Mahāvākhya (lit. “grande afirmação”) são as sentenças de Vedānta que revelam a identidade do indivíduo com o todo, Deus, a causa da criação. Tradicionalmente são citados quatro Mahāvākhyas, um de cada Veda, para substanciar a compreensão de que aquilo que todas as escrituras de Vedānta pretendem revelar é de fato a identidade entre indivíduo, jīva, e Deus, Īśvara. Esses quatro Mahāvākhyas são: tat tvam asi (“Você é Aquilo” – Sama-Veda), aham brahmāsmi (“Eu sou Brahman” – Yajur-Veda), ayamātmā brahma (“Este eu é Brahman” – Atharva-Veda) e prajñānam brahma (“Brahman é consciência” – Rig-Veda).

Isso não significa, contudo, que só existam quatro frases que revelam a identidade entre jīva e Īśvara. Cada Upaniṣad está repleta de passagens em que essa identidade é afirmada, como “satyam jñānam anatam brahma” (“Brahman é existência, consciência, livre de limitação”) na Taittiriya Upaniṣad e “yanmanasā na manute yenāhurmano matam tadeva brahma tvaṃ viddhi nedaṃ yadidamupāsate” (“Entenda que Brahman é aquilo que não é conhecido pela mente, mas aquilo pelo qual, eles dizem, a mente é conhecida. Isto, que é meditado pelas pessoas, não é (Brahman)”), na Kena Upaniṣad, apenas para citar dois exemplos.

Um Mahāvākhya é uma equação. Em uma equação, as duas partes igualadas possuem uma evidente desigualdade, sendo que a igualdade é algo a ser descoberto pela resolução da equação. A igualdade 5=5 não é uma equação, diferentemente de 9-4=5, em que a igualdade entre os termos desiguais (9 e 4 de um lado e 5, do outro) só pode ser compreendida pela correta aplicação da operação de subtração. Similarmente, na física temos a célebre fórmula de equivalência entre energia e massa, E=mc2. Energia evidentemente não é massa, e massa não é igual a energia. No entanto, numa relação específica com a velocidade da luz, há uma igualdade entre estes dois princípios. Essa igualdade não é evidente à primeira vista, mas torna-se evidente na resolução da equação.

Da mesma forma temos os Mahāvākhyas, tat tvam asi, por exemplo. O pronome tat, “aquilo”, significa, no contexto em que é proferido na Upaniṣad, aquilo que existia antes da criação, ou seja, a sua causa: Deus. Tvam significa “você” ou “tu”, o indivíduo, e asi é o verbo ser conjugado na segunda pessoa. Assim, a frase diz “Você é Deus”.

Entre esses dois termos, indivíduo e Deus, a desigualdade é evidente. Mais do que mera desigualdade, há até uma oposição entre eles. Deus é onisciente, onipotente e onipresente, e o indivíduo é ignorante, impotente e ocupa um ínfimo lugar no espaço infinito. Se tal igualdade fosse proferida por uma pessoa qualquer, imediatamente a descartaríamos como maluquice ou brincadeira. No entanto, quem diz isso são os Vedas, uma fonte reconhecida de conhecimento válido, o que nos obriga a analisar melhor todas as possibilidades de sentido da afirmação antes de a descartarmos como uma frase sem sentido.

Quando alguém em quem confiamos diz algo cujo sentido imediato seja absurdo, imediatamente procuramos um sentido secundário nas suas palavras. Pensamos, “O que está implicado nessa afirmação? O que ela quer dizer?” Por exemplo, quando alguém nos diz, “Tenho uma casa no rio”, o que essas palavras estão dizendo, no seu sentido imediato, é que a casa está no rio, dentro dele. Como isso é absurdo, imediatamente interpretamos a afirmação em um sentido implicado, como querendo dizer: “Tenho uma casa na beira do rio”.

Assim, devemos procurar no Mahāvākhya o sentido implicado das palavras que se referem a Deus e ao indivíduo, se isso for possível. Se há uma igualdade entre essas duas coisas, devemos procurar por algo que seja o mesmo em Deus e no indivíduo, abandonando aquilo que obviamente distingue os dois. Em outras palavras, devemos reter algo de fundamental indicado pelas palavras “Deus” e ”indivíduo” ao mesmo tempo em que abandonamos todos aqueles atributos que possam ser abandonados e que causem a distinção aparente entre os dois conceitos.

Essa operação, ao procurar por um sentido implicado de uma palavra, de reter algo de essencial no que é indicado por ela ao mesmo tempo em que se abandona os atributos extrínsecos que ela carrega é comum no uso cotidiano da linguagem. Quando apresentamos para uma pessoa alguém que ela conhece mas que não via há muito tempo, dizemos:

– “Olha só quem está aqui, o Fulano!”
– “Desculpe, mas eu não o conheço.”
– “Conhece sim, não lembra dele?”
– “Desculpe, mas acho que não…”
– “É, já faz muito tempo, ele está mesmo diferente.”
– “Quem é?”
– “O Fulano, que estudou com você na quinta série, no colégio tal, em 1995. Lembra?”
– “Ah, Fulano! Que surpresa! Há quanto tempo! Como vai?”

O Fulano que estava na frente da pessoa, qualificado por aquele tempo e espaço presentes, foi igualado ao Fulano de um tempo passado em um lugar remoto. Isso é uma equação, pois as duas partes igualadas são aparentemente desiguais. Para entender o Fulano em si a pessoa deve reter algo de essencial do Fulano ao mesmo tempo em que abandona o tempo e espaço como atributos extrínsecos, não-essenciais, daquele indivíduo. O tempo passado, 1995, junto com aquele lugar remoto, o colégio, são abandonados, assim como o tempo presente e o espaço atual, que agora aparentemente qualificam aquele indivíduo. Pois o Fulano é tão independente do tempo e lugar passados como é do tempo e lugar presentes. Se a pessoa encontrar o Fulano no futuro, em ainda outro tempo e espaço, ela continua o reconhecendo. Assim, abandonando os atributos extrínsecos de tempo e espaço do meu entendimento da pessoa eu compreendo a pessoa mesma, aquela que é a mesma tanto em 1995 naquele lugar quanto agora, neste lugar. Então eu posso falar: “Fulano, há quanto tempo!”

De modo análogo, o corpo e mente que aparentemente qualificam um indivíduo são atributos extrínsecos do “Eu”, ou seja, não são atributos que realmente pertencem a mim. Quando digo, “Eu sou”, tudo aquilo que pode completar a frase e que são atributos do corpo e da mente não são atributos essenciais meus. Posso ser gordo assim como posso ser magro, posso ser tranquilo assim como posso ser agitado, porque não sou fundamentalmente gordo nem magro, nem tranquilo ou agitado. A consciência que eu sou é livre dos atributos que imputo a ela por causa da minha identificação natural com corpo e mente.

A mesma consciência que eu sou, Deus é. Os atributos de onisciência, onipotência e onipresença atrelados à consciência são extrínsecos, apenas do ponto de vista da criação. Mas a criação – o conjunto de nomes e formas que chamamos de mundo – não é algo substancial que se soma à consciência. Do ponto de vista da consciência, apenas consciência existe. Quando afirmo, por exemplo, que “Livro é”, ou “Livro existe”, posso explicitar melhor o que estou dizendo afirmando, “Consciência de livro é, consciência de livro existe”. O livro que qualifica consciência não é, contudo, algo a mais, adicionado à consciência. Se tirarmos consciência, não sobra livro algum, ao passo que consciência existe por si mesma, sem o livro.

Estendendo o exemplo do livro para todas as coisas que podem ser conhecidas, temos que o mundo inteiro não é algo real ou substancial adicionado à consciência e, portanto, apenas consciência é, livre do mundo de nomes e formas aparentes. Se o mundo não é real, o status de ser causa do mundo, i.e. o status de ser Deus, também é um atributo aparente ou extrínseco da consciência. Portanto, podemos descartá-lo. O fato auto-evidente de que “Eu sou” é a única realidade possível de Deus.

Temos, portanto, que a equação “Você é Deus, Tat tvam asi” é válida, quando entendemos as palavras “Eu” e “Deus” no sentido implicado que elas carregam, abandonando os atributos extrínsecos que, em um primeiro momento, estão atrelados a essas palavras e parecem fazer do Mahāvākhya uma afirmação absurda.

Comments
  • Lorena Hoff
    Responder

    Agradecendo Luciano pela clareza de sempre!

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