Existência e Não-Existência

nāsato vidyate bhāvo nābhāvo vidyate sataḥ

ubhayorapi dṛṣṭo’ntastvanayostattvadarśibhiḥ ॥ 2 – 16

Este verso de ensinamento de Krishna para Arjuna, presente na Bhagavad-Gita, é a prova final de que ler Vedanta sem a explicação de uma tradição de ensino é tão produtivo quanto enxugar gelo. É uma perda de tempo frustrante.

E isso não se deve ao fato de que o verso está em sânscrito. Mesmo em português ele é ininteligível. Parece que foi Shankaracharya, se não me falha a memória, que disse que uma pessoa não deve ousar estudar Vedanta sozinho, mesmo que seja um grande gramático.

Vejamos porque isso é de fato verdade. A primeira linha do verso diz, em português: “Para o que não existe (asataḥ) não há (na vidyate) existência (bhāvaḥ), e para o que existe (sataḥ) não há (na vidyate) não-existência (abhāvaḥ)”. Trocando em miúdos: o que não existe não existe, e o que existe existe!

Em lógica, isso é chamado de tautologia, uma redundância que nada diz. Como você iria entender alguma coisa nova sobre esse verso simplesmente lendo-o? Nada, absolutamente Podem até acusá-lo de ser bobo, infantil. Todos sabemos que o que existe existe e o que não existe não existe.

Acontece que Krishna está ensinando algo muito importante nesta passagem, praticamente tudo o que há para ser entendido sobre Vedanta. Ele está falando sobre satyam e mithya.

Satyam, verdade, significa aquilo que sempre é, existindo por si mesmo e independente de qualquer outra coisa para ser. Mithya, ao contrário, é o falso, aquilo que existe apenas momentaneamente e, mesmo nessa efêmera existência, deve sua existência a alguma outra coisa que lhe empresta, digamos assim, o ser.

O exemplo clássico para entendermos isso é o pote de barro. O pote é mithya: foi criado num dado instante do tempo a partir do barro, irá certamente se desintegrar com o passar do tempo “voltando” a ser barro e, mesmo enquanto está existindo, exposto na feira hippie do barro, sua existência é somente a existência do barro: o peso do pote é o peso do barro. A cor do pote é a cor do barro. A textura do pote é a textura do barro, e assim por diante. Nada pertence realmente ao pote. Ele é só uma existência aparente, um nome; um conceito para o qual não existe nada de substancial associado.

O barro, por sua vez, existia antes do pote ser criado, existe durante a permanência do pote, e continuará sendo o mesmíssimo barro depois que o pote quebrar. O barro, com relação ao pote, é satyam.

Krishna diz a aparente tautologia que “para o que não existe não há existência” porque nós, ignorantes em termos de realidades, achamos que o pote ou qualquer outra coisa que vemos existe, tem realidade. Isso é errado, porque o pote que dizemos existir nunca possuiu de fato existência alguma: o que existiu foi sempre e somente o barro. Atribuir existência ao pote é um erro ontológico, um erro de visão da realidade.

Curiosamente, entretanto, como a fala expressa nosso entendimento, falamos de forma invertida, dando a entender que o pote é uma substância e o barro, a verdadeira substância, é um atributo do pote substancial. Dizemos “pote de barro” quando, na verdade, se fôssemos ser ontologicamente rigorosos, deveríamos dizer “barro de pote”, ou qualquer coisa assim.

Mas, afinal, por que Krishna está falando essas coisas, logo no começo da Gita? Porque Arjuna não queria lutar, dizendo que iria matar, que iria morrer. Ele não queria cometer essa ação terrível. Krishna, portanto, está lhe explicando: “Ei, Arjuna, me escute: aquilo que morre já não possui existência alguma, já está “morto”. E, quanto ao que realmente existe, não se preocupe: você não será capaz de matá-lo nem mesmo com as suas infinitas flechas encantadas com o poder de terríveis mantras. Por isso, vá lá e lute, cumpra o seu dever e pare de imaginar coisas!”

A segunda parte da fala de Krishna diz: “E para o que existe (sataḥ) não há (na vidyate) não existência (abhāvaḥ)”. Se algo pode deixar de existir no futuro, isso significa que ele não existe mesmo agora, como o pote. O que existe, existe sempre, nos três períodos de tempo i.e., passado, presente e futuro. “Nunca houve um tempo em que nós e todos estes reis aqui presentes não existiram, Arjuna. E nunca haverá um tempo em que eles não existirão” – diz Krishna, a certa altura, para inspirar o seu aluno guerreiro.

É claro que Krishna não está falando, na passagem citada, do corpo, que está destinado à morte certa assim que nasce. Para o corpo, que não existe, nunca há existência. Krishna está apontando para a natureza do indivíduo, aquilo que nunca se modificou e é o responsável pela própria identidade de uma pessoa, pela sua noção inalterada e sempre presente de “eu”.

Quando você se reconhece em uma foto antiga, de 20 anos atrás, quando era uma criancinha gorducha e feliz, você diz: “Ah, como eu era bonitinho. Tenho saudade daquela época”. Obviamente, para se identificar com aquele corpo de criança completamente diferente do corpo que você tem agora, existe algo que não mudou durante a mudança completa do corpo durante as décadas. Esse eu – que nunca desaparece e que é a testemunha imutável de todas as modificações – esse eu não pode matar, porque é mais sutil do que tudo. “O fogo não pode queimá-lo, nem o ar secá-lo, nem a água molhá-lo” (2-23) – diz Krishna, porque a consciência, natureza do eu, permanece sempre intocada, sendo a base real da qual tudo deriva existência, assim como o barro é a base real da qual o pote deriva seu suposto ser, de modo que o pote – por mais que quisesse do fundo do seu coração e contasse com a ajuda total e irrestrita de todo o panteão de Deuses hindus e não hindus – não pode tocar o barro ou ameaça-lo sob nenhuma hipótese. Tal é a independência do sujeito com relação a tudo que “existe”. Tal é a sua liberdade e a sua grandeza.

Portanto, tendo essa visão da realidade, logo no primeiro verso de ensinamento Krishna estabelece o postulado que provará de trás pra frente e de frente pra trás, durante toda sua fala, até o final da Gita: “ashocyan anvashocastvam – você sofre por aquilo que não merece sofrimento, Arjuna” (2-11), porque quem conhece sabe: “Quando o corpo morre, o eu não morre (2-20)”. Nada morre ou deixa de existir. O que existe, existe, e não deixará de existir, e o que não existe, não existe, e nunca virá a existir. Qual é, então, o problema? Apenas lute!

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