Nirvana é uma palavra usada principalmente nos círculos budistas para indicar o estado de liberação atingido através da prática espiritual, mas esse termo não é exclusivo dos seguidores de Buda. A palavra tem no uso comum do sânscrito o significado de ‘extinção’, ‘término’, e pode ser usada, por exemplo, para se referir à morte de uma pessoa, à extinção da chama da vida naquele corpo.

Mas mesmo o uso desse termo no contexto da espiritualidade para indicar a meta do caminho espiritual não tem origem no budismo, pois vemos Krishna fazendo uso da palavra quando, no último verso do segundo capítulo da Bhagavad-Gita, ele diz para Arjuna, referindo-se à pessoa que alcança a liberação do sofrimento: ‘brahma-nirvanam rcchati, ele alcança a liberação/extinção que é brahman’.

Contudo, ainda que o termo seja usado pelas duas escolas, o seu sentido não é exatamente o mesmo. Enquanto Vedanta ensina que o nirvana só pode ser alcançado através do conhecimento, para o qual um meio de conhecimento se faz necessário, o Budismo (ou pelo menos algumas escolas budistas) professa que ele é alcançado pela meditação. Vamos analisar as duas alegações.

Se entendermos o nirvana como a liberação total e completa do sofrimento – exatamente o que ambas as escolas reivindicam que o nirvana é – só podemos pensar esse conceito com um estado eterno, pois a cessação relativa e temporária do sofrimento é em si mesma sofrimento. Isto é: se uma pessoa se vê livre do sofrimento temporariamente, por algum motivo passageiro, sabendo da condição passageira da experiência e antevendo o seu término ela sofre por antecipação, mesmo durante a experiência supostamente agradável que está tendo. Vemos isso acontecer em toda parte, desde casais apaixonados se beijando no aeroporto com os olhos cheios de lágrimas até criancinhas gulosas comendo sorvete antevendo o fim da guloseima a cada lambida.

Assim, se o nirvana é necessariamente um estado eterno, ele não pode ser produzido por nenhuma ação, porque todo resultado de ação é passageiro. E – precisamos sempre lembrar o praticante espiritual – a meditação é uma ação, uma ação mental que visa um resultado mental específico. Portanto, o nirvana não pode ser um estado atingido na meditação, depois de o sujeito passar anos sentado embaixo de uma árvore em árdua disciplina. Se o Buda embaixo da árvore atingiu um novo estado e tornou-se alguém diferente do que era antes então ele não é Buda nenhum.

O que Vedanta diz é que o nirvana é o conhecimento acerca da natureza do indivíduo, que não é alcançado na meditação mas no estudo das escrituras que são o meio de conhecimento para a natureza do ‘eu’, do atma. O problema do sofrimento é um problema de ignorância, de falta de conhecimento e confusão sobre o que significa realmente a palavra ‘eu’. Se uma pessoa, que não conhece sobre um assunto, sentar-se embaixo de uma árvore de olhos fechados ela continuará ignorando aquele assunto de olhos fechados, mesmo que fique sentada por séculos!

Isso é tão óbvio! Nós já sabemos disso, porque ninguém se comporta assim cotidianamente. Por exemplo: você não sabe o que é karipatta. Se eu dissesse que ter uma karipatta em casa traz felicidade e você acreditasse em mim, e quisesse saber onde arranjar uma, o que você faria? Você sentaria no canto da sala, fecharia os olhos e perguntaria para o seu coração, ‘O que é karipatta? O que é karipatta? Onde eu arranjo uma?’ Você não faria isso! O que todos nós faríamos é ir até o Google perguntar a ele. O Google é um meio de conhecimento, mas meditação não!

Por que diabos então achamos que quando o assunto é o ‘eu’, o atma, a meditação repentinamente torna-se um meio de conhecimento? Isso não faz nenhum sentido. Se você pudesse se conhecer sozinho, por você mesmo, você já teria feito isso. Afinal, você, o objeto a ser conhecido, está presente, sempre presente – mais presente do que qualquer outra coisa neste mundo. E você, o conhecedor, também está presente. O que não está presente é um meio de conhecimento adequado a ser usado quando sujeito e objeto são uma e a mesma coisa.

A percepção sensível e a inferência podem ser usados quando o objeto a ser conhecido é diferente do sujeito, mas quando se trata do próprio sujeito, daquele que conhece tudo o mais, ele mesmo não tem nenhum instrumento em mãos para se conhecer, e nem poderia ter. Porque aquele que tem um instrumento de conhecimento em mãos para conhecer alguma coisa já está sempre subentendido como o conhecedor, para que então todas as outras coisas sejam ou possam ser conhecidas. E esse conhecedor subentendido nunca pode ser colocado em questão pelos próprios meios que estão nas mãos dele e dependem inteiramente dele e do seu status de conhecedor. É necessário um meio de conhecimento externo ao sujeito conhecedor, na forma de palavras, não operado pelo sujeito, que possa realizar a peculiar tarefa de negar para o sujeito que ouve essas palavras a sua aparente condição (causada pela identificação com o corpo e órgãos de conhecimento) de ser um conhecedor distinto do objeto, revelando a ele a consciência auto-evidente livre da suposta divisão sujeito-objeto.

No ato desse conhecimento nada sobra. Não há um sujeito conhecedor que sobre para dizer ‘Eu conheço’, e tampouco sobra um objeto conhecido. Por isso esse conhecimento pode ser chamado de nirvana, extinção.

Assim, alcançar o nirvana significa alcançar o autoconhecimento, que só pode ser obtido pelo uso do meio de conhecimento adequado. O conhecimento alcançado através de Vedanta não produz um novo estado nem melhora você ou a sua mente, apenas elimina a ignorância que projeta a dualidade e, portanto, o sofrimento. O nirvana é um estado eterno porque a noção de ser um indivíduo sofredor é e sempre foi falsa.

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