Lembrança e Esquecimento

 

Lembrança e esquecimento aparentam ser dois estados de espírito opostos e mutuamente excludentes: e presença de um envolve a ausência do outro. Também, ao que nos parece à primeira vista, desfrutam ambos do mesmo grau de realidade, como um chocolate e uma mesa, uma bola basquete e um tanque de guerra.

Investigando a coisa com um pouco mais de cuidado, entretanto, parece que a lembrança tem um primazia ontológica frente ao esquecimento, o que simplesmente significa que o ser do último depende do ser da primeira. Sim, o leitor leu corretamente: o esquecimento depende da lembrança. Se quisermos falar de outro modo: só há esquecimento se, antes, houver lembrança.

Como podemos afirmar tal coisa, que parece ir contra a lógica, contra a experiência, contra o senso comum? Veremos neste artigo como essa afirmação, aparentemente abstrusa, está em perfeito acordo com a nossa vida, com a nossa experiência, e que é a ideia oposta – de que lembrança e esquecimento têm o mesmo “grau” de realidade – que é absurda e vai contra a nossa experiência.

Parece não haver muita dificuldade com a lembrança. É um tipo de modificação mental, vrtti, definida no Yogasutra como o “Não deixar ir embora alguma coisa experimentada” [1–11]. Quando alguma experiência do passado é experimentada novamente sem a presença física daquilo que foi experimentado, então essa atividade da mente chama-se memória. E assim, de vez em quando, quando eu menos espero, aquela musiquinha da propaganda de Natal da Coca-Cola que eu acabei de ouvir na tevê volta à minha mente, e não há nada que eu possa fazer.

É muito estranho que Patañjali, o autor dos sutras, não tenha definido o esquecimento como uma das atividades mentais, como um dos vrttis. Alguém, em favor de Patañjali, poderia argumentar que ele não o define justamente porque o esquecimento é um nada, não é uma modificação mental de qualquer tipo. Mas por que então, responderíamos, ele inclui a experiência de sono profundo, que equivale a um esquecimento total de todas as coisas, como um tipo específico de atividade da mente, vrtti?

Patañjali define o sono profundo, nidra, como a modificação mental cuja base de sustentação é a não-existência, abhava. Isto é, quando pensamos na experiência de sono profundo, nos vêm à mente aquela noção do nada, de ausência, que experimentamos no sono, onde não há de fato nada nem ninguém em lugar nenhum. Essa noção, esse vrtti, é chamado sono profundo, nidra. Talvez Patañjali não tenha incluído o esquecimento na sua lista porque ele já o estaria incluído aqui no sono profundo, a forma mais radical do esquecimento, implicando a possibilidade de qualquer outro tipo de esquecimento particular.

Agora, temos a seguinte questão: haveria qualquer noção de sono ou esquecimento particular de qualquer tipo, não fosse a lembrança que temos dele? Haveria experiência de sono profundo não fosse o estado acordado? É claro que não. Quem fala desse estado, quem relembra a experiência é o sujeito acordado. Não fosse esse sujeito, simplesmente não haveria algo como “sono profundo”, e não somente como um conceito na cabeça do sujeito desperto; nós sequer teríamos a experiência mesma do sono profundo. Porque, afinal, quem teria a experiência, e experiência de quê? A experiência do nada, da ausência, só faz sentido no contraste com a existência, com a presença. Se não houvesse esta, não haveria aquela.

Se entendemos isso, então não é preciso dar um passo muito longo (talvez não seja mesmo preciso dar passo nenhum) para reconhecermos que a experiência do esquecimento de qualquer coisa particular não faz sentido sem que lembrança seja a sua base existencial. O esquecimento só é, só brilha, à luz da lembrança de que esqueci. O esquecimento por si, independente, absoluto, existindo por si mesmo é um conceito absurdo, já que a formulação do seu próprio conceito exige que nos lembremos dele.

Há poucos dias um colega me mandou um email lembrando-me de que eu havia esquecido de lhe mandar um artigo para o seu site de yoga, o que eu faço (bem, deveria fazer) mensalmente. Então eu lhe respondi precisamente nestas palavras: “Bom dia, meu caro! Desculpa, mas só agora lembrei que esqueci de mandar o texto mensal”.

A frase acima descreve muito bem o que ocorreu: quando lembrei de mandar o texto, o que eu lembrei foi que havia esquecido de mandar. O esquecimento então apareceu, veio à luz, emergiu no ser – não por si mesmo, mas por meio da sua lembrança. Se o esquecimento por si mesmo não aparece, não brilha no ser, então com que direito podemos dizer que ele existe?

Nos textos de Vedanta, o esquecimento, a ignorância, chamada de avidya, maya, e de tantos outros nomes, é definida como sadasadbhyam anirvachaniya – aquilo que não pode ser explicado ou definido categoricamente nem como existente e nem como não-existente. Porque, se digo que o esquecimento existe, ele deve aparecer, deve mostrar-se; porém, quando o esquecimento se mostra, nesse mesmo momento ele já é lembrança; já foi lembrado e deixou de ser esquecimento.

Ao contrário, se digo que o esquecimento não existe de maneira nenhuma, isso vai contra a nossa experiência de reconhecimento, à luz da lembrança, do esquecimento, dessa escuridão onde as coisas se escondem.

As escrituras nos dizem que o esquecimento da nossa real natureza existe como causa do mundo. – “Onde ele está, como ele surgiu, quais são suas características, etc.”, são perguntas para as quais não damos muita importância no estudo simplesmente porque são absurdas. O ensinamento é de que a ignorância, o esquecimento, não existe, e que tudo que há é a consciência que ilumina tudo, inclusive o fenômeno chamado esquecimento. Investigar demais sobre a natureza do esquecimento – tendo como meta o autoconhecimento ­– é como investigar a espécie à qual pertence a incrível cobra que você está vendo no chão, mas que é na verdade um pedaço de pau.

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