A Espiritualidade e o Encontro com a Criança Interior

Quando pensamos em um caminho espiritual algumas idéias bem simples vem a nossa mente. Poderíamos começar com: meditação, natureza, tradição, yoga, verdade, valores, Deus, caridade e paz. Essas e muitas outras idéias são montadas uma sobre as outras, como que criando o nosso entendimento do que é um caminho espiritual, o que imaginamos que compõe a busca de uma pessoa que está interessada em se auto-conhecer. Contudo é natural que o desejo humano por conforto e uma solução prática para os problemas, faça nos esquecer um outro lado da mesma moeda – o processo de crescimento pode envolver uma dor, principalmente quando estamos em um processo de negação prévia de nós mesmos.

Imagine pais que cuidaram do seus filhos e hoje estão se aposentando e vendo seus netos crescerem. É possível e provável que quando eles sejam expostos a um conhecimento sobre como lidar com crianças e fazê-las crescer de forma saudável, eles enfrentem a dor da frustração de não terem feito o “melhor possível”, ou a dor da culpa por enxergar o “impacto dos seus erros” e talvez até a dor de ser ver como alguém limitado, que não tem condições de exercer seus papéis de forma plena e livre. Seja pela identificação que for, “se auto-conhecer” implica em se rever e isso nem sempre é prazeroso, por isso que uma das chaves para esse processo é ser capaz de descobrir um prazer nessa dor, pois ela não é uma dor que informa que algo de ruim está acontecendo, mas um símbolo de transformação e na verdade ela está saindo de dentro e não entrando.

Assim quando já temos um pouco de experiência dentro de uma vida espiritual, nosso conceito de espiritualidade muda para um processo de crescimento constante, o que também ainda não é o entendimento final sobre espiritualidade, mas é uma visão melhor que anterior. Nesse momento muitas vezes espiritualidade é confundida com processos terapêuticos e o “se conhecer” passa a ser “entender minha história, meus traumas e minhas vitórias”, aceitar as dores que ficaram presas dentro de nós e criar uma espécie de atitude de aceitação com o mundo. Nesse ponto muitos grupos vão apresentar propostas terapêuticas, exercícios que nos ajudam a entrar em contato com todos esse mundo inexplorado dentro da gente.

Infelizmente a frustração de não conseguir alcançar a tal paz almejada chega novamente com o tempo. É como se o processo de se auto-conhecer passasse pelos nossos traumas mas fosse muito mais do que isso e tem uma hora que a análise do passado e o sentir já deram sua cota de contribuição ao nosso caminho e temos a impressão que não saímos do lugar. Aquela sensação de: “Muito já passou, mas agora parece que nada muda, os mesmo erros e os mesmos sentimentos.” Nesse ponto para fechar esse tema e continuar nossa busca pelo entendimento do sujeito, os mestres introduzem uma forma muito interessante de lidar consigo mesmo, que consiste em entender dentro nós a presença de uma criança.

Por mais que nossa mente se apresente como uma aparente unidade, como algo inteiro, ela na verdade possui muitas subdivisões independentes. Como o sistema nervoso do nosso corpo que tem vários centros de funcionamento, no cérebro, na espinha e no em torno do coração, e esses sistema conversam entre si. Da mesma maneira na nossa mente por mais que temos a impressão de algo único ela tem várias “partes” que conversam entre si. E uma dessas partes é apresentada como uma criança, às vezes chamada da criança interior.

apasmaraEssa criança são um conjunto de impressões montadas do passado, formas como recebemos do mundo nossas necessidades básicas que se solidificaram em comportamentos e impressões emocionais. São os nossos fantasmas de acordo com alguns autores ou nosso monstro de acordo com outros pensadores, mas para os mestres da tradição védica são na verdade apenas uma criança. É comum observar nas imagens hindus, sob os pés da imagem uma pequena figura chamada “apasmara”, um personagem que possui corpo de criança porém bigode, que representa exatamente essa criança não crescida que fica ali represada dentro da gente. “Apa” é um prefixo que da idéia de negação e “smara” significa lembrança. Apasmara se refere a lembranças esquecidas, que não estão evidentes para gente.

O estudo do autoconhecimento de verdade não tem nada a ver com nossas emoções ou comportamentos, muito menos com nossos traumas do passado entretanto saber lidar com as emoções é um passo importante nesse caminho sem o qual o autoconhecimento não faz sentido e nem de fato é possível.

Conhecer nossa natureza absolutamente livre requer um personagem nessa história da nossa vida que tenha uma liberdade relativa e isso implica necessariamente saber lidar com a nossa criança e com as “outras crianças do mundo”. Por isso o trabalho de muitas pessoas que se intitulam “mestres espirituais”” se resume a ajudar as pessoas nesse contato com essa criança.

A chave para o processo de cuidar de uma criança é sempre o “amor” e esse ponto é muito importante. Muitas vezes queremos que nossa criança mude, que ela cresça”, que ela fosse diferente, talvez um pouco menos mau-humorada, menos depressiva, menos agitada, mas isso é uma abordagem que na verdade beira o ridículo. Desde quando podemos determinar como “nossa criança vai ser”? Desde quando tratamos uma criança como se ela fosse um erro? Desde quando uma criança precisa ser realmente diferente do que ela é?

Então vou contar a vocês uma má notícia para quem pensa assim:

As crianças não mudam, uma vez que elas captam o seu processo de sobrevivência no ambiente onde estão sendo criadas elas assimilam uma personalidade e comportamentos, que vão nos acompanhar assim até o final das nossas vidas.

E uma boa notícia também…

As crianças não precisam mudar, pois toda criança ,independente dos problemas que ela tenha, são uma fonte de amor eterna. Isso é algo a ser assimilado, enquanto nossa energia for de destruir a criança como se ela fosse um monstro ela só vai ficar mais em dor.

Descobrir nossa própria criança como uma fonte de amor é um passo muito importante no caminho espiritual. Essa descoberta não é fruto de disciplinas e regras; e sim de um desejo sincero, de um relaxamento e de uma entrega de nós para nós mesmos, que ocorre na convivência com um professor que tenha passado por esse mesmo processo.

Minhas saudações aos mestres que vem trazendo esse conhecimento do “eu” que é livre junto com a habilidade em lidar com a nossa criança interior.

harih om

 

 

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