Como o artigo passado foi sobre chakras, achei apropriado que este fosse sobre kundalini, já que falar sobre chakras sem citar kundalini é quase como falar sobre Hanuman sem mencionar Rama, ou contar as aventuras do arqueiro Arjuna sem mencionar o avatara que lhe serviu de charreteiro e guru na grande guerra dos Bharatas.

Todo o preâmbulo de advertência do artigo anterior vale igualmente aqui: trata-se de um assunto obscuro, solo fértil para o desenvolvimento de muito engano, exploração e má-fé. Nosso objetivo não é, contudo, desfazer todos os enganos nem denunciar todos os abusos, mas apenas interpretar aqui o conceito de kundalini dentro dos parâmetros da tradição védica na qual estamos inseridos, de modo que esse conceito possa se tornar significativo para nós, perdendo sua etérea aura mística: tão mais atraente para uma pessoa quanto menos clareza ela tenha com relação aos meios e fins da busca espiritual.    

O conceito popular ou, ao menos, o conceito que habita a cabeça das pessoas que em geral sabem alguma coisa sobre yoga – incluindo aí a mim mesmo – é o de que a kundalini é uma energia que deve ser despertada e conduzida, através de certos exercícios, desde o chakra base, muladhara, até o chakra do topo da cabeça, sahasra, onde, então, ocorreria o evento da iluminação.

Dado que iluminação significa, de comum acordo com todas as tradições espirituais do oriente (universalidade essa que não é mera coincidência, mas deriva da exigência lógica a priori do próprio conceito de iluminação), uma completa, definitiva e irrevogável libertação do sofrimento, ela não pode ser o resultado de um processo, de uma mudança de qualquer tipo (karma), dado que qualquer mudança nunca é definitiva. Isso então significa que todas as práticas subsumidas pelo nome “kundalini”, quaisquer que sejam – meditações, visualizações, respirações vigorosas, etc. – não produzem como seu fim a iluminação, a libertação definitiva do sofrimento.

A tradição védica, contudo, em algumas de suas vertentes tradicionais que se chamam tantra-yoga ou hatha-yoga, descrevem de fato a iluminação como a chegada da kundalini no chakra do topo da cabeça, e, se as afirmações de uma fonte confiável não podem ser tomadas no seu sentido literal, imediato, temos o dever, como regra interpretativa, de buscar-lhes um sentido metafórico, secundário, ao invés de simplesmente as descartarmos, invalidando a tradição frequentemente milenar que as sustenta.

Há um maneirismo da linguagem, muito comum no modo como nos expressamos cotidianamente, no qual fazemos vista grossa à distinção formal entre meios primários e secundários. Quando dizemos, por exemplo, que estamos cozinhando, quando, na verdade, estamos apenas cortando cebola ou pondo água na panela, é precisamente esse fenômeno linguístico que ocorre. Pois o ato de cozinhar um alimento significa colocá-lo em contato com uma fonte de calor por um certo tempo, e nada mais. Ocorre que, por uma comodidade aliás muito sensata da língua, não nos importamos naquele momento com o detalhe formal dessa distinção e dizemos, logo de cara, que estamos cozinhando, quando o que está realmente acontecendo é que estamos apenas realizando os preparativos para que a ação de cozinhar depois aconteça.

Talvez a maioria das confusões que se faz entre meios e fins para a libertação, moksha, que já se materializou no mundo espiritual em querelas seculares e disputas sem fim entre tradições de yoga e vedanta, deve-se a um puro e simples desconhecimento entre o que é um meio preparatório, upaya, e o que é o fim mesmo que se tem em vista com a aplicação daquele meio.

Quando escrituras de yoga falam, por exemplo, que aquele que pratica pranayama torna-se imortal, o que está acontecendo, por um lado, é uma exaltação da prática citada, simplesmente para gerar no praticante uma grande e inabalável disposição para realizá-la, já que as tendências mentais de preguiça, dúvida e negligência são naturalmente tão grandes nas pessoas que, às vezes, um exagero na descrição do resultado de uma prática é desejável.

Mas, por outro lado, o que está acontecendo não é apenas mera hipérbole. A prática de pranayama é a causa primária, direta, para uma mente calma e focada que, ao entrar em contato com o conhecimento de Vedanta – o meio primário e direto para a liberação – consegue interessar-se por ele, entendê-lo e retê-lo. Sendo assim a prática de pranayama um meio secundário ou indireto para a liberação, a afirmação de que quem o prática torna-se imortal é correta, tanto quanto a afirmação de que aquele que bem afia a sua faca saboreia uma deliciosa refeição.

Não há dúvida de que, com relação à kundalini, esta falta de rigor no modo como se fala de meios primários (diretos) e secundários (indiretos), e que nas escrituras é na maioria das vezes proposital – por motivos vários, dentre os quais estão incluídos a hipérbole saudável que acabei de exemplificar – conferiu a esse assunto particular um grau de confusão que, ao que parece, ao ser repetido pelos séculos, tornou o próprio erro algo tradicional, o que não é incomum na Índia e que é chamado pelos indianos de andha-parampara (linhagem cega de ensinamento).

A noção arraigada em certos círculos de que a elevação da kundalini, efetivada por alguma prática, produz como seu resultado direto a ocorrência da libertação do sofrimento (da libertação do nascimento e morte, da libertação do samsara, etc.) é um exemplo desses erros validados por linhagens cegas, e que motivou professores como Shankaracharya a escrever comentários às escrituras com toda a estrutura lógica necessária para negar essas interpretações incorretas de que alguma ação, karma, mesmo que sutil e meditativa, possa produzir diretamente a liberação, ainda que isso não as impeça de serem meios indiretos importantes e até indispensáveis.

O que interessa aqui,  para nós que sabemos que nenhuma mudança, karma, é a solução do problema da vida humana, é saber em que sentido as práticas que envolvem a kundalini, com todas as mudanças que elas podem acarretar, podem ser meios secundários, ajudas para a obtenção do conhecimento de Vedanta. Para isso precisamos, o tanto quanto for possível, esclarecer os conceitos, torná-los claros e inequívocos.

Por exemplo, dizem que a kundalini é uma energia presente no corpo e, também, obviamente, no universo. Energia é movimento, ou poder de movimento, que, nesse caso, chama-se energia potencial. Para a tradição védica, contudo, energia chama-se prana. Não há, no corpo, nada que se mova ou possa mover-se que não se chame prana, e todo esse movimento é dividido em cinco grupos de acordo com as funções distintas que exercem: 1) prana – inspiração; 2) apana – exalação e funções de excreção geral do organismo; 3) vyana – circulação; 4) samana – digestão; e 5) udana – ejeção (esse é inclusive o prana responsável por ejetar a alma do corpo no momento da última expiração).

Agora, para que possamos começar a esclarecer o conceito de kundalini, devemos investigar, em primeiro lugar, qual sua relação com o prana: ela é um tipo de prana, que por algum motivo não é listado junto com os outros, ou é algo completamente distinto?

No yoga, ao menos em toda a sua aplicação terapêutica, o conceito de prana, referindo-se indistintamente a toda a vitalidade implicada naquele grupo de cinco funções, é bem amplo. Toda a saúde ou doença, física ou mental, deve-se a presença ou ausência, ou ao bom ou mau funcionamento do prana na região. Se os intestinos não funcionam bem, se estão presos, por exemplo, é porque há uma presença pobre ou inadequada de prana naquela região. Especificamente, o apana (energia de eliminação) precisa de um estímulo.

Essa pessoa que sofre de prisão de ventre se beneficiaria imensamente de uma prática que envolvesse asanas de flexão à frente e exalação, porque o esforço de fazer o corpo se dobrar à frente à medida em que recolhe a barriga para dentro no movimento natural da exalação estimula naquela região do baixo ventre a “vida”, a força, o movimento, enfim, o prana – justamente o que está ali carente, impedindo a ação natural e esperada dos intestinos.

Aliás, abrindo um parênteses um pouco longo mas necessário, é por isso que não puxamos o tronco com os braços em posturas de flexão à frente, e muito menos deixamos alguém empurrar as nossas costas para tocarmos os pés com as mãos: porque essa força externa não estará ajudando a estimular o prana naquela região, que permanecerá em grande medida passivo, isto é, “morto”, ainda que os músculos das costas ou pernas possam estar sendo esticados.

Mas este artigo não é sobre as deturpações da prática de asana como exercício de alongamento. O exemplo foi só para mostrar como o prana é aquela vitalidade que, estando presente em alguma região, confere a ela saúde. E os professores de yoga não se constrangem em limitar a presença e bom funcionamento do prana como de sinônimo saúde apenas no corpo físico. Dizem eles que, assim como certa área do corpo acostumada a uma postura inadequada, imposta, por exemplo, pelo trabalho, adquire com o tempo uma dor insuportável, e que a pessoa não consegue remontá-la a nenhuma causa específica porque não presta nenhuma atenção no modo todo torto como se senta no trabalho, da mesma forma áreas da nossa mente também conformadas a certas posturas inconscientemente adquiridas desenvolvem com o tempo dores emocionais.

O ato da pessoa de levar atenção à postura sentada na cadeira, com os pés bem plantados no chão e com um apoio adequado das costas no encosto da cadeira, é descrito no jargão terapêutico do yoga como “levar prana” para aquela situação específica. É claro que combater um hábito adquirido é dificílimo, e o ato de tomar consciência e ajeitar a postura deverá tornar-se uma prática, um ação repetida. O mesmo ocorre com hábitos mentais que se queira mudar: é preciso levar consciência, levar “prana” para a região, e existem exercícios que ajudam isso a acontecer de fato, que vão além do mero autossugestionamento, muitas vezes pouco eficaz.

Agora voltemos ao tema principal  e notemos: em nenhum momento falou-se em levar a kundalini para qualquer lugar que seja, apenas prana, e a revelação que disso se seguirá, mais dramática que em uma novela mexicana, deixará chocada mais da metade da audiência: kundalini não é uma energia a ser despertada, mas uma obstrução do prana a ser eliminada. Oh!

É claro que isso não é uma conclusão minha. Os meus professores dentro da linhagem de T. Krishnamacharya assim tratam a questão, e isso também não é opinião deles. Existe uma escritura de yoga chamada Yoga-yajñavalkya que, depois do Yoga-sutra de Patañjali, era considerada por Krishnamacharya como a mais importante escritura sobre o assunto, e que não só data de um período anterior àqueles manuais de hatha-yoga mais conhecidos, como o próprio Hatha-yoga-pradípika, como tem muitos dos seus versos diretamente citados por esses manuais; pois bem, essa escritura é bem clara em vários versos que se referem à Kundalini como obstrução ao prana:

यथावद् वायुचारं च जलान्नादीनि नित्यशः

परितः कन्दपार्श्वेषु निरुध्यैव सदा स्थिता .२२

Tendo sempre devidamente obstruído o movimento do prana e água e comida por toda parte, ela (kuṇdalinī) permanece sempre nas laterais do kanda.

वायुना विहृतवह्निशिखाभिः कन्दमध्यगतनाडिषु संस्थाम्

कुण्डलीं दहति यस्त्वहिरूपां संस्मरन् नरवरस्तु स एव १२.११

Aquele que queima a kundalini, habitando nas nadis no meio do kanda, pelo prana

com chamas expandidas de fogo, meditando na forma da cobra, ele é o maior dos homens.

A kundalini, quando destruída, assim como uma cobra enrodilhada se estende quando morta, abre caminho para a passagem do prana, que então pode ser conduzido pelo canal central do corpo (sushumna-nadi) antes obstruído pela presença da kundalini. A ideia básica é que o prana está normalmente espalhado em muitas direções, o que implica simplesmente nessa nossa condição interna geralmente muito frágil, na qual a mente está sempre dispersa, perdendo seu próprio poder ao mundo e aos objetos, fazendo milhões de planos e executando nenhum, pensando uma coisa e fazendo outra, projetando expectativas falsas em pessoas e situações, colocando-se como vítima do mundo e por fim não sabendo mais o que fazer.

Essa condição é o que se chama, em termos da fisiologia sutil do hatha-yoga, de prana disperso.  Queimar a kundalini e fazer o prana entrar no canal central significa que a pessoa passa agora a conservar consigo o seu poder, seu prana, sua vida, tornando-se um yogin ou um swami: alguém dono de si, que faz o que quer, que sabe o que pode e o que não pode, que não espera nada do mundo que não seja sensato esperar e que assume para si todas as responsabilidades.

As práticas de meditação nos chakras visando a subida da kundalini (leia-se agora prana) por cada um deles pode assim significar a conscientização das várias camadas da personalidade simbolizadas por eles, e a transmutação dos aspectos negativos dessas camadas com a ajuda da deidade que preside cada chakra, o que, no fim das contas, é o que também fazemos de outros modos em muitas meditações guiadas na nossa tradição Vedanta e em outras tradições de yoga que não mencionam os termos kundalini ou chakras.

Se entendermos que levar prana para algum lugar significa tornar-se consciente daquele lugar de uma forma ampla e sensível, e que a kundalini que obstrui a passagem do prana nesses lugares significa simplesmente a ignorância (interessantemente a kundalini, assim como avidya ou ignorância, também é chamada de Mãe do Universo em muitos textos de yoga), então não há nada de diferente sendo feito pelos esotéricos hatha-yogins que também não esteja sendo feito por nós, sinceros estudantes e praticantes de yoga e vedanta.

O objetivo final, na descrição esotérica da chegada do prana no chakra do topo da cabeça, que é descrito como um lótus de mil (sahasra) pétalas (a menção de mil, sahasra, sempre significa nas escrituras um número incontável, infinito), pode também significar o final do processo de conscientização de um ser humano, descobrindo a si mesmo como a consciência infinita que é a causa imutável do universo.

Showing 0 comments
  • Eanes P
    Responder

    Ótimo texto!

  • Maria Fátima A
    Responder

    Extremamente esclarecedor, principalmente para quem já dá aulas de Yoga. Sinto uma felicidade imensa nessa jornada de estudos do Vedanta. As portas do conhecimento vão abrindo-se a cada dia. É como seu estivesse na escuridão sem sabe que porta abrir, apesar de longos anos dentro do Yoga.
    Só gratidão.

  • Vanda Maria S
    Responder

    Sempre desconfiei das porcarias que li sobre kundaline…Pensava comigo que não era possível uma energia num determinado chakra ser unicamente responsável pelo amadurecimento consciencial, bastando fazer ela subir através de exercícios repetitivos e monótonos pro chackra oposto. Era literalmente fácil demais pra ser verdade. Ao mesmo tempo que isso me parecia infantil, também parecia haver uma linguagem simbólica por trás de tudo isso a qual eu não conseguia identificar…Bem…parece que agora começo a decodificar o suposto enigma. Grata!

  • Adelena L
    Responder

    Realmente há muita controvérsia a cerca desse assunto, e muita fantasia desnecessária tornando o caminho mais difícil.
    Muito bom! Om

  • Mariana M
    Responder

    Luz do conhecimento sobre tema tão fantasiosamente difundido.
    Meu sincero agradecimento!
    om

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