Você não precisa ser uma pessoa religiosa para praticar yoga, e nem você precisa acreditar em Deus. Quando nos perguntam se acreditamos em Deus, na verdade não podemos responder a essa pergunta sem antes sabermos a qual conceito de Deus a pessoa que nos pergunta está se referindo. Se ela se refere à causa do universo, sentada em algum lugar no “céu”, então é claro que eu não acredito em Deus, e nem poderia. A razão não nos permite acreditar em Deus como alguém separado de tudo mais, em algum “lugar” particular “fora” do universo. “Fora” e “lugar” são conceitos espaciais e, portanto, Deus, a causa do universo que inclui o espaço, não pode estar em algum lugar “fora do espaço”. Tampouco Deus pode estar dentro do espaço, como uma coisa ao lado de outras – como uma cadeira!

Ao mesmo tempo que ninguém parece saber claramente quem é Deus, onde ele está ou se ele existe mesmo, a experiência de grande parte das pessoas é que quando elas estão em uma situação realmente muito difícil em suas vidas, em que se veem impotentes e sem ninguém com quem contar, elas rezam. Elas pedem para que Deus lhes dê uma luz: “Deus, eu não sei se o senhor existe mas, se existir, me ajude!” Penso que a oração silenciosa em um momento de grande sofrimento é uma atitude bastante natural para um ser humano.

O yoga está preocupado com a atenuação do sofrimento e, em um primeiro momento, não está preocupado em estabelecer ou negar a existência de Deus. O que devemos ter em mente é que o yoga sempre se estabelece no contato direto entre um professor e um aluno. A rigor, não existe uma regra, uma práxis pré-estabelecida em yoga. Se uma pessoa foi criada em um ambiente religioso muito ortodoxo e conservador, e adquiriu dessa criação vários traumas e preconceitos, é óbvio que o seu professor de yoga não irá recomendar que ela simplesmente faça uma oração, ou pense em Deus. Na verdade, ele fará o possível para que ela esqueça esse assunto! Por outro lado, para uma pessoa com uma relação positiva e saudável com alguma prática religiosa, o professor de yoga certamente utilizará essa brecha para ajudar a pessoa a aprofundar sua experiência religiosa.

O conceito de Deus é ou não é utilizado em yoga dependendo se isso irá atenuar ou aumentar os obstáculos de uma pessoa específica. No Yogasutra, o sutra I-29 fala claramente do resultado da prática de devoção e contemplação de Deus, Ishvara-pranidhana: “tatah pratyakcetanadigamah api antarayabhavashca – e então (por causa dessa prática) há o alcance de uma mente quieta e contemplativa e também a ausência de obstáculos”. Se a prática de fazer orações, meditações ou rituais invocando a presença divina estiver causando no praticante qualquer tipo de agitação, irritação ou angústia, então é claro que essas práticas são inadequadas para essa pessoa específica, e devem ser abandonadas.

Pode parecer óbvio, mas na prática não é tão óbvio assim. Muitas vezes podemos ter a noção de que uma prática religiosa ou espiritual é boa em si mesma, e podemos recomendá-la indiscriminadamente para as pessoas sem antes checarmos que tipo de sentimento elas nutrem com relação a esse assunto. Tenho certeza que é bastante comum que professores de yoga recomendem a seus alunos fazerem puja (oferecimento de flores, incenso e outras coisas em uma altar), e que muitos desses alunos fiquem em conflito consigo mesmos porque não têm qualquer familiaridade com essas práticas, e realmente se sentem mal ao fazê-las. Nesse caso, não há sentido algum em recomendá-las.

Acho que, hoje em dia, a tarefa do yoga com relação ao assunto de Deus e da religiosidade é trazer as pessoas gradualmente para uma experiência interna de quietude e sensibilidade, na qual elas possam encontrar espaço para a reinserção da experiência de relacionamento com Deus livre de quaisquer dogmas, que faça bem a elas e as ajude a superar suas dificuldades. Li certa vez uma entrevista com o professor TKV Desikachar, filho do grande mestre Krishnamacharya, onde ele dizia que tinha sido a sua experiência constante nos seus muitos anos de ensino o fato de que as pessoas começavam a praticar yoga completamente céticas a respeito da existência de um Deus e que, com o tempo, com o decorrer da prática de yoga, essas pessoas naturalmente encontravam espaço em suas vidas para alguma forma de religiosidade, sem que ele, Desikachar, precisasse instrui-las explicitamente para que buscassem isso.

E acho que sei porque isso acontece. A prática de yoga bem conduzida nos leva para um espaço interno de grande humildade e sensibilidade, um lugar muito parecido com aquele que nos encontramos nos momentos de grande sofrimento, mas obviamente sem os tormentos e angústias daqueles momentos. E, quando estamos nessa disposição interna, é completamente natural a conexão com algo maior do que nós mesmos, algo de infinita inteligência e que nós não compreendemos, mas temos certeza de que nos abençoa.

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  • lucasfigueira.geo@gmail.com L
    Responder

    “Acho que, hoje em dia, a tarefa do yoga com relação ao assunto de Deus e da religiosidade é trazer as pessoas gradualmente para uma experiência interna de quietude e sensibilidade, na qual elas possam encontrar espaço para a reinserção da experiência de relacionamento com Deus livre de quaisquer dogmas, que faça bem a elas e as ajude a superar suas dificuldades.”

    Om!

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