Karma-Yoga na Gītā

Kṛṣṇa começa o ensinamento da Gītā com uma ousada declaração que deverá ser provada por todos os versos que se seguirão: “Arjuna, você sofre por aqueles que não merecem sofrimento – aśocyān anvaśocastvam”. Todas as afirmações em Vedanta devem ser provadas à luz da lógica e da experiência comum. Kṛṣṇa não esperava que Arjuna simplesmente acreditasse que ele sofria por um motivo ilegítimo, mas queria que ele entendesse isso.

Ao comentar esse verso, Śaṅkara diz que aqueles que não merecem sofrimento são Bhīṣma, Droṇa, etc. – todos aqueles queridos por Arjuna e que constituíam as fileiras do exercito inimigo – porque essas pessoas estavam cumprindo seus deveres com louvor e, além disso, do ponto de vista absoluto, elas eram imortais, e Arjuna sofria porque pensava: “Eu serei a causa da morte deles”.

Arjuna sofria porque era ignorante da realidade. Em primeiro lugar, em uma guerra ambos os lados estão cumprindo seus respectivos deveres, ninguém está lá por diversão. Mesmo que Arjuna matasse aquelas pessoas, elas teriam um bom destino, tendo morrido em batalha no cumprimento do dever. Ademais, e em termos absolutos, ninguém morre. O corpo físico, de qualquer modo, já está morrendo a cada instante. Mas o eu não morre. “Nunca houve um momento em que eu não existi, nem todos esses governantes aqui presentes, Arjuna. E nunca haverá um momento em que deixaremos de existir!” – diz Śri Kṛṣṇa.

Desse modo, em muitos versos, Kṛṣṇa fala para Arjuna sobre a imortalidade e a imutabilidade do eu, sobre o fato do que eu não mata nem morre, acabando com a justificativa intelectual para o sofrimento de Arjuna.

Ainda assim, havia em Arjuna a hesitação de realizar a ação. Por que ele deveria lutar, se, para se ver livre do sofrimento, ele precisava apenas conhecer a realidade imortal e livre da ação que Kṛṣṇa ensinava?

Kṛṣṇa, então, ensinou yoga a Arjuna. Ele sabia que, se Arjuna simplesmente abandonasse o campo de batalha, o conhecimento do absoluto não poderia ser assimilado por ele, pois restaria sempre na mente de um guerreiro nato como Arjuna a culpa e a vergonha por ter, para todos os efeitos, fugido da guerra, ainda que sua motivação não tivesse sido o medo.

Kṛṣṇa diz: “Eu vou ensinar-lhe agora sobre yoga, por meio do qual você abandonará a limitação da ação, karma-bandha.

Karma-bandha significa literalmente a prisão da ação, o fato de que o resultado de qualquer ação é sempre parcial, envolve várias perdas e produz consequências que pedirão novas ações, em um ciclo sem fim. Era muito claro para Arjuna que tanto a vitória quanto a derrota na guerra seriam motivos para a tristeza. Guerrear pelo que, então? Se o resultado da ação é, de todo modo, limitado, para que fazer qualquer coisa?

O que Kṛṣṇa queria mostrar para Arjuna era que a felicidade é de fato alcançada apenas pelo autoconhecimento, o conhecimento do eu imortal, imutável, pleno e livre, mas esse conhecimento não pode ser assimilado em uma mente confusa, cheia de remorsos, culpas, ansiedades e todas as outras perturbações nascidas de uma atitude imatura frente à ação. “Se você quer ter uma mente livre desses obstáculos, Arjuna, você deve fazer a ação com a atitude correta, de modo a obter, por meio dessa atitude, um equanimidade da mente, samatvam. Samatvam yogah ucyate – yoga é a equanimidade da mente.

E qual é essa atitude que traz a equanimidade? Kṛṣṇa diz:

karmaṇyevādhikāraste mā phaleṣu kadācana ।

mā karmaphalaheturbhurmā te sangostvakarmaṇi ॥ 2-47 ॥

A sua competência está somente na ação, e jamais nos resultados dela. Não queira ser a causa dos resultados, e tampouco se apegue a inação.

Esse verso define karma-yoga. Por meio dele podemos entender que karma-yoga não é uma ação específica (como muitos pensam, quando prestam algum serviço de graça e dizem estar praticando “karma-yoga”), mas uma atitude na ação.

Existe, a cada momento, algo apropriado a ser feito, algo que é o dharma de uma pessoa. O que uma pessoa tem a capacidade de escolher é isso: escolher fazer o seu dharma. Ela pode, ao invés de escolher fazer a ação que lhe cabe, ser levada por algum desejo ou fantasia da mente a fazer alguma outra coisa, mas ela pode também escolher deixar de lado essas fantasias e fazer o dharma. Na ação, é apenas essa a competência de um ser-humano.

Uma pessoa não tem, contudo, qualquer escolha quanto aos frutos da ação, karma-phala. Você não pode escolher o que acontecerá, uma vez que uma dada ação, “dhármica” ou “adhármica”, tenha sido escolhida. Kṛṣṇa diz: “Não queira, iludidamente, ser a causa para o resultado da ação, porque você de fato não é, e querer determinar o resultado traz apenas ansiedade, culpa, e todos aquelas perturbações que são um impedimento para o conhecimento que é mokṣa, a liberação do sofrimento.”

Que uma pessoa não seja capaz de determinar nenhuma situação da sua vida é um mero fato da realidade. Apesar do preparo, apesar da preocupação, apesar do cuidado, apesar do esforço correto, qualquer coisa pode acontecer. Pode acontecer tudo de maneira completamente inesperada, porque a ordem que governa a ação envolve infinitas outras variáveis completamente desconhecidas por nós. Levar isso em consideração – que existe uma ordem maior que governa a ação e os resultados ­– livra a mente das preocupações, ansiedades, medos, culpas, etc. Eu apenas faço o meu papel, o meu dharma, e tudo mais acontece do jeito que tem que acontecer.

Eu mesmo já sei que, de qualquer maneira, nenhum resultado específico pode produzir a felicidade, pois eles são limitados de tantas maneiras! Então, eu faço o que deve ser feito, e, uma vez tendo feito, ofereço essa ação dentro da roda do karma, que não me pertence, e recebo o resultado como uma benção de Deus, Iśvara, que é a ordem onisciente e, portanto, infalível que governa a ação. Desse modo, produzo em mim a disposição interna de tranquilidade e contentamento que é o solo fértil para que o autoconhecimento possa germinar e criar raízes.

Showing 2 comments
  • Lica C
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    harih om.

  • maria emilia m
    Responder

    interessante saber que karma yoga não é apena a ação, mas a atitude na ação…preciso pensar e compreender mais profundamente isso.

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