Força Interior

Em todas as disciplinas espirituais existe uma qualificação específica exigida do discípulo, que é chamada de diversas formas de acorda com a tradição que se segue, mas que, no entanto, se resume a uma única disposição interna de se estar inteiro, bem disposto, de boa vontade e com um propósito firme, não abalado pelo vai e vem das emoções. Enfim, uma qualidade que podemos chamar de “força interior”.

Essa força interior é conhecida em sânscrito como virya – vigor, vontade, decisão, coragem, etc. No Yogasutra, o caminho passo a passo para a sabedoria final (prajña) é descrito por Patañjali do seguinte modo: 1)shraddha, 2)virya, 3)smrti, 4)samadhi, 5)prajña, ou seja: 1)confiança, 2)força interior/ decisão/coragem, 3)entendimento/lembrança do entendimento, 4)contemplação/absorção no conhecimento e 5)conhecimento estabelecido.

A força interior como requisito essencial ao estudo nasce da confiança no professor e, principalmente, na tradição da qual ele faz parte. Isso faz com que o intelecto relaxe seus questionamentos excessivos e possa se empenhar em estar presente nas aulas com o coração aberto, ouvindo as explicações sem confrontá-las a todo o momento com questionamentos impróprios, ou que seriam respondidos logo na frase seguinte da explicação.

Virya, nesse sentido, é a decisão de largar a vontade de controlar o processo de conhecimento; largar, de certo modo, o intelecto, deixando que o meio de conhecimento na forma das palavras do professor faça todo o trabalho.

Todos confiamos nos nossos olhos. Caso os olhos desenvolvam miopia, apenas corrigimos o defeito com lentes, mas continuamos com toda a confiança de que apenas os olhos podem nos mostrar as formas e cores dos objetos do mundo. Deixamos ele fazer isso sem o questionamento constante: “Será que o que vejo é real? Será que não estou sonhando? Será que meus olhos não me enganam a todo o momento?” Caso isso acontecesse não conseguiríamos fazer nada na vida; seríamos múmias paralíticas sem referência de realidade para agir.

Mas naturalmente, graças a Deus, temos confiança, shraddha, nos olhos, e, portanto, também temos a coragem, a força interior, virya, de atravessar a rua quando eles nos mostram ela vazia, sem carros.

A racionalização excessiva é, portanto – pasmem – um obstáculo para o verdadeiro conhecimento. O conhecimento vem de um meio de conhecimento, e a única coisa necessária para obter conhecimento é expor-se ao meio de conhecimento adequado com a confiança de que o que ele nos mostra é a verdade sobre aquele assunto que ele foi feito para revelar. Temos essa atitude com os olhos, com os ouvidos, e com todos os outros meios de conhecimento que temos nas nossas mãos.

Vedanta, entretanto, é um meio de conhecimento que revela a verdade do sujeito, e por isso mesmo não está e nem poderia estar nas mãos do sujeito a capacidade de operá-lo. É um meio de conhecimento externo, para o qual, porém, aplicam-se as mesmas regras dos outros meios de conhecimento: é preciso confiança de que o que ele nos mostra é verdade, mesmo quando está aparentemente em contradição com a nossa percepção de nós mesmos e do mundo.

A racionalização é necessária apenas quando duas percepções nascidas de meios de conhecimentos adequados estão em aparente contradição. Vejo uma poça de água na estrada e sei que não chove há semanas. Conclusão: é uma miragem causada pela reflexão do calor abrasante do sol na estrada. Essa conciliação de duas percepções feita pelo intelecto é necessária, e quando ela é entendida temos um novo conhecimento, e podemos passar tranquilamente pela poça d’água sem desacelerar o carro.

Em Vedanta é preciso de muita racionalização, de muita lógica, para mostrar que a experiência de ser um indivíduo não é contraditória com o que o meio de conhecimento chamado Vedanta revela: que esse indivíduo é na verdade a causa da criação inteira e não possui quaisquer limites. O conhecimento de que você é a causa de tudo é dado pelo meio de conhecimento; a racionalização serve apenas para conciliar as aparentes contradições, e não para provar ou validar o meio de conhecimento.

Todos os exercícios de força interior que são feitos servem a muitos propósitos, um deles sendo desenvolver em nós a capacidade de “desligar o intelecto”. Ninguém é capaz de dançar livremente, de dizer impropérios para os queridos colegas de estudo ou de comer com a mão sendo “sensato”, isto é, sem largar o intelecto. Quando desenvolvemos essa capacidade, em nome do estudo de Vedanta, podemos estar mais aptos a ouvir o ensinamento das aulas como um meio de conhecimento agindo diretamente sobre nós, e estamos muito mais próximos de obter o conhecimento de fato, o conhecimento que fará a diferença na nossa vida.

Showing 4 comments
  • Erika P
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    Gratidão pelo artigo! Muito esclarecedor e tocante para mim em específico. Om

  • carla e
    Responder

    Complementação das experiências do Camp. Bom artigo!
    Om

  • Rosilene M
    Responder

    Gratidão!
    Quantos esclarecimentos! A cada dia as vendas nos olhos da minha alma diminuem um pouco mais.
    OM

  • isymartins@yahoo.com.br D
    Responder

    Que bom é ler este artigo depois das vivencias do Vedanta camp.
    O conhecimento e a confiança nele vai se tornando claro como agua.
    Om

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