Era noite de lua nova quando Rāma retornou do seu exílio de 14 anos na floresta, ao qual teve que se submeter para não deixar seu pai, o rei Daśarātha, faltar com a palavra. O reino de Ayodhyā, coberto com o manto negro da completa escuridão, acendeu-se para receber de volta seu querido soberano. Pelas ruas e nas varandas de suas casas, as pessoas acenderam lâmpadas de óleo, dīpas, que, assim como os seus corações, brilharam calorosamente para receber Rāma, aquele no qual todos encontram satisfação (rāmante asmin iti rāmaḥ).

Surgia, então, a tradição de Diwali, o Festival das Luzes, que continua a ser comemorado até o presente dia. Simbolicamente, a festa comemora a vitória da luz sobre a escuridão, da verdade sobre o engano, do conhecimento sobre a ignorância. É o dia em que se invoca a benção tão bem sintetizada no famoso mantra:

asato mā sadgamaya
tamaso mā jyotirgamaya
mṛtyormā amṛtaṃ gamaya

Leve-me do irreal para o real
Da escuridão para a luz
Da morte para a imortalidade

Nessa data, repetindo simbolicamente o ato dos habitantes de Ayodhyā, as casas são enfeitadas com dīpas, lâmpadas de óleo, acesas e distribuídas por todos os cômodos da casa e enfileiradas nas janelas e portas de entrada. É daí que vem o nome em hindi, Diwali, corruptela do sânscrito Dīpāvalī, “fileira (āvalī) de lâmpadas (dīpa)”.

Além de comemorar a volta de Rāma para Ayodhyā em uma noite escura, foi também na mesma data que os Pāṇḍavas retornaram do exílio a que foram submetidos por obra do maléfico Duryodhana, e que Lakṣmī, a Deusa da Prosperidade, emergiu gloriosa do oceano de leite, batido incansavelmente pelos devas e asuras, desejosos pelo néctar da imortalidade.

Não por acaso, essa mesma data também marca o fim da temporada de colheita na Índia. Trata-se de um perÍodo de real abundância, beleza, renovação e reunião, e deve ser comemorado por todos aqueles que desejam essas qualidades nas suas vidas.

Abaixo, preparamos algumas instruções para que você possa comemorar, em sua própria casa e do seu jeito, essa data tão significativa, invocando prosperidade para si e toda a família.

Faça uma limpeza geral na casa, arrumando cada coisa no seu lugar, regando as plantas, limpando o jardim, as floreiras das janelas, tirando o pó dos cantos esquecidos e se desfazendo de toda aquela “tranqueira” que está meramente ocupando espaço. Convide a família para participar do mutirão.

Separe roupas que não usa mais e doe para quem necessita. Mais do que limpar a casa, você está ritualisticamente abrindo espaço e tornando seu lar convidativo para receber Lakṣmī Devī!

Acorde cedo. Mesmo que esteja limpa, varra simbolicamente a entrada principal da casa e decore-a com flores. Assim como fazemos com bandeirinhas de festa junina, folhas de mangueira presas em um cordão branco são penduradas na porta, para trazer prosperidade.

As mulheres, símbolos maiores de fertilidade e abundância, são incumbidas de confeccionarem uma decoração inequívoca desse festival: o rangoli. Trata-se de um desenho, estilo mandala, feito com algum material colorido (geralmente algum pó ou mesmo diferentes tipos de grãos) em frente da porta de entrada da residência, com o intuito de atrair Lakṣmī para dentro. Use sua imaginação e faça o seu com o que tiver disponível.

Chame seus amigos e familiares e faça um ritual, pūjā, ou simplesmente orações para Gaṇeśa, o removedor dos obstáculos, e, em seguida, para Lakṣmī. Se não tiver estátuas, você pode usar imagens impressas dessas deidades para realizar suas orações. Ofereça incenso, flores e frutas, enquanto canta os versos que souber, ou deixe tocando algum mantra no seu aparelho de som. O que importa é fazer de coração.

Para Gaṇeśa, você pode cantar repetidas vezes: Om gaṃ gaṇapataye namaḥ (ouça aqui)

Para Lakṣmī, você pode cantar ou apenas ouvir o Mahālakṣmī Aṣṭakam (ouça aqui)

Para o almoço, prepare com amor uma bela refeição! Peça ajuda do seu companheiro(a) e dos filhos. Nada de regime ou comida sem graça nesse dia! Prepare pratos vegetarianos realmente gostosos, que encham os olhos, o coração e a barriga.

Abuse dos derivados do leite (caso não seja vegano, claro), castanhas, ghee (manteiga clarificada), frutas secas e grãos variados. Aproveite, é o dia de fazer frituras e muitos doces! Chame todo mundo para compartilhar do banquete e, se possível, distribua comida para os vizinhos. Você deve transbordar, assim como o pote de Lakṣmī!

De noite, vista roupas novas e prepare-se para acender as lâmpadas. Se puder, use lâmpadas de óleo, de preferência cheias de ghee (manteiga clarificada), mas qualquer óleo serve. Se não tiver lâmpadas de óleo, use velas comuns.

Acenda-as por toda a casa, nas janelas, nas portas, assim como fizeram os habitantes de Ayodhyā para iluminar a chegada do querido Rāma. Quando for acender a primeira lâmpada, cante o mantra:

dīpajyotiḥ paraṃ brahma dīpajyotirjanārdanaḥ
dīpo haratu me pāpaṃ dīpajyotirnamo’stu te

O brilho da lâmpada é o ilimitado.
O brilho da lâmpada é aquilo que move as pessoas.
Que a lâmpada destrua meu sofrimento.
Saudações ao brilho da lâmpada.

Lembrando-se, então, na presença do fogo, do retorno de Rāma, cante o seu nome. Você pode simplesmente repetir: Rāma, Rāma, Rāma, Rāma, Rāma, Rāma… Ou, se preferir, também pode cantar o famoso verso, ensinado por Śiva a sua esposa, Pārvatī:

śrī rāma rāma rāmeti rame rāme
sahasranāma tattulyaṃ rāmanāma varānane

Repetindo o nome Rāma, Rāma, Rāma… eu me deleito em Rāma, ó Pārvatī.
A repetição do nome de Rāma é equivalente a repetição dos mil nomes, ó Bela.

Desejamos um feliz e muito iluminado Diwali a todos vocês!

Hariḥ om

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