar e perceber – que são atividades da mente – são atribuídas à palavra consciência.

Também usamos corriqueiramente a palavra consciência no sentido de ‘consciência moral’, como quando dizemos para uma pessoa que está prestes a fazer uma besteira: ‘Ponha a mão na consciência!’, que significa: ‘Pense bem, considere as coisas direito, não faça nada impensado, pense nas consequências, etc., etc.’ De novo, estamos falando de uma atividade mental do sujeito.

Usando a palavra nesse sentido, não temos dúvida de que consciência é uma qualidade mental, porque consciência em todos estes casos equivale a algum tipo de pensamento, que é um atributo da mente.

No entanto, é bastante curioso que todas essas atividades mentais tenham uma unidade na percepção que o indivíduo tem de si mesmo e, ao mesmo tempo, essa consciência que permite tal remissão de todas as atividades mentais a um único sujeito não seja considerada distinta dos pensamentos. Porque eu sei que, quando percebo o livro, eu sou o mesmo que percebe a flor em um momento posterior, e sou o mesmo que percebe a si mesmo percebendo a flor e o livro. Se a consciência fosse idêntica à atividade mental, então as várias e distintas percepções de objetos não poderiam ser subsumidas a um só percebedor. Na verdade, elas sequer poderiam ser percebidas.

Explico. Quando usualmente, na linguagem cotidiana e também da ciência, se diz que consciência é uma qualidade mental, o que está sendo dito é que consciência é pensamento. Mas, se consciência é pensamento, e os pensamentos são momentâneos – um sucedendo o outro, ininterruptamente – então não há nenhum fator permanente que responderia pelo reconhecimento do fluxo de pensamentos e da experiência de um só ‘eu’ como o percebedor dos vários pensamentos.

Afinal, o que é isto que é responsável pela percepção dos pensamentos, mas que não é nenhum pensamento particular? Está claro que não é um pensamento, mas aquilo que torna os pensamento possíveis.

Vedanta considera a mente como um fluxo de pensamentos. Não há uma entidade chamada mente independente desse fluxo de pensamentos, assim como não há uma entidade chamada ‘chama da vela’ independente das várias micro-combustões que ocorrem a cada instante, dando a impressão de uma só chama substancial. Assim, se a consciência fosse idêntica ao pensamento, a consciência de livro seria completamente distinta da consciência de flor, e você não poderia dizer que você é o mesmo que percebeu a flor e o livro, pois seriam dois ‘eus’ completamente distintos e não conectados entre si de nenhuma maneira. No entanto, não é isso o que ocorre, e não existiria experiência nenhuma se fosse assim. Portanto, consciência não é mente, não é pensamento, mas um fator distinto.

Este fator  chamado de consciência e que deve ser distinto dos pensamentos não é algo que possa ser estudado pela ciência, porque não pode ser objetificado. Quando a ciência diz que estuda a consciência o que ela quer dizer, ingenuamente, é que ela estuda a mente, os pensamentos. A consciência é aquele fator responsável por trazer os pensamentos à luz, mas que não se torna nunca um objeto iluminado, visto ou passível de ser estudado.

A ciência, pelo próprio limite que impõe para si mesma, só pode usar a percepção sensível e a inferência para se pronunciar sobre alguma coisa. Isto é, ela só pode analisar coisas perceptíveis e, portanto, nada pode dizer sobre aquele que percebe, já que o sujeito das percepções não se torna nunca um objeto percebido (diretamente ou por uma inferência). Sendo assim, qualquer coisa que a ciência diga sobre a consciência deve ser rejeitado in limine. E, se a ciência não pode dizer propriamente nada acerca do real significado de consciência, então quem pode?

Vedanta pode, porque ele existe com a única função de ser  um meio de conhecimento, um pramana, para isso que não pode ser conhecido por nenhum outro meio de conhecimento disponível para o homem.

Vedanta é um meio de conhecimento independente, fora do sujeito, na forma de palavras, com a única função de revelar para o sujeito a sua natureza, que é o significado real da palavra consciência e que é distinta da mente. Se o sujeito deseja conhecer a si mesmo ele deve submeter-se ao estudo de Vedanta, não lhe restando nenhuma outra opção.

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