Livre-arbítrio

Livre-arbítrio é a capacidade de decidirmos livremente por uma coisa ou outra, sem que essa decisão esteja sendo determinada por nenhum outro fator que não a nossa vontade. Todos nós temos a sensação de livre-arbítrio. Agora mesmo, você está lendo este texto porque assim você decidiu livremente, não é? E, se você quiser, você pode parar de lê-lo neste exato momento, certo? Bem, as coisas não são tão simples assim.

Porque as nossas decisões são determinadas por certas coisas. Por exemplo: queremos necessariamente o nosso próprio bem­, e decidimos o que será nosso bem baseado em um certo entendimento prévio que temos das coisas. E nós não escolhemos o modo como estamos entendendo as coisas.

Se, por algum motivo desconhecido, você estiver entendendo as coisas de uma certa maneira de modo a estar convencido de que será mais feliz se mentir para as pessoas sempre que isso for conveniente, você fará isso; o que mais poderia fazer? Você não é livre para escolher entender que a mentira é algo que lhe trará apenas mais problemas e sofrimento, porque entender não é uma questão de escolha. Entender é uma questão de já ter entendido. Ou você entende, ou você não entende. Como alguém passa do não-entendimento para o entendimento? Ninguém sabe, mas é certo que não é pela simples “vontade”, caso contrário seríamos todos Einsteins vencedores de prêmios Nobel. Por acaso alguém quer não entender?

Nosso entendimento prévio das coisas, adequado ou inadequado – para o qual não podemos nos preparar e sobre o qual não temos nenhum controle – determina nossa escolha presente. Isto é um fato da existência, e não uma crença ou teoria. Também, esse entendimento prévio não é necessariamente algum tipo de conteúdo consciente ou informação intelectual (a pessoa que opta por mentir não necessariamente optou “conscientemente”), mas é simplesmente uma maneira de se estar no mundo fazendo as coisas. E você não escolhe a maneira como está no mundo, porque você não existe como alguém que escolhe antes de estar no mundo! Não existe um momento prévio ao seu estar no mundo no qual você poderia pensar e escolher possibilidades antes de já ter escolhido alguma coisa.

Calma, eu me explico. Não estou falando abstratamente; darei um exemplo concreto. No meio do Yoga é bem comum ouvirmos a frase: “Antes de se decidir, respire dez vezes”. Esse poderia até ser um bom conselho prático, mas o fato é que ele é inútil. Porque, para colocá-lo em prática, a pessoa tem que decidir que ela respirará dez vezes antes de decidir, mas esta primeira decisão é necessariamente súbita, abrupta, anterior a qualquer deliberação por parte do sujeito.  Certamente, a pessoa não pode respirar dez vezes antes de decidir que ela respirará dez vezes antes de decidir. Isso se chama regressão ao infinito e é um defeito lógico intolerável.

Esta “primeira decisão” – súbita e anterior ao nosso arbítrio – é o modo como estamos no mundo. Nós não temos nenhum livre-arbítrio com relação a ela, porque nós não existimos como pessoas no mundo antes dela. Nós somos a própria manifestação dela.

Os Vedas falam em punyam e papam, mérito e demérito como os fatores responsáveis pelo modo como estamos no mundo. Se a pessoa “decidiu” respirar dez vezes antes de se decidir sobre algo, isso indica simplesmente que ela teve punyam o suficiente para tomar essa atitude saudável, mas de maneira nenhuma a “livre-vontade” dela foi a causa para ela ter tomado essa atitude.

Portanto, esta ideia romântica de um sujeito possuidor de livre-arbítrio é apenas uma caricatura do modo como realmente vivemos, pois não dá conta do fenômeno deste modo súbito como todos nós já estamos no mundo e já “decidimos” algo sem que pudéssemos ter tido tempo de deliberar acerca dessa “decisão”. Se pensamos em livre-arbítrio como a situação de estarmos livres, apenas na pura contemplação de várias possibilidades sem ainda ter escolhido nenhuma – como uma pessoa em frente a um buffet com o prato vazio nas mãos – então nós estamos simplesmente sendo ingênuos, sem termos tido qualquer livre-arbítrio com relação a essa ingenuidade. Nosso prato nunca está vazio.

Esse texto foi escrito por Luciano Giorgio.

EBOOK Yoga vedanta

Showing 2 comments
  • carvalhokmd@gmail.com K
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    Oi Luciano!
    Compreendo que o livre-arbítrio é bastante limitado e que as nossas atitudes ocorrem em consequência de nossos méritos e deméritos passados. À medida que, por mérito, entramos em contato com o conhecimento, as nossas ações ficarão cada vez mais livres da ignorância, e mesmo assim não temos livre-arbítrio, pois simplesmente não precisamos dele. O livre-arbítrio é uma ilusão, que a ignorância pescou como uma pérola, para dar a sensação de que nós temos autonomia absoluta. O livre-arbítrio é um produto do ego.

    Namastê.

    • Luciano Giorgio
      Responder

      é isso mesmo!

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