Largando as fantasias espirituais – Olhos negros

É preciso ter muito punya (bons karmas) para se conectar com uma tradição viva de conhecimento, pois por incrível que pareça nós podemos ser o maior obstáculo nessa conexão. São tantas idéias e fantasias que carregamos, que estar aberto para alguém falar verdadeiramente conosco e essa fala conseguir ultrapassar as barreiras mentais e atingir nosso coração, é realmente um grande benção. A dúvida que fica é como identificar essas fantasias, existe alguma medida preventiva para esse efeito?!

Quando comecei minha busca há um bom tempo atrás, como todas as outras pessoas tinha várias fantasias do que seria um mestre e o que ele iria ensinar. Acreditava que para começar o professor deveria ser homem (fruto de uma sociedade machista), depois deveria ser indiano e por fim ele deveria me ensinar coisas secretas que nenhum outro aluno saberia.

Dei sorte, ou melhor, bons karmas me trouxeram uma pessoa de bom coração, um indiano que tinha recém casado com uma brasileira e estava chegando no Brasil, o Santosh, que foi meu primeiro professor. O destino me levou a conhecê-lo e como ele não era oposto às minhas fantasias consegui me conectar no estudo. Até mesmo a idéia que ele me ensinaria algo secreto eu ainda sustentava, por muito tempo eu esperei que ele fosse me ensinar um mantra ou um ritual que iria fazer a diferença na minha vida.

Graças ao bom Deus, ele não seguiu por esse caminho, pois poderia, e eu iria cair como um patinho. Ele com muita paciência foi removendo esse véu que estava na minha mente, que fazia com que tivesse uma esperança de uma solução mágica para vida. Depois com a mente aberta tive vários outros professores dentre eles a Glória para quem faço minhas eternas saudações. No início nunca poderia imaginar que iria aprender tanto de uma mulher brasileira.

Infelizmente até chegar e encontrar uma pessoa que se dê a esse papel de quebrar nossas fantasias como o Santosh fez, encontramos outras que contribuem em aumentar esse véu de ignorância. São muitos pseudo-professores que nos ajudam a crescer mas ao mesmo tempo aumentam nossa distância com a realidade. Entretanto, depois que se passa por tudo isso descobrimos que todos tem algo de bom que podemos aprender e que devemos respeitar todos eles, mas quando descobrimos os erros ficamos até com raiva.

Assim se tiver uma medida preventiva contra as fantasias espirituais, a primeira é que espiritualidade não apresenta solução mágica. Qualquer “super-poder” ou capacidade prometida por linhas espirituais, são verdadeiramente inúteis. Me desculpem quem as segue, mas tem certas coisas que precisam ser ditas que nem sempre são agradáveis.

Achar que a espiritualidade vai dar uma nova ferramenta para eliminar doenças, direcionar e focar a mente, conseguir mais do que se quer do mundo, não é um pensamento falso, mas é um mau uso da espiritualidade, uma sub-utilização. É só pensar assim, quando temos essa abordagem continuamos sendo o mesmo “pedinte”, querendo mudar o mundo para ser feliz, só que agora em vez de fazer meu esforço mundano, faço um ritual ou um mantra, secreto é claro. A espiritualidade é uma ferramenta para descobrir uma felicidade que não depende do mundo externo, uma base de paz que é nossa natureza e portanto quando ela não é utilizada nessa direção é um verdadeiro desperdício.

A segunda medida preventiva é tomar cuidado com os livros. Livros tem uma mágica por detrás deles. Como as palavras em inglês carregam uma mágica no Brasil. Tudo que escutamos na língua inglesa parece que tem um glamour cultural, e os livros tem uma capacidade semelhante. Tudo que está escrito em livros parece que tem sua veracidade confirmada. Afinal pagaram para fazer a publicação, está na livraria e “está escrito aqui oh!…”

Um grande equívoco assumir que o que está na forma de um livro tem algum atestado de veracidade. E no ramo da espiritualidade estamos lotados de livros cheios de erros, traduções pobres e até conceitos que vão de encontro com o que verdadeiramente está tentando ser transmitido. O meu mestre Swami Dayananda, costuma dizer: “…a maioria dos meus livros, livros que contém o meu nome, não fui eu quem escrevi e alguns eu nem revisei. São todos de discípulos que escrevem e tem o hábito de dar autoria ao professor, então se acharem algo estranho no livro, não estranhem…”

Se o swami uma pessoa super sensata e responsável diz isso, imagina nas outras tradições e grupos. É uma verdadeira loucura o que vemos escrito por aí após um pouco de estudo. Por isso a segunda medida preventiva é “não acredite nos livros espirituais só porque estão escritos” Baseie-se sempre no bom senso e em uma tradição viva de conhecimento.

A última medida que deixo para vocês é exatamente algo que não nos permite se conectar com uma tradição de conhecimento. Essa medida consiste em evitar um pensamento muito traiçoeiro que diz: “É tudo a mesma coisa.”

Quando fazemos um estudo comparativo de linhas espirituais, encontraremos vários pontos que parecem comuns e começamos a cultivar a idéia de que é tudo igual. Todos os caminhos levam ao mesmo lugar. Aí quando chegamos de frente ao estudo de vedanta carregamos a mesma atitude e perdemos o ponto principal.

Claro que todo linha espiritual vai ter algo de bom, até mesmo se pegarmos a “Bíblia” vão ter passagens semelhantes a um texto ou outro de Vedanta, mas a transmissão do autoconhecimento, ao contrário do que se imagina, não é o resultado da leitura de um livro. É uma tradição de ensinamento viva, que passa de professor para aluno e de verdade a tradição estando viva, qualquer livro poderá ser utilizado e estando morta mesmo com os Brahma Sutras na mão, o livro mais complexo de vedanta, nada será transmitido. Vamos começar a chamar o eu de Atma, como se isso fizesse alguma diferença.

Assim é importantíssimo que tenhamos noção da magnitude de uma tradição viva de conhecimento para que possamos dar a ela o seu devido valor. A relação mestre discípulo precisa estar viva para que o conhecimento flua, se não vira tipo time de futebol. Qual seu time? Flamengo. Qual é seu mestre? Sw Paramananda. Isso não funciona, encontrar uma vez por ano quando muito e viver achando que é discípulo de alguém é uma fantasia. É o estudo que faz o aluno ou o discípulo e não uma auto-entitulação. Tradição significa clareza, contato, suor e lágrimas…

Por essa e por outras quando encontramos alguém que consiga se conectar a essa tradição, dizemos que essa pessoa tem bons karmas. São tantas as fantasias que nos impedem de se conectar que é uma raridade uma pessoa conseguir superá-las e estudar com alguém que não se coloca como um homem santo, ou possuidor de uma solução mágica para vida.

Que os mestres nos iluminem para eliminar todas essas fantasias e que possamos nos conectar com uma tradição viva de conhecimento.

Harih om

 

Showing 3 comments
  • Responder

    Muito bom Jonas, obrigado pelos ensinamentos.

  • celinetosta
    Responder

    “Vamos começar a chamar o eu de Atma, como se isso fizesse alguma diferença.” disse tudo! Ótimo artigo… obrigada!

  • daisy
    Responder

    muito oportuno, Jonas!
    deixar chegar ao coração …
    Hari om

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