Em geral, quando começamos a praticar yoga, achamos que esta prática se resume às posturas físicas, porque é só isso que nos ensinam. Apenas com alguma sorte somos introduzidos à prática de meditação, que é apresentada de muitas formas: alguns ensinam que meditação é ficar com a mente vazia, outros que é acalmar a mente, e outros ainda não ensinam nada, e apenas largam o aluno à sua própria sorte, sentado no seu tapetinho no escuro dos seus olhos fechados.

 É preciso que saibamos o que é definido como meditação pela tradição Védica para que, na nossa prática de yoga, estejamos tranquilos e certos de que estamos de fato praticando esta disciplina e não alguma outra coisa qualquer.

 A meditação é uma atividade estritamente mental. Esta descrição, apesar de verdadeira, não é contudo suficiente para definir a atividade meditativa, porque a distração, por exemplo, também é uma atividade estritamente mental.

 A meditação é uma atividade estritamente mental, cujo fluxo está direcionado a um só assunto ou objeto. Ainda que esta seja uma melhor definição, ela ainda não é apropriada, pois a preocupação com algo também é uma atividade puramente mental cujo fluxo se direciona a um só objeto, e não estamos dispostos a incluir a preocupação no rol de atividades meditativas.

 Vamos tentar de novo: a meditação é uma atividade estritamente mental, cujo fluxo está direcionado a um só assunto ou objeto, que é o Todo, Ishvara, contemplado sob algum aspecto.

 Agora temos uma boa definição. Qualquer atividade mental cujo fluxo se direcione a algo que represente um ser maior do que nós mesmos e que nos abarque é meditação.

O objeto no qual se pensa, e não apenas a concentração do pensamento, define se uma atividade é ou não meditativa. Se você repetir mentalmente, “Coca-Cola”, ainda que sua mente possa absorver-se neste pensamento – tanto mais em um dia de verão carioca –  isto não será tradicionalmente considerado como meditação, simplesmente porque o objeto Coca-Cola dificilmente pode lhe comunicar algo de elevado e profundo, que torne sua vida mais significativa.

Muitas vezes fala-se da respiração profunda ou da observação da respiração como meditação, mas isto não é exatamente correto. Respirar profundamente ou apenas observar a respiração são técnicas que ajudam a mente a se acalmar, para que então você possa se concentrar no verdadeiro objeto de meditação. No entanto, se, ao respirar naturalmente e sem esforço, você pensar no ar que entra nos seus pulmões como um aspecto da inteligência universal que sustenta todos os viventes incluindo você mesmo, aí então sua atividade pode ser chamada corretamente de meditação.

O objeto de meditação deve ser algo capaz de conter em si várias camadas de sentido que se revelem gradualmente ao meditador, começando de uma mais grosseira e limitada até uma mais sutil e abrangente. As deidades hindus são neste sentido bem representativas. A figura do Deus Shiva, por exemplo, retrata um asceta de pescoço azul segurando um tridente, com os olhos tranquilos, semicerrados, absorto em meditação, sentado em uma paisagem refrescante e fria, com o rio Ganges caindo sobre sua cabeça.

Mesmo o aspecto mais evidente e imediato desta figura já comunica à mente certas qualidades benéficas e úteis ao caminho espiritual. Mas, além destas informações mais imediatas e sensíveis, existem outras, inteligíveis, que podem se abrir ao meditador à medida em que ele avança na contemplação. Por exemplo, o pescoço azul remete ao céu, que é como se fosse o pescoço de Deus.  Sua cabeça é o espaço, além do céu azul, e seus milhares de olhos são as estrela.

 Nos mantras para Shiva, ele é chamado de “aquele que tem o cabelo verde”, simbolizando toda a vegetação sobre a terra. O tridente representa as três qualidades da natureza que governam o funcionamento de todas as coisas, vivas ou inertes. Os olhos semicerrados e em paz indicam o fato de que este criador, que é todas as coisas, está ao mesmo tempo desprendido de tudo, transcendendo tudo. Por fim, esta consciência que permeia e transcende tudo é reconhecida como a natureza do próprio meditador.

A meditação não é uma técnica oriental de acalmar pensamentos. Verdade seja dita, meditação não tem nada a ver com acalmar pensamentos (e muito menos eliminá-los, como tantas pessoas insistem em achar), ainda que uma mente tornada calma seja uma condição prévia indispensável para a atividade meditativa – e por isso existe o ashtanga-yoga, que indica asana e pranayama como passos iniciais.

A meditação é, isto sim, um relacionamento ativo com um objeto elevado, por meio do qual adquirimos certas qualidades positivas relacionadas àquele objeto, e por fim entendemos sua natureza última que é também a nossa própria natureza. Podemos meditar no Sol como um aspecto da inteligência universal que vivifica tudo porque possui toda a inteligência e luminosidade, e assim nos tornamos um pouco mais inteligentes e brilhantes. Com o intelecto afiado, entendemos que este “Sol” – aquilo que, brilhando, faz com que tudo o mais brilhe, apareça –  é de fato a consciência que eu mesmo sou.

O que se apresenta em todos os textos Védicos como meditação é algo relacionado ao conhecimento, em especial ao autoconhecimento. Não há realmente nenhuma base para que achemos que esta prática esteja desvinculada de um processo cognitivo, como quando pensamos na meditação como uma técnica de esvaziamento da mente.

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