A necessidade dos rituais

A conexão com algo maior que seja fonte de auxílio e proteção é uma necessidade fundamental de um ser-humano. Uma criança precisa da conexão com sua mãe para se sentir segura porque, por si mesma, ela é completamente impotente. E a sensação de impotência não desaparece com o término da primeira infância. O adulto continua fundamentalmente impotente, não tendo controle sobre as acontecimentos da sua vida e estando à mercê de forças que ele não conhece e não controla.

A sensação de impotência de uma pessoa não pode realmente ser resolvida com a ajuda de uma outra pessoa que partilha do mesmo desamparo que ela. Quem você poderia buscar para resolver a insegurança de não saber o que acontecerá amanhã? A quem você recorreria para remover a angústia de que você morrerá em breve? Buscar em uma outra pessoa a solução para o problema fundamental da vida é como estar se afogando e buscar auxílio com outro náufrago também desesperado para respirar.

Se alguma ajuda é possível, ela só pode vir de alguém que não esteja na mesma situação de desamparo que nós estamos. Este “alguém” é Deus, Ishvara, aquele que não está submetido às limitações de um indivíduo particular, e cuja graça buscamos para nos livrarmos das nossas próprias limitações. O meio para se conseguir a graça de Ishvara é a oração.

Qualquer oração dirigida a Deus, feita com fé e nascida do reconhecimento da impotência inerente à condição humana, produz resultados positivos, em qualquer língua que seja feita e baseada nos dogmas de qualquer religião. Mesmo sem ser adepta de nenhuma religião, uma pessoa pode invocar a presença de Deus e rezar, sem quaisquer formalidades. As religiões, contudo, desenvolveram certas maneiras formais de ação que visam obter a graça de Ishvara de maneira mais consistente, e a essas ações podemos dar o nome de rituais.

Uma das vantagens de se buscar a graça e auxílio de Deus por meio de rituais está no fato de que a ação formal, ritualística, na qual aquilo que falamos e fazemos está previamente estabelecido, nos dá uma maior liberdade de expressão, ainda que isto pareça paradoxal. Como não precisamos “pensar” no que fazer, podemos nos expressar com integridade, sem a dúvida e a hesitação que poderíamos ter ao fazer a oração do nosso “próprio modo”. Ademais, o fato de estarmos rezando dentro dos métodos de uma grande tradição religiosa aumenta a fé necessária para que a oração seja eficaz. Afinal, o que nos faria tão especiais a ponto de prescindirmos da necessidade da prática ritualística formal para obtermos o auxílio de Deus, que desde de sempre foi necessária para os nossos antepassados?

Como funciona um ritual?

A tradição Védica, além de apresentar inúmeros e elaborados rituais para os mais variados fins, ainda nos explica algumas coisas interessantes sobre o modo do seu funcionamento. De uma ação, sempre derivam dois resultados, um visível e outro invisível. O resultado visível é aquele produzido imediatamente depois da execução da ação. Se você cometer uma violência contra alguém, por exemplo, você pode se sentir culpado, e esta culpa é o resultado visível, imediato, da ação. O fato da outra pessoa ficar magoada com você também é um resultado visível e imediato.

Os Vedas dizem que existe ainda um outro resultado, invisível, na forma de mérito ou demérito para cada ação. No caso de uma ação inapropriada, como no caso da violência do exemplo acima, o resultado invisível será um demérito, papam, que ficará inicialmente não-manifesto até que se manifeste no futuro – próximo ou longínquo – como uma situação de sofrimento.

O que um ritual faz é produzir mérito, punyam, capaz de neutralizar os deméritos produzidos por ações passadas inadequadas que permanecem como um obstáculo para que você alcance aquilo que deseja por meio das ações que faz.

Portanto, um ritual é feito para produzir o resultado invisível na forma de punyam. Um ritual não é feito para produzir um resultado visível, imediato, como uma sensação de tranquilidade ou qualquer coisa do tipo, ainda que ele possa produzir isso também dependendo da atitude que você tenha ao executar um ritual. Uma meditação ou pranayama, ao contrário, são feitos basicamente para o resultado visível e imediato na forma de uma mente tranquila e focada, ainda que estas atividades também possam produzir algum mérito, punyam.

É importante conhecer esta distinção. Quando você faz um ritual, não interessa realmente a sensação subjetiva que você tira dele, porque o propósito é o punyam que será de fato produzido se você fizer o ritual seguindo todas as regras. No entanto, se tiver fé no ritual, você naturalmente também se sentirá muito bem ao fazê-lo.

O ritual faz parte de uma ação inteligente

O sucesso de qualquer empreendimento depende de quatro fatores. A quantidade de esforço empreendido deve ser adequado, o tempo deve ser suficiente, e a direção deve estar correta. Mas mesmo que estes três fatores estejam presentes, tudo pode sair errado. Existe um quarto fator, invisível e inexorável, e por isso chamado de divino, que se não estiver a seu favor impedirá o alcance do sucesso do empreendimento mesmo que você se esforce adequadamente.

Com relação a este quarto fator, não há realmente nada que possamos fazer além de rezar. A reza ou oração faz parte da vida de uma pessoa objetiva, que reconhece a sua impotência na produção de qualquer resultado e faz alguma coisa prática com relação a esta impotência, ao invés de simplesmente ficar ansiosa ou angustiada. É por isso que incluir algum tipo de oração na sua vida é uma coisa inteligente de se fazer, e não uma mera superstição.

 

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