Enganos Comuns Concernentes ao Yoga

O Yoga-Sutra do sábio Patañjali é o texto que sistematiza a prática de yoga de modo a estabelecer as diretrizes principais daquilo que pode ser chamado de yoga. A definição de yoga dada no texto, logo no segundo aforismo do primeiro capítulo, diz que yoga é ‘nirodha’ das atividades da mente (citta-vrtti-nirodhah). Tal definição dá margem para o que é talvez o mais difundido e grave engano com relação à prática de yoga – o de que yoga é ‘parar de pensar’.

A palavra nirodha pode de fato ser traduzida como ‘interrupção’ ou ‘parada’, mas o caso é que no contexto de yoga este significado não cabe, pois a mente como um instrumento de relacionamento com o mundo não pode ter sido criada para ser desligada. Ademais, já desligamos a mente todos os dias no sono profundo, e isso não nos torna seres humanos mais sábios ou melhores, nem nos livra de uma vez por todas do sofrimento, apenas nos oferece um descanso necessário para que no outro dia possamos continuar nossa interação com o mundo.

No contexto de yoga, nirodha significa o comando sobre a mente, a capacidade de interagir conscientemente com um objeto sem que padrões mecânicos de pensamento e conduta interfiram demais nesta interação. Só assim é possível um conhecimento adequado do objeto, por meio do qual as melhores escolhas com relação a ele serão feitas, e o sofrimento será amplamente atenuado.

‘Parar de pensar’ é algo que está tão distante da prática de yoga quanto ‘perder dinheiro’ está distante da prática dos ambiciosos e competentes investidores do mercado de ações. Lembro-me de certa vez ter sido seriamente indagado por uma aluna acerca da contradição de eu ser, ao mesmo tempo, praticante de yoga e estudante de filosofia na universidade. Expliquei a ela que yoga é pensar no sentido estrito do termo, isto é, a habilidade de olhar para um objeto e entendê-lo como ele de fato é e se mostra, sem estar preso àquilo que impede todo o pensamento verdadeiro – as memórias, preconceitos e emoções passadas que, projetados inadvertidamente no objeto, impedem que ele se mostre na sua natureza.

Seria fantástico se a mente humana estivesse sempre passivamente disponível como um instrumento obediente, que acata todas as nossas decisões e pensa somente aquilo que queremos e que é benéfico para nós. Entretanto, não é assim que ela funciona. A mente tem um “defeito” irreparável: ela “pensa” por si mesma, automaticamente, sem pedir nossa permissão. Não é exatamente por isso que de repente, sem que saibamos exatamente o porquê, tornamo-nos tristes, temerosos ou irritados? E não somos tomados por essas emoções desde o nada; existem pensamentos não-deliberados, ainda que fora do escopo da nossa consciência, que nos fazem sentir assim.

As diferentes práticas de yoga podem ser vistas como maneiras de, aos poucos, o praticante ir tomando posse de sua própria mente à medida em que ocupa o terreno mental usualmente tomado por pensamentos não-deliberados. Quando, na prática de asanas, a pessoa é instruída a fazer diferentes movimentos em sincronia com a inspiração ou exalação, ela está usando a mente de maneira deliberada. Ela está se apropriando de sua própria mente. Igualmente, na prática de pranayama a pessoa está inspirando, retendo a respiração e exalando conscientemente, ficando assim em poder da sua mente, já que não é realmente possível regular a respiração com uma mente dispersa. Depois de asana e pranayama a pessoa está, segundo o que Patañjali nos diz no segundo capítulo dos Sutras, qualificada para a concentração, dharana, justamente porque ela tem então a mente nas suas mãos, disponível para ser aplicada em algum objeto de meditação.

Disto já se depreende que o propósito da prática de asanas não é ser um exercício físico, ainda que o corpo acabe se exercitando necessariamente na prática de asanas e colha disto frutos desejáveis. De fato, outro erro bastante frequente entre os praticantes é a crença de que asana serve para deixar o corpo saudável, mas este não é o objetivo primário dos asanas, se é que queremos entender asana como yoga, isto é, como citta-vrtti-nirodha.

Yoga é ser de fato um ente consciente. Quando há yoga, diz Patañjali no terceiro sutra do primeiro capítulo, estamos estabelecidos na nossa natureza de sermos os observadores de tudo, capazes de reflexão verdadeira e ação deliberada. Quando não há yoga, diz o sutra seguinte, somos tomados pelos padrões reativos da mente e, apesar de continuarmos sendo seres conscientes – conscientes da própria atividade mental – tornamo-nos escravos dos impulsos dela.

 

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