Jesus Cristo, o Natal e Vedanta

O Natal comemora o nascimento de Jesus Cristo, considerado pela fé cristã como o filho de Deus, que veio à terra para redimir os pecados da humanidade. A história de Jesus, narrada na Bíblia, é uma grandeza em si mesma, rendendo todo tipo de interpretação possível (o que, aliás, é uma característica universal das escrituras religiosas). É claro, então, que podemos notar certas semelhanças entre a vida e os ensinamentos de Jesus e os ensinamentos de Vedanta, e é justamente isso que pretendo fazer aqui, sem querer clamar com isso qualquer tipo de verdade interpretativa absoluta. Vamos apenas ver um dos acontecimentos da vida de Jesus à luz de Vedanta.

O acontecimento que tenho em vista, descrito igualmente nos quatro evangelhos canônicos do Novo Testamento, é a expulsão dos comerciantes no templo por Jesus Cristo. Conta a história que Jesus, entrando no pátio do templo, expulsou de lá todos aqueles que estavam comprando e vendendo. Mas com um de detalhe: aos que compravam e vendiam, Jesus enxotou com veemência mas, aos que ofereciam pombas, ele apenas pediu para que deixassem o local. Como podemos interpretar essa alegoria?

O templo é a alma do homem. Em Vedanta, diríamos que é aquele lugar mais profundo, mais íntimo, desde onde cada um de nós pode dizer significativamente a palavra “eu”. Esse templo foi feito, de acordo com a própria escritura cristã, segundo a imagem e semelhança de Deus, de modo que nela, na alma humana, há uma identidade com Deus.

Nessa alma, porém, há comerciantes, que, com a atividade que lhes é própria, encobrem a identidade da alma com Deus. Os comerciantes do templo representam os “piedosos devotos”, aqueles que se protegem contra os pecados grosseiros, que gostariam de ser boas pessoas e que fazem todas as disciplinas – jejuam, rezam, cantam mantras e toda sorte de semelhantes coisas como o intuito de que Deus lhes dê algo em troca: todos esses são os comerciantes.

Jesus os expulsou com veemência porque eles se iludem. Pois tudo que fazem e todo o poder que têm de fazer – o poder de orar, jejuar, cantar mantras, etc. – vêm unicamente de Deus e pertencem unicamente à Deus. As flores que eles oferecem nos rituais para Deus já pertencem a Ele, assim como a capacidade da mão de agarrar a flor também pertence à Deus. Que espécie de comércio, que espécie de troca pode ser feita com Deus, com Deus que é tudo? O famoso verso “Brahmarpanam…” da Bhagavad-Gita, que geralmente cantamos antes das refeições, diz: “O meio de oferecimento é Deus, a oferenda é Deus, oferecida por Deus ao fogo que é Deus”.

O não-reconhecimento de Deus como o “dono” de tudo, por assim dizer, e como o detentor de todas as capacidades, é o maior pecado do homem. A Kenopanishad descreve como Deus ensinou uma lição aos devas (as deidades Védicas, relacionadas ao cinco elementos: fogo, ar, etc.) porque eles estavam orgulhosos de uma vitória contra os asuras (eternos inimigos dos devas), como se o poder de vencer estivesse nas mãos deles. Deus, manifesto segundo a Upanishad como um ser brilhante, um yaksha, apareceu em frente de cada um dos devas e os humilhou. Frente à deidade que preside o fogo, agni, pediu: “Queime isto”. O que Ele pedia para agni queimar era o pedaço mais pífio de folha de grama seca, que até a proximidade de uma faísca, em condições normais, queimaria. Agni, contudo, não conseguiu queimar, mesmo usando toda sua força, e saiu de lá com o rabo entre as pernas, entendendo que o poder de queimar não pertencia a ele exatamente.

Pois foi por isso então que Jesus Cristo expulsou do templo aqueles que faziam comércio, porque eles se iludiam, e impediam que a alma ficasse só, na sua pureza e semelhança com Deus. Esses comerciantes são as pessoas sem discriminação, que ainda se iludem achando que algum resultado de ação, alguma coisa nova adquirida, possa dar-lhes a felicidade. Ainda que uma pessoa pudesse oferecer a Deus algo que ele já não tivesse, ou pudesse lisonjear Deus cantando as Suas glórias que são sempre infinitamente maior do que um ser limitado pode conceber e cantar, e com isso pudesse obter de Deus, em troca, certos objetos de desejo – incluindo aí o Céu – mesmo assim esses objetos, sendo limitados, não podem ser verdadeiramente causa de felicidade para o sujeito.

Mas, além desses comerciantes, havia no pátio do templo também aqueles que ofereciam pombas, e que Jesus, ao invés de enxotar, apenas pediu, até com certa bondade, que deixassem o lugar, como que dizendo: “O que vocês fazem não é ruim, certamente, mas impede a pura verdade”. Essas representam as pessoas com discriminação, cuja ação não é um comércio, porque entendem que nada que possa ser ganho no tempo por meio de uma ação limitada pode ser causa de felicidade. Em Vedanta, essas pessoas são chamadas de karma-yogis, porque fazem a ação para ganhar maturidade, para neutralizar a tirania dos seus próprios gostos e aversões.

Jesus Cristo pediu para que mesmo essas pessoas saíssem, porque elas ainda estavam ligadas à noção de serem os agentes da ação. Elas ainda consideravam o “eu” – a alma – como alguém que faz alguma coisa, por algum motivo, ainda que seja um motivo nobre. O ego ainda subsiste como aquele que quer ser purificado, que quer descobrir a verdade – um eu que não é livre, livre como Deus. Esse último e sutil obstáculo também precisa ir embora, para que Deus reine sozinho na alma humana em toda a sua Glória. E foi por isso que Jesus Cristo também tirou do templo aqueles que ofereciam pombas.

Que Cristo nos abençoe neste Natal, expulsando os comerciantes da nossa alma e, na hora certa, pedindo para que mesmo o dedicado yogi deixe o templo.

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