Kālidāsa Mahākavi

वागर्थाविव संपृक्तौ वागर्थप्रतिपत्तये ।
जगतः पितरौ वन्दे पार्वतीपरमेश्वरौ ।।
vāgarthāviva saṃpṛktau vāgarthapratipattaye ।
jagataḥ pitarau vande pārvatīparameśvarau ।।

Para o entendimento do significados das palavras, eu saúdo Pārvatī e Parameśvara, os pais do universo que são unidos como palavra e significado.

Esse verso de Kālidāsa, considerado por muitos o maior poeta (mahākavi) da língua sânscrita, contém – além da rigorosidade da métrica, do jogo de palavras, analogias e metáforas, e da sonoridade cativante comuns a todos os bons versos em qualquer língua – um significado filosófico muito profundo, característica particular essa que eleva Kālidāsa à posição da estrela mais brilhante no céu dos mais brilhantes poetas de todas as línguas.

O grande poeta fala da palavra e daquilo que ela significa, da própria coisa comunicada pela palavra. O que normalmente pensamos é que existem as coisas, substanciais e existentes por si mesmas e que, por mera conveniência, nós as nomeamos – mas elas existiam antes e existiriam muito bem sem o nome. Nome e coisa, significado e significante são, assim, coisas distintas. Essa conclusão, contudo, por mais sensata que pareça, não corresponde à nossa experiência. Ninguém nunca viu uma coisa sem nome. Mesmo se eu mostrar a você algo que nunca viu, algo completamente estranho e diferente de tudo que você conheça, isso já será um nome. Será um “troço”, uma “geringonça” , um “trem” (se você for mineiro) – palavras que significam justamente isso: coisas que não temos a menor ideia do que são ou de como funcionam. Isso já é um significado ao qual corresponde um palavra.

Na maioria das vezes, contudo, as coisas que vemos nos são familiares e têm nomes definidos. Um copo é um copo. Mas o nosso pensamento é de que a substância copo é uma coisa, e a palavra começando com “c” e terminando com “o” é outra, muito diferente. O poeta, entretanto, adverte: “Não, elas não são entidades separadas, estão indissociavelmente unidas”. Nada mais estranho, à primeira vista (não é à toa que os poetas são comparados aos loucos).

Para o copo ser diferente do mero nome que o designa, ele teria que existir de fato, substancialmente. Contudo, onde está o copo. O que você está segurando na mão é vidro. Toda a substancialidade que imaginamos no copo pertence de fato ao vidro: o peso do copo é o peso do vidro; a cor do copo é a cor do vidro; o som que o copo faz é o som feito pelo vidro, e assim por diante. O que é, afinal, que você tem em mãos e que é diferente de vidro? Apenas um nome: copo.

É claro que copo não é um mero som, ele tem um significado, uma forma. Diria Platão, a respeito da forma, que existe a ideia de copo. E qual é a ideia de copo, a sua forma? Ele é quadrado, redondo, triangular? Ele transparente, branco, ou preto? Ele grande, pequeno? O copo tem uma forma específica, sem dúvida, porque reconhecemos os vários copos dos mais diferentes tipos e tamanhos, e os distinguimos facilmente de outras formas, da forma de um prato, por exemplo. Mas essa forma, essa ideia de copo não é definida em termos de nenhuma imagem. A abrangência da forma chamada copo é tão grande e indefinida que, no fim das contas, ela não é nada. Pense no copo sem o material do qual ele é feito, sem o seu formato, cor e tamanho particular. Em que você pensa? Que imagem vem a sua mente? Nenhuma!

“Ah – você pode argumentar – o copo é a função! Copo é aquilo no qual se bebe água”. A refutação desse argumento é simples: por acaso eu não posso beber água em um chapéu de cangaceiro, sem que ninguém esteja autorizado a chamar o chapéu de copo, a não ser metaforicamente?

O que é, enfim, o copo? Copo é apenas um nome. A suposta “coisa-copo” não é separada do nome ou, se quisermos sofisticar um pouco (o que geralmente só atrapalha), não é separada do conceito de copo. Suponha que alguém não saiba o que é um copo: não conheça a palavra e nunca tenha visto um. Se essa pessoa der de cara com alguém segurando um copo, a única coisa que ela verá será uma pessoa segurando vidro, porque copo é apenas um conceito, um nome na cabeça de quem o vê. A Upaniṣad é bem clara nesse respeito: “vācārambhanaṃ vikāro nāmadheyam – Todas as coisas criadas nesse universo têm base na fala apenas, é apenas nome”. O copo existe apenas na ponta da sua língua, caro leitor.

O que significa então o bendito copo, do qual falamos a todo momento e somos imediatamente entendidos? Atenção: copo não significa nada, não indica nada de realmente existente. É claro que, se você quiser ser menos niilista, você pode simplesmente acabar com a conversa dizendo que copo significa copo – e pronto! Todo mundo sabe o que é um copo e ninguém precisa de nenhum questionamento filosófico para satisfazer sua sede enchendo um belo copo de agua fresca.

Isso é verdade. Enquanto estamos no fluxo de ocupações da vida cotidiana, o copo já está perfeitamente compreendido dentro de um contexto, de uma grande rede implícita de remetimentos: o copo para encher de água, para matar a sede, para continuar pensando em como escrever esse texto, para ser publicado no site, para que eu cumpra minha função, ganhe o meu salário, etc., etc., etc.. No contexto desse desse fluxo de ocupações, como em um sonho, o copo já está perfeitamente entendido, e é uma cena até ridícula alguém perguntar o que é um copo.

Mas, se dermos um pequeno passinho para trás dessa rede de ocupações e pensarmos realmente o que significa copo, em si mesmo, ele não poderá ser categoricamente definido, nem como existente, nem como não existente. Ninguém pode dizer o que um copo realmente é, mas você pode, sem a menor dificuldade, pedir um copo de coca-cola para o garçom em qualquer boteco do mundo.

Temos que reconhecer uma coisa muito evidente, tão evidente que não nos damos conta dela tanto quanto um peixe não se dá conta da água da qual nunca saiu: tudo nos parece muito claro e definido, mas tudo é maximamente obscuro e indefinido. Como disse Santo Agostinho sobre o tempo: “Se ninguém me pergunta, eu o sei; mas se me perguntam, e quero explicar, não sei mais nada.”

Pārvatī, nas palavras do poeta, é a Deusa que cria todas as coisas, também chamada de Māyā, e que, não sem motivo, também é chamada de Avidyā, ignorância. Māyā, a mágica, é aquilo que faz aparecer algo impossível, que não existe, mas que você vê e pega. Igualzinho ao copo. Igualzinho a tudo mais no universo. O mundo é produto de Pārvatī, Maya ou Avidyā, porque as coisas, se analisadas, se vistas à luz de alguma discriminação, perdem sua existência, sua realidade, sua familiaridade. Viram nada. Contudo, se a vida no mundo não é uma divagação abstrata no nada, no vazio, se estamos todos lidando com todos esses meros nomes como se fossem coisas reais e muito importantes, então isso é o maravilhoso poder de Pārvatī, a Mãe do Universo.

Mas apenas Pārvatī não seria capaz de tamanha proeza. Se coisas que são meras palavras ao vento ganham aparentemente existência, essa existência deve vir de algo que de fato exista. Porque só dizemos que copo existe porque o vidro está lá, existindo. Em outras palavras, quando dizemos que o copo “é”, a existência – o “é” – que atribuímos ao copo só pode lhe ser atribuído porque o vidro “é”, o vidro existe sustentando o copo. Não fosse a existência do vidro, jamais diríamos nada da existência daquele copo. Quando digo que copo “é”, portanto, o que “é”, de fato, é vidro. Mas vidro também não é, porque vidro é areia, que também não é, porque areia é silício e tantas outras coisas das quais eu nem desconfio. Em todo esse jogo de negações da existência de nomes à luz da existência de outros nomes, a própria existência, o “é” atribuído cada vez a cada novo nome, permanece o tempo todo não negado, indicando que essa existência é algo distinto de todos os nomes, e não é ela mesma mais um nome. Esse algo, essa fonte primordial de pura existência, diz Kālidāsa, é Parameśvara, O Senhor Supremo, a consciência que é a existência auto-evidente da testemunha que sobra – absolutamente inegável – no final da fila de negações.

Pārvatī e Parameśvara, ambos, são os pais do universo. Apenas um deles não expressaria nem manifestaria nada. Se você está sentado na sua cadeira existente, na frente da tela do computador existente, lendo esse texto existente – ainda que nada disso exista de fato – então você deve ajoelhar-se e glorificar o espantoso milagre no qual você está inserido, e que se deve ao casamento eterno, inseparável e maximamente harmônico entre Pārvatī e Parameśvara.

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  • Mariana M
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    Texto maravilhoso! Gratidão! OM!

  • Adriano A
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    Complicado e desconfigurante, porém logico. Vou refletir, e reler mais vezes o texto.

    Namaskar

  • Gislaine C
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    Gratidão! Bastante esclarecedor ….OM

  • Sonia Maria C
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    Ótimo texto, me fez pensar sobre a simplicidade e a complexidade de tudo que existe na vida.
    H arih Om

  • João Pedro G
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    HARI OM

  • Vanda Maria S
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    Olha, pra mim é complicado pensar nesses termos. Eu só posso dizer que uma coisa é, quando a substância que forma aquela coisa é da coisa mesma, isto é, não veio de nenhum outro lugar, não sofreu e não sofrerá transformações. Se a coisa esta submetida a uma origem desconhecida que veio ou vem se transformando ao longo do tempo até formar isso que chamo de copo, vidro, areia…então ela não é? Só a coisa que nunca muda é? A natureza de algo pra poder ser considerado como sendo algo de fato, tem que ser imutável e primeva?
    Bem…não temos esse algo, ou melhor, não chegamos a ele ainda de forma concreta. Podemos chegar a essa conclusão de forma intelectual, intuitiva, mas…de forma concreta e factual, não chegamos ainda a essa coisa primeva da qual tudo que supostamente se origina permanece sob transformação constante e ela mesma nunca se transforma.
    Podemos chama-la de Parameśvara, deus, partícula quântica…mas ainda assim, pra mim, essa suposta coisa primeva e imutável permanece tão conceitual como o copo.

  • Adriano A
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    Segunda vez que leio o texto. Deu vontade de meditar profundamente, o texto é uma ponte para sentar e respirar e manter esse conteúdo em foco. Vou fazer isso!

    Om

  • Ana Alice M
    Responder

    Esse texto é muito bom, esclarece muito, mas preciso ler e reler devagarzinho….parte por parte para aos poucos ir apreendendo! Gratidão por escreve-lo. Om!

  • Regina A
    Responder

    É tudo bem complexo, não é fácil , mas vou caminhando nesse novo aprendizado. Om

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