Durga Puja e Navaratri em West Bengal – História de Pitu (2)

Há quem diga que a época das monções é triste e depressiva, pois, tudo fica úmido, cinza e frio. Contudo, chuva na Índia é sinal de abundância, as crianças brincam na rua, os pavões dançam na floresta e especialmente em “West Bengal”, as mulheres se preparam para a comemoração do Navaratri. Navaratri significa literalmente “nove noites”. Na mitologia hindu esse nome se refere as nove noites de batalha de “Durga” contra o “asuras”. Simbolicamente a Deusa Durga representa a energia feminina de transformação e destruição, e os asuras representam tudo que roubam a gente dos nossos propósitos, em outras palavras os desejos, quando esses nos dominam. E é dito que Durga combate os asuras durante nove noites e esses dias são celebrados todo ano com muita festa.

Já fazia mais de 2 anos que Shanti havia saído de casa para trabalhar em Calcutá. Apesar de falar com sua mãe quase todas as noites, a distância de casa e a pressão social do mundo moderno haviam a colocado em um estado, que todos a chamariam de uma pessoa focada e dedicada. Trabalhava de vento em poupa e era capaz de suprimir sua individualidade para lidar com o comportamento abusivo dos seus colegas de trabalho. Nos 2 anos de trabalho ela foi de ajudante de vendas até subgerente da loja de sáris onde trabalhava. Talvez, se ela não tivesse tão distante de Durgapur, sua cidade natal, não haveria toda a pressão de sobreviver e sua história fosse diferente, mas não foi assim que aconteceu e por detrás daquela mulher forte e decidida, existia ainda uma menina desesperada e com saudades de casa pronta para emergir a qualquer momento.

Foi aí que um cliente muito especial deixou o jornal no balcão. E na contra página havia uma belíssima foto da Deusa Durga. As cores eram tão exuberantes e os contornos tão expressivos que Shanti naquele momento parou. Com a mente fixa, seus olhos encheram-se de lágrimas, ela se lembrou da sua infância ao comemorar o Navaratri, como ela preparava os bonecos de barro com sua mãe, que enfeitavam o altar e de como as coisas eram simples e ela era espontânea e feliz.

Então, a campainha do balcão tocou 3 vezes e o gerente gritou:

“Shanti! Você tá surda?!”

O velho olhou enfezado e Shanti correu ao seu encontro.

“Estamos no final do mês, o pessoal da matriz precisa dos relatórios! Não dá para ficar comendo mosca não menina. Nossa empresa tem regras claras, você é subgereeeeente… Precisamos ainda contar todas mercadoria e bater o caixa do mês inteiro. O estoque de sáris de seda está acabando a nova remessa de Coimbatore já chegou…”

Depois de alguns segundos Shanti olhava nos olhos do gerente, que mexia a boca e articulava, mas nenhuma palavra estava entrando na sua mente. Algo tinha acontecido com ela. Ela não sentia vontade de nada, nem sentia aversão a nada, ela estava ainda em um estado de choque. Balançou a cabeça como quem entendeu tudo que foi dito e disse para si mesma: “Eu vim para Calcutá para fazer minha vida, mas estou vivendo como se tivesse morta.” Pegou o jornal como quem limpa o balcão e o guardou na bolsa. De uma coisa ela estava certa esse ano ela não ia perder o Navaratri, mesmo que tivesse que virar a noite trabalhando, iria ao festival.

A região de Bengal é conhecida na Índia por algumas características: pela comida exuberante que tem um gosto peculiar; pela tendência a debates ideológicos da população, que acontece em toda esquina; por ter as mulheres mais bonitas, com olhos grandes e expressivos que se vestem muito bem; e, sobretudo pela maneira peculiar como se comemora o Navaratri. É a data mais esperada do ano, as lojas param, as pessoas organizam grandes eventos, que tem muita comida, muita dança e é claro muitos rituais para adoração das Deidades femininas.

A data estava chegando. Enquanto Durga combatia os asuras, Shanti combatia os números e os relatórios para matriz. Colou um pequeno adesivo brilhante da Deusa no rodapé do seu computador e fez cumprir o seu propósito no oitavo dia. Shanti não tinha dúvidas que conseguiria realizar todas as tarefas a tempo, mas fechamento de mês sempre traz surpresas, mas dessa vez o velho não teve chance.

“Shanti, fico feliz que você tenha entregado os relatórios. Queria só te pedir um favor, esse final de semana não vou poder ficar na loja, você pode cuidar de tudo aqui para mim?”

Qualquer outro final de semana ela teria ficado, mas dessa vez ela não podia, então teve que improvisar. Afinal de contas ela era bem mais esperta do que parecia.

“Ji! Com certeza posso, preciso apenas resolver um problema… Fiz uma promessa para Durga que esse ano iria ao festival.”

“Ora Bolas! Quebre a promessa, isso é trabalho minha filha.”

“O trabalho vem sempre na frente, tem razão. Então se o senhor, meu chefe, pedir para eu ficar tenho certeza que é um motivo de força maior e Durga vai entender. Nesse caso minha parte vai estar resolvida, e você passa a ter que cumprir minha promessa com Durga. Isso tá bom para você?”

“Bom nesse caso peço para outra pessoa ficar, sabe como é?! O comércio fecha, mas alguém tem que atender ao telefone. Só por isso te pedi.”

Antes que o velho mudasse de idéia fechou seu laptop, colocou na bolsa e foi para casa.

O jornal dizia sobre um evento que iria ocorrer em um ginásio no centro da cidade. Para o festival de Durga, o sári escolhido foi o vermelho com as pulseiras douradas que sua vó lhe deu. Preparou um arranjo de flores em um cesto para oferecer aos pés das Deusa e foi animada para o festival.

Buzinas, estalinhos, bombas, gritos e mais buzinas estavam por toda a parte, o “Rikshaw” (taxi de 3 rodas indiano) como um gato caminhava pelo trânsito e fazia o milagre da locomoção na Índia. Na porta do ginásio da beira da calçada um oceano de sandálias e chinelos, todos deixavam os calçados ali antes de entrar. Chegando à porta um senhor de bigodes grandes sorri. “Namaskaram! Seja bem vinda.”

Segurando o panfleto da programação, vendo as crianças correndo para lá e para cá, a música tocando alta e estridente, aos poucos ela foi relaxando e virando criança de novo. Em alguns minutos estava já sorrindo espontaneamente, não porque estava em um êxtase espiritual ou coisa parecida, ela sorria porque não se via separada de nada que acontecia ali, ela se sentia em casa novamente e estava feliz de ter regressado.

Não sabia nem direito o porquê, só sabia que estava ali para entregar aquelas flores. Caminhou até o altar viu aquela imagem enorme feita de barro com muitos braços e cores; e fez uma oração:

“Mãe divina, faz tanto tempo que não te vejo. Tenho me esforçado por fazer tudo que deve ser feito por mim. Por mais duro que seja, estou aqui em Calcutá e conseguindo sobreviver com suas bênçãos. Mas, Senhora, me dê uma luz. Qual a verdade de tudo isso? Onde essa vida me leva? O que eu estou fazendo aqui? O que preciso para estar feliz e em paz? Por favor, me mostre a verdade de tudo isso.”

Passou as flores no seu coração como quem deposita todo seu amor e jogou nos pés da imagem que na mente de Shanti era a própria Deusa.

Nesse momento a música parou e em uma língua enrolada o locutor apresenta a próxima atração um swami, que veio fazer um “Satsanga”, falar abertamente sobre temas do cotidiano na visão dos Vedas. Shanti se sentou aos pés da Deusa, virou-se para ver aquele senhor de laranja sem cabelos subir ao palco com a ajuda de um garoto. Aos poucos o microfone corria pela plateia e as pessoas perguntavam sobre as coisas mais diversas. “Por que tem tanta injustiça no mundo?… É necessário tomar banho para fazer uma oração?… Para que serve o yoga?… Como ser um yogi de sucesso?”

Ela estava achando tudo aqui meio repetitivo, mas foi então que alguém perguntou:

O que eu preciso para ser feliz?” – A plateia riu, mas o swami sabia que a pergunta era pertinente e resolveu testar a seriedade do sujeito.

Bom isso depende. Por quanto tempo você quer ficar feliz? 1 hora, 1 dia, 1 mês? Tem algum lugar específico que você procura por essa felicidade? Em casa ou no trabalho?

O sujeito riu, ele não esperava uma contra pergunta e disse: “não sabia que era tão complicado ser feliz. Eu não quis provocar ou desrespeitar o senhor”…

O swami continuou olhando para o sujeito, ele não se sentia desafiado, nem achava a resposta complicada, mas ele queria que a pessoa estivesse disponível para escutá-la, pois uma pergunta como essa requer toda atenção do ouvinte para ser entendida e sem isso é um desperdício.

Sem graça o sujeito falou: “Swami, não sei se é possível, me perdoe se estou falando alguma besteira. Eu gostaria de ser feliz o tempo todo e em qualquer lugar”.

O swami sorriu e povo esperava a resposta para julgar o sujeito, porém o mestre não perdeu tempo. Vendo aquela janela no pensamento das pessoas como uma oportunidade de passar alguma mensagem mais profunda, ele começou:

… caro amigo, sua pergunta casa muito bem com essa ocasião. Observe essa belíssima imagem de Durga, quantas cores, quão expressiva?! Apesar de todos os detalhes ela é feita apenas de barro. Durante esse mês inteiro pedaço por pedaço ela foi construída e muitos participaram dessa tarefa. Hoje ela está aqui inteira, mas três dias após o navaratri ela será imersa no rio novamente e toda essa beleza se vai…

E é assim que tentamos ser felizes, assim que construímos nosso projeto de felicidade. Sempre visualizamos algo e trabalhamos para construí-lo. Podemos fracassar por muitos fatores, pois, existem muitas pessoas envolvidas, outros aspectos que não controlamos e nossas próprias habilidades que por si só são limitadas. Contudo, com persistência, suor e inteligência construímos nas nossas vidas várias imagens como essa, mas a verdade é que elas são feitas de barro. E por isso às vezes temos tudo: um bom trabalho, dinheiro, uma boa família e amigos, mas existe ainda um sentimento de que falta alguma coisa. Por mais bonita que seja a imagem, por mais arrumadas que as situações estejam nós sabemos que ela será imersa de volta ao rio, pois essa é natureza das imagens de barro. As pessoas mudam, as situações mudam e com elas os sentimentos também e vivemos um aparente enigma, onde estamos incansavelmente trabalhando para produzir situações, aí aproveitamos um pouquinho e depois sofremos quando elas se vão…

Quando menos esperamos estamos presos nesse “chakra” (roda) que é chamada de samsara. Estamos ali presos indo de lá para cá, mas não saímos verdadeiramente do lugar. Estamos vivendo, mas continuamos a mesma pessoa carente, indefesa e que está tentando ser feliz. E o que fazer?…

Bom, primeiro esse não é um problema de ninguém em particular, esse é o dilema da vida humana que é vivido desde o início dos tempos e existe solução para isso, quando esse problema é visto com clareza…

A solução é o que é chamada de autoconhecimento que também é chamado de liberação, pois a idéia é que o conhecimento libera você do samsara. Tira a gente desse comportamento aprendido de mudar o mundo para se tornar completo. Agora como pode um conhecimento me liberar de alguma coisa?

Imagino que vocês estejam pensando nisso, porém isso é algo muito comum. Quando os problemas envolvem uma mudança ou aquisição de algo, realmente o conhecimento por si só não faz a diferença. Esses são problemas como a fome, a necessidade de proteção ou a construção de uma casa. Neles precisamos agir, precisamos de tempo para mudar pessoas e situações; e conseguir o resultado esperado…

Contudo, quando o problema não envolve uma mudança de fato um conhecimento é suficiente. Como quando achamos que perdemos a caneta, procuramos incessantemente por ela e alguém diz: “ela está no seu bolso”; ou quando ficamos zangados por algo que não aconteceu e tudo se resolve no momento que sabemos a verdade; ou ainda tradicionalmente como conta a história dos 10 meninos que todos já conhecem…

Se mudança fosse sempre necessária para ser feliz ninguém seria capaz de rir de uma piada. E quanto tempo se leva para rir de uma piada? A verdade é que não requer tempo, requer apenas o entendimento da piada, não é? Mesmo que ele só aconteça quando estivermos tomando banho, vamos rir do mesmo jeito…

Todos riram. O sujeito já havia se sentado e todos olhavam atentamente para o movimento do mestre. Ele não queria convencer ninguém, nem muito menos convertê-los para algum tipo de crença. Ele falava de si mesmo e cada um recebia aquilo que precisava.

“..meu nome é Shanti, gostaria de saber como adquirir esse conhecimento.”

“Como qualquer outro conhecimento quem quer aprendê-lo precisa estar preparado e ter os meios necessários para adquiri-lo.

Os meios são 2. Primeiro é preciso de um professor com quem haja uma conexão, uma confiança e que tenha a capacitação para ensinar. E isso é importante. Porque muitos mestres podem fazer parte do caminho espiritual de uma pessoa, mas nem todos têm o mesmo papel. Alguns são fontes de inspiração, grandes pessoas que podem até já estar mortos. Outros podem curar doenças e falar sobre o futuro e o passado. Alguns ainda só nos abençoam, seja com um abraço, um olhar ou um sorriso. Porém, para o autoconhecimento é necessário alguém que já tenha passado pelo mesmo processo que desejamos passar, que seja um aluno mais do que um professor e isso leva um tempo até a gente entender. Nossas fantasias espirituais nos levam a correr atrás daquele que tem a barba branca mais longa ou que fala coisas abstratas que são bonitas e inspiradoras, mas o problema real é que vendo a nós mesmos, não estamos completos e felizes e é apenas essa visão que precisa ser corrigida. Então o primeiro meio é ter um bom professor, capaz de reproduzir o que ele passou.

O segundo é que o professor é como um jardineiro que vai cuidar da planta, que somos nós. Ele sabe fazer a parte dele, mas se não houver as condições necessárias de crescimento a planta nem germina e as vezes até morre. A condição para o crescimento é chamada de yoga, uma vida de yoga. Lembrem-se que yoga não são ásanas (posturas físicas), elas podem ser uma maneira de entrar nesse estilo de vida, mas yoga é uma visão, uma atitude diante da vida que traz espaço e equilíbrio. Esse é o segundo meio. Então primeiro vem yoga e depois vem o professor para ensinar o conhecimento.

Assim termino esse satsanga citando um verso da Katha Upanishad que fala exatamente esse ponto:

मृत्युप्रोक्तां नाचिकेतोऽथ लब्ध्वा विद्यामेतां योगविधिं च कृत्स्नम्।

ब्रह्मप्राप्तो विरजोऽभूद्विमृत्युरन्योऽप्येवं यो विदध्यात्ममेव।

“… E assim, tendo a adquiro totalmente dos ensinamentos do senhor da morte o estilo de vida de yoga o autoconhecimento, Naciketas (seu discípulo) alcançou brahma, se tornou puro e imortal. E da mesma maneira todos outros que adquirirem o yoga e esse conhecimento também se tornarão…”

O locutor entrou em cena colocando uma guirlanda de flores no swami, que agradeceu e se retirou do palco. Enquanto ajudava o mestre a descer do palco, o garoto perguntou por que ele não havia dito para as pessoas onde ele ensinava e os horários das aulas quando foi perguntado como estudar. E o mestre sorriu e disse. “Esse é um estudo que precisa ser escolhido e para haver escolha precisa-se ter total liberdade. Para alguns tudo que foi dito já foi o bastante e quem precisa de mais saberá onde me encontrar ou encontrarão outro professor.”

Shanti tentou atravessar a multidão para fazer um namaskaram (saudação) para o swami antes de ele entrar no taxi. Quando a porta do taxi se fechou ela olhava por cima do ombro do ajudante e com as mãos unidas fez sua saudação. O carro se perdeu na chuva, nos ruídos e na escuridão.

Shanti naquela noite ouviu certas coisas que ninguém havia dito com tanta clareza e tudo fazia sentido. Ela sabia que ainda iria se deparar com aquele swami novamente. Foi aí que ela viu o garoto que ajudava o swami servindo chai (chá) perto da cozinha improvisada e decidiu se aproximar.

” Um chai , por favor” e deu um sorriso.

O menino não sabia se olhava para o copo, para o chai para o sari de Shanti ou para seus olhos e em uma confusão de braços e copos estendeu a mão com o chai para menina.

“Qual o seu nome?” ela disse olhando pelo canto dos olhos.

E ele disse: “Pitu.”

Om tat Sat

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