Guru-purnima é o dia do ano dedicado à celebração do professor, guru, figura tão importante no caminho espiritual de todos nós. No calendário lunar tradicional, o dia do guru é comemorado na lua cheia (purnima) do mês de ashada, que neste ano de 2015 cai no dia de hoje, 31 de julho.

A definição da palavra guru, o termo em sânscrito para professor, é muito significativa. A sílaba “gu” significa escuridão, e a sílaba “ru” indica remoção. Porque ele remove a escuridão, a ignorância, um professor é chamado de “guru”.

Para conhecermos algo em qualquer campo de conhecimento ­– da culinária à física quântica – deve haver remoção de ignorância, e a essa remoção damos o nome de conhecimento. Nenhum conhecimento é realmente criado ou produzido desde a sua não-existência prévia. Quando Newton descobriu (e é sugestivo que nesse caso usemos a palavra “des-cobrir” e não “criar”) a lei da gravitação universal, ele apenas removeu, com ajuda das suas observações e cálculos, aquilo que na sua mente impedia-o de reconhecer o fato da gravidade junto com todas as suas implicações. Esse fato, junto com suas implicações, já era existente no universo e não foi criado por Newton. Qualquer um que porventura o descobrisse expressá-lo-ia através das mesmas equações, que são apenas o reflexo, na mente humana, da ordem inteligente que permeia o universo e que já possui todo o conhecimento.

Portanto, realmente não criamos conhecimento, apenas removemos ignorância, e fazemos isso apenas com a ajuda do guru – o removedor de escuridão. Mesmo Newton, que supostamente descobriu “sozinho” a lei da gravitação universal, só pode descobri-la porque possuía de antemão certos conhecimentos que o qualificavam para tal descoberta – que iam desde a capacidade de ler e escrever até o grande conhecimento de lógica e matemática que ele presumivelmente possuía – e grande parte desse conhecimento ele certamente adquiriu de seus professores. Não é possível supor que um indivíduo possa aprender tudo sozinho, o que faz da presença do professor uma presença fundamental para a evolução da cultura humana.

Contudo, ainda que todos os professores de todas as matérias sejam louváveis e extremamente importantes, a Tradição Védica considera que o único realmente merecedor do título de guru é o professor que ensina o autoconhecimento, e existe uma razão forte para isso. Pois, se o guru é aquele que remove a ignorância, então ninguém pode ser realmente um guru em assuntos mundanos, como culinária ou física quântica, porque nesses campos o conhecimento é sempre parcial. Por mais que se descubram coisas em uma dada área de conhecimento, essas descobertas não eliminam de uma vez por todas a ignorância daquele assunto, mas, ao contrário, abrem novos campos de ignorância, dos quais antes ninguém suspeitava. Assim, longe de silenciar o cientista, deixando-o imerso na luz da plena onisciência, o conhecimento da gravitação universal, por exemplo, apenas incita-o a fazer mais perguntas, outras perguntas (e assim surgiu a física quântica, com suas estranhas perguntas…).

O autoconhecimento, por outro lado, é o único conhecimento que não deixa nada a desejar, nada a ser conhecido, pois é o conhecimento do sujeito que não tem partes, que não é objeto da percepção sensorial e nem objeto de uma inferência, mas que é a presença sempre inteira por meio da qual todo o mundo de objetos pode vir à luz. O conhecimento dos objetos é sempre parcial porque é mediado pelos sentidos e pela mente, que por suas limitações naturais não podem abranger todo o conhecimento implicado nos objetos, mesmo no mais ínfimo deles. Afinal, há quantos séculos não estamos estudando as partículas elementares da matéria, sempre chegando a novas descobertas (e, portanto, novas perguntas) possibilitadas por novos e mais potentes instrumentos de observação? O sujeito, contudo, não sendo um objeto observável, mas a presença auto-evidente que torna tudo o mais observável e conhecível, pode ser plenamente conhecido em sua natureza, desde que se remova a ignorância natural que o encobre. Só o removedor dessa ignorância específica pode ser propriamente chamado de guru, porque só ela pode ser de fato removida.

Dentre todos os exaltados gurus da Tradição Védica, existe um que é o mais exaltado: o sábio Vyasa. O festival de Guru-purnima também é chamado de Vyasa-purnima, o que apenas confirma o estatuto desse grande sábio como a personificação paradigmática do professor. Sozinho, ele dividiu o imenso Veda em quatro (Rk, Yajus, Sama, Atharva), escreveu o maior poema épico da história da humanidade, o Mahabharata, com mais de cem mil versos (e que contém em si a Bhagavad-Gita), as dezoito principais Puranas, além do Brahma-Sutra, um trabalho de minuciosa análise de toda a literatura de Vedanta.

Qualquer que seja o nosso professor na tradição de Vedanta, nós não podemos passar a data de hoje sem reverenciar com todo o nosso coração esse grande mestre, sem o qual Vedanta certamente não mais existiria. Lembremos com devoção, pois, desse grande professor, Vyasa, que permanece sempre como a lua cheia no céu: sem nada nem ninguém para lhe fazer sombra.

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  • Marcia Y
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    Agradeço a todos os mestres que mantiveram através de tanto tempo os ensinamentos que hoje, você Jonas, nos apresenta com tanta clareza e carinho, nos mostrando o caminho para a Luz. Gratidão _/_

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