Kumbha Mela – Reflexões por Mrnalini Rao

O que move 100 milhões de pessoas, a maioria indianos, de todas as esferas da sociedade – famílias, pessoas em buscas espirituais, pessoas iluminadas e gurus de diferentes escolas de ensino/akharas, para estar em um dos encontros mais pacífico? O que move as pessoas a virem para o maior encontro religioso do mundo, buscando as bênções da purificação – ou o que é conhecido como o “banho sagrado’ na confluência dos 3 rios? O que move as pessoas a virem ao Kumbha Mela?

Se pudesse ser resumindo em uma palavra – seria shraddha.  Shraddha é mais do que uma crença. É uma profunda confiança implícita e compreensão nas palavras do Guru e das escrituras, que revelam a relação entre a pessoa, o mundo e Deus. Sraddha é o entendimento de que o que está escrito no Smriti e Vedas é verdade, sendo o status de ‘pramana’ – um meio de conhecimento que me diz que este “banho religioso” irá ajudar a lavar todos os papas (situações desagradáveis) que são acumulados ao longo de muitos anos de vida. A consequencia é que, com os papas das pessoas sendo neutralizados ou minimizados, o punya (situações favoráveis) que são acumulados nessas pessoas,  irá se manifestar em mais intensidade ou  frequência.

Por causa do significado astrológico do evento e a lenda por trás do Kumbha Mela, acredita-se que uma poderosa super-carga de positividade acontece em Prayag, Allahabad – a confluência dos rios. A área inteira é energizada – a água, o ar e a atmosfera inteira torna-se carregada com essa força. Tomar um banho nas águas, que está impregnada de poder, promove o crescimento espiritual, saúde, força emocional e coloca você no caminho espiritual.

“Kumbha” significa “navio” e “mela”, um “festival”. Na raiz da lenda do  Kumbha Mela, se encontra a busca pelo néctar da  imortalidade que iria acabar com a guerra entre os devas (deuses) e os asuras (demônios). Antes que os deuses tivessem o néctar, algumas gotas caíram em Haridwar, Allahabad, Nasik e Ujjain  – locais diferentes na Índia, purificando esses lugares. Por isso, a cada três anos, o Kumbha Mela é realizado , rotativamente , em Haridwar, Allahabad, Nasike e Ujjain . O mais santo de todas as  Kumbha Melas é o Maha Kumbha Mela, que acontece em Allahabad em Prayag- a confluência de três dos mais sagrado rios da Índia: o Ganges, o Yamuna e o fabuloso Saraswati, que é subterrâneo.

Pelo fato do Kumbha Mela girar principalmente em torno do banho santo, certos dias são considerados mais auspiciosos do que outros, de acordo com o significado astrológico. Nestes dias, os diferentes centros de ensino e os seus monges e alunos, de acordo com a história do estabelecimento, obtém o direito de liderar a procissão de seu grupo até as águas. Isto é marcado com cantos devocionais, multidões crescentes e toda uma atmosfera elétrica.

Naquela manhã fria de inverno, enquanto nos movíamos no pequeno barco, a poucas jardas das margens até a confluência, nós  podíamos ver com clareza  o azulado Yamuna encontrando o amarronzado Ganges e o borbulhante  Saraswati , no meio. As águas pareciam claras e convidativas. Um sacerdote brâmane que estava sentado em um barco ancorado perto da confluência estava disponível para nos ajudar a afirmar o nosso sankalpa ou ‘intenção’. Apertando nossas as mãos de uma forma específica, com uma oração em sânscrito elaborada, nós mergulhamos totalmente nas águas frias. Nós mergulhamos repetidamente, reconhecendo que estávamos mais purificados e contentes, do que antes. Se foi a energia das inúmeras pessoas presentes, ou o nosso próprio Sraddha, ou os deuses sorrindo para nós, nós nunca poderemos dizer. Depois do nosso mergulho e algumas orações, nós nos movemos para algumas das barracas na área de Kumbha, conhecendo as pessoas.

O Bhagavad Gita fala de quatro tipos diferentes de bhaktas ou devotos, os quais estavam ali no Kumbha,  em sua plenitude.  É dito que as pessoas dadas a fazer boas ações, que veneram o Senhor são agrupáveis em 4 grupos (BG 7-16). Este agrupamento é baseado em sua compreensão de Deus, sua atitude, sua abordagem e a natureza das orações.

Os dois primeiros tipos são os que estão em busca de segurança, relacionamentos e posses. Eu consegui encontrar muitos deles. Uma senhora de meia-idade, vestida com um salwar kameez verde, disse que ela tinha vindo para o Kumbha para rezar para que o marido, que teve um ataque de paralisia, se recuperasse. Como ela, alguns de nós oram a Deus só quando estamos em sofrimento ou tristeza. Muitas outras mulheres em coro,  disseram que elas haviam vindo para orar e pedir pelo bem-estar de seus filhos e famílias. A maioria delas acredita que não há nenhuma maneira de ter qualquer controle sobre as situações, sem alguma graça .Então,  sempre que este grupo de devotos deseja  realizar algo, ele ou ela invoca a graça de Isvara para controlar certos fatores que eles não podem controlar ou mesmo saber.

Um deles brincou: “Nós não estamos aqui para um piquenique. Isto é uma peregrinação e estamos prontos para aguentar qualquer coisa, quer seja estar sem alimentação adequada, quer seja aturar inconveniências , ou caminhar por milhas  para se chegar à confluência.”  Este pensamento está ligado, em grande parte a compreensão predominante na Índia do que é  uma peregrinação. As viagens são realizadas onde as pessoas voluntariamente  abrem  mão  ou   recusam  certos confortos.

Minha companheira de viagem, Radhika, que também é a minha colega de turma no Ashram, compartilhou seu propósito de vir à Kumbha: – “Como uma estudante de Vedanta, para obter o conhecimento fundamental,  a qualificação necessária é ser uma pessoa que está livre de obstáculos para se ganhar  a clareza de auto-conhecimento. Minha oração é pela remoção de todos os obstáculos, por este mergulho sagrado. “Ela é uma buscadora, que deseja conhecer a verdade de Iswara – o criador – o terceiro grupo de devotos. Muito perto do terceiro grupo está o quarto grupo de jnanis ou pessoas sábias. Eles reconheceram a sua unidade com o Senhor.

O que era único de se ver, eram centenas de sadhus, sadhvis e sanyaasis – monges e renunciantes de toda a Índia, muitos dos quais vivem em um isolamento tranquilo e só surgem em ocasiões como esta. Para a maioria deles haviam sido dado tendas espalhadas ao longo de alguns quilômetros, onde eles haviam acampado por dois meses – o período do Kumbha. Ao contrário da organização da igreja, algumas dessas pessoas santas vivem por conta própria ou estão associados com algum ashram ou algum centro de ensino ou prática espiritual. Estas são as pessoas que se renderam aos pés do Senhor, com total entrega. Muitas dos sadhus ou santos que encontramos, pareciam relaxados e felizes. Algumas das mulheres sanyaasis afirmaram que : “Nós escolhemos este estilo de vida de renúncia na felicidade e não para fugir das situações. O que existe agora é só felicidade , pois não há nada a  perder”.

Uma coisa única sobre o Kumbha foi ver policiais montados à cavalo. Um deles explicou o motivo:”Tendo em conta as grandes multidões, é impossível utilizar qualquer veículo a motor. Além disso, não existe espaço. Uma coisa maravilhosa que poucas pessoas sabem sobre cavalos é que eles não pisam nas pessoas, mas as pessoas pensam que serão pisoteadas e, portanto, se auto-regulam por medo. Outra vantagem é que por estar a  cavalo, temos uma vista superior das multidões e somos capazes de detectar situações problemáticas facilmente,  fazendo  a gestão de multidões tranquilamente.  

O conhecimento fundamental é que tudo o que está aqui é Iswara e que é para ser compreendido. Eventos como o Kumbha Mela torna isso mais fácil de ser assimilado, dado o sraddha das pessoas. Saímos do Kumbha sabendo que tinhamos sido abençoadas, fortificadas, fortalecidas e purificado, como nunca  antes. Om Tat Sat

Esse texto foi escrito pela Mrnalini Rao, se você gostou deixe seu comentário e leia este outra texto da autora:  “A lâmpada mágica e o amor“;  E para entender melhor a tradição “o que são os Vedas“. harih om

 

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