Mahashivaratri

Mahāśivarātri (“A Grande Noite de Śiva) é uma data extremamente importante para as pessoas ligadas de alguma maneira à Tradição Védica. Comemorado uma vez por ano, entre os meses de fevereiro e março (dependendo do ano, seguindo o calendário lunar), é nesse dia especial que os praticantes espirituais oferecem muitas disciplinas a Śiva, com o intuito de eliminarem seus obstáculos no caminho para o autoconhecimento e, consequentemente, para a liberação completa do sofrimento.

Śiva não é alguém separado de você. Em sânscrito, a palavra significa “auspicioso”, e indica aquilo que é totalmente livre das limitações do mundo. Uma das ocorrências mais significativas dessa palavra nos Vedas é encontrada na Māṇḍūkya-Upaṇiṣad, que diz:

प्रपञ्चोपशमं शान्तं शिवं अद्वैतं चतुर्थं मन्यन्ते स आत्मा स विज्ञेयः ॥

prapañcopaśamaṃ śāntaṃ śivaṃ advaitaṃ caturthaṃ manyante sa ātmā sa vijñeyaḥ.

“Aquilo no qual todo o universo se resolve, que é a paz, que é auspicioso, livre de dualidade, conhecido como o “quarto” – esse é o Eu, aquilo que deve ser conhecido.”

Śiva é ātmā, é você mesmo, mas não o “eu” que você pensa ser, como alguém cheio de deficiências, que queria ser mais magro, mais alto, mais bonito, mais rico, mais inteligente, mais jovem… Que é uma vítima do mundo e que também vitimiza quem quer que cruze o seu caminho. Que fez tanta coisa que não devia e deixou de fazer tanta coisa que devia, e que por isso carrega infindáveis culpas e frustrações.

Śiva é você, no sentido daquilo que na sua experiência não muda nem nunca mudou, que é a testemunha invariável das mudanças associadas aos três estados da experiência (i.e. acordado, sonhando e dormindo, e que por isso é chamado na Upaṇiṣad de  caturtham, o “quarto”). Aquilo que permite que você seja sempre você mesmo, apesar de todas as mudanças radicais de corpo e mente pelas quais você passou desde que nasceu. Aquilo no qual o mundo inteiro se resolve, como quando você realiza um grande projeto ou simplesmente está tranquilo, sem nenhuma razão, e, na mente apaziguada da ânsia do desejo, todos os problemas e infortúnios da vida se dissolvem em uma grande paz, reconhecida naquele momento como você mesmo.

Se, depois, durante a continuidade da nossa experiência, perdemos essa paz, é apenas devido à ignorância e à confusão sobre quem nós realmente somos, pois aquilo que somos, distinto do corpo e da mente que testemunhamos como objetos da nossa percepção, nunca esteve realmente associado ao mundo e reside sempre livre na sua própria grandeza.

Este eu real livre do sofrimento é o que as escrituras chamam de Śiva, e é a ele que rogamos para que nos abençoe, livrando-nos da ignorância que nos faz aparentemente pessoas sofredoras. O que nos distancia dele é apenas a ignorância e, portanto, o grande pedido, a grande oração do Mahāśivarātri é:

“Que o Senhor, que não está submetido a ignorância nem a nenhum tipo de limitação e que com certeza pode me ouvir, porque não está separado de mim, que o Senhor me conceda o autoconhecimento que me tornará um contigo, para que eu supere o sofrimento associado ao nascimento, à morte e a todos os infortúnios que decorrem deles”.

As disciplinas mais importantes a serem observadas na data do Śivarātri (dia 24 de fevereiro em 2017) para invocar as bênçãos de Śiva são as seguintes:

1) Jejum

Tradicionalmente, é dito que Śiva muito se apraz dos sacrifícios feitos por seus devotos no dia do Śivarātri. O jejum, portanto, é essencial.

Você pode, contudo, adaptar o tipo de jejum a sua realidade. Se você precisa trabalhar ou exercer outras atividades que exijam energia, você pode optar por alimentar-se apenas de frutas e castanhas, ou fazer apenas uma refeição no dia. Caso não seja vegetariano, pode abster-se de ingerir qualquer tipo de carne. Enfim, use o bom senso mas não seja muito condescendente com os “desejos da carne” – sacrifique o que puder.

2) Noite em vigília

Durante a noite, você se beneficiará imensamente oferecendo seu sono a Śiva, passando a noite em vigília. O jejum é quebrado ao amanhecer. Você pode comer bastante no café da manhã, mas, de preferência, antes de esbaldar-se, ofereça comida a algum sādhu (alguma pessoa boa e simples que você conheça) até que ele fique totalmente satisfeito.

3) Repetição do mantra Om Namaḥ Śivāya

Esse mantra, apesar de pequeno e de fácil pronúncia, é muito poderoso, o que o torna uma excelente escolha para ser cantado durante o Śivarātri. Tradicionalmente, repete-se o mantra o maior número de vezes possível, principalmente durante a noite. Muita gente na Índia costuma a se reunir para cantá-lo ininterruptamente durante toda a noite, revezando-se em turnos.

4) Pūjā

Pūjā é um ritual de oferecimento, que pode ser extremamente elaborado ou bastante simples. Você pode usar uma foto de Śiva, uma estátua, ou mesmo uma pedra arredondada e lisa (Śiva-liṅga) como o altar dos seus oferecimentos. Acenda uma vela, ofereça flores, incenso, comida (que você irá comer depois, ao sair do jejum) e cante mantras ou faça uma oração com as suas palavras. Enfeite como puder a imagem do seu altar e faça prostrações levando a cabeça ao chão em reverência. Faça esse ritual durante a noite.

5) Canto ou audição do Rudram

Segundo dizia Swami Dayananda, o mantra chamado Rudram, dedicado a Śiva, é o maior mantra expiatório de todo o Veda. Isso significa que não há nenhum mantra ou oração mais poderoso na capacidade de neutralizar as faltas ou ações erradas cometidas por você no passado que o Rudram. Isso é ainda mais verdadeiro se for recitado no Śivarātri.

Como é um mantra muito longo e extremamente difícil de ser recitado, você poderá se beneficiar igualmente ouvindo uma gravação de alguém que o cante corretamente. Portanto, você pode ouvi-lo pelo vídeo abaixo, na voz dos Challakere Brothers:

Sim, a internet também é Śivam, auspiciosa!

Om Namaḥ Śivāya

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