Direitos e Deveres

Não posso afirmar de boca cheia, porque me falta cultura para tanto, mas duvido que exista em toda a literatura Védica uma palavra sequer que expresse o conceito de “direito individual” a que estamos tão bem acostumados. Esse fato naturalmente soa estranho para nós, e prontamente identificamos nessa carência léxica o traço mais marcante de uma sociedade “elitizada” e “opressora”. Mas, quando pensamos assim, marxistamente, perdemos acesso àquilo que distingue a sociedade Védica, elevando-a a um patamar não atingido por nenhuma outra civilização: a noção de dever, dharma.

O dever é a contraparte necessária do direito: o direito de um é o dever do outro. Ter um direito implica que outra pessoa terá uma obrigação. O direito do filho de ter alimentação, abrigo e todos os outros cuidados básicos é o dever da mãe de garantir esses cuidados. O direito do empregado de ganhar seu salário integralmente e em dia é o dever do patrão de pagá-lo como combinado, e assim por diante.

A ausência de uma política de direitos na sociedade Védica, longe de indicar que essa sociedade não vislumbrava os direitos de cada indivíduo particular, indica apenas que ela colocava a ênfase na política de deveres ao invés de colocá-la na de direitos. Pois, se cada um cumprir com o seu dever, com o seu dharma, automaticamente os direitos de todos estarão garantidos, e não é necessário falar sobre eles. Se a mãe está comprometida em realizar o dharma de mãe, o filho não precisa montar uma ONG e “lutar pelos seus direitos”.

O dharma é sagrado na sociedade Védica. Cumprir com o dever que lhe cabe é o maior culto que uma pessoa pode fazer ao Criador, pois o próprio Criador está manifesto na forma da ordem do dharma. Ao realizar o seu dharma, não importa qual seja, uma pessoa purifica sua mente de todo o individualismo exacerbado que é considerado um obstáculo a felicidade.

O indivíduo, para os Vedas, é tão mais feliz quanto mais ele atenua sua individualidade na apreciação da ordem maior na qual ele está inserido. E, por isso, o “sistema de castas” cabia naquela sociedade, pois o bem maior que um indivíduo pode alcançar está muito mais relacionado ao modo como ele encara e realiza os seus deveres do que com o tipo de dever que ele realiza. Um brahmana (casta mais elevada) que realiza seu dharma cheio de apegos e querendo tirar proveito pessoal de tudo, está mais enredado na ignorância e por isso é mais infeliz do que um shudra (casta mais baixa) que realiza seu dever com espírito de devoção e entrega. Na verdade, em termos de qualidade, guna, o próprio Veda considera esse shudra um brahmana, e aquele brahmana um shudra.

A nossa sociedade é diferente. O individualismo é altamente considerado entre nós, e não passa pela nossa cabeça a hipótese aparentemente paradoxal de que o indivíduo será mais feliz tanto menor for a sua individualidade. E, assim, é natural que não haja uma ênfase na questão dos direitos, porque a ideia subliminar é de que ninguém ganha nada cumprindo com os seus deveres, fazendo o seu dharma. E, em termos de realização dos gostos e aversões mais imediatos e “instintivos” (ligados mais diretamente ao prazer), realmente um indivíduo não ganha nada meramente realizando o seu dever.

Uma sociedade dará ênfase nos direitos ou nos deveres dependendo do modo como encara a questão da realização humana. Se ela considera que felicidade significa a realização máxima de gostos e aversões, então ela dará ênfase nos direitos, e todas as pessoas começarão a bradar: “Exijo os meus direitos” – de mulher, de homem, de negro, de branco, de patrão, de empregado, de homossexual, de heterossexual e assim por diante. Todos desconfiarão de todos e tudo acabará em litígio.

No entanto, se a sociedade considera que felicidade significa a atenuação dos gostos e aversões em direção a uma redução da individualidade – como a sociedade Védica considerava – então a ênfase será dada apenas nos deveres, dharma, deixando que os direitos sejam naturalmente atendidos na medida do possível.

Swami Dayananda costuma dizer que um individuo é maduro quando ele consegue contribuir com a sociedade mais do que precisa retirar dela, e o próprio Swami é um exemplo acabado deste espécime de indivíduo. São necessários muitos desses indivíduos de maturidade e discernimento espiritual para que uma sociedade entenda a prevalência dos deveres em relação aos direitos.

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  • Sandra P
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    Vedanta ,é importante justamente para voltarmos a conectar com o nosso Eu ,com a nossa individualidade,com o nosso simples Dever,vivendo a nossa vida e não viver a vida de outro,e sim cumprindo o nosso papel,e o Universo se encarrega do resto …..

  • roberto.funger@gmail.com R
    Responder

    Excelente!! Om.

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