O aniversário de Shri Krishna 2017

Para a muitos de nós ocidentais que descobriram, mais cedo ou mais tarde na vida, um enorme valor espiritual nas escrituras de Vedānta, o elemento cultural e religioso que permeia essas escrituras permanece muitas vezes como um obstáculo, um corpo estranho que nosso organismo mental não consegue assimilar.

Vedānta, que não deve em nada em sobriedade intelectual a nenhum sistema filosófico ocidental, pode de fato ser ensinado e entendido sem nenhuma referência às histórias tradicionais sobre a vida dos deuses hindus, avatāras ou não, cujo caráter mitológico e fantástico (e de origem tão culturalmente diversa) põe em alerta nosso senso crítico e pode, tantas vezes, bloquear o intelecto para o estudo de Vedānta.

– “Preciso acreditar que Kṛṣṇa realmente existiu como encarnação divina? Que o Ganges desceu de Svargaloka (céu)? Que Shiva mora no monte Kailāsa? Que Lakṣmi veio à tona como resultado da batedura do oceano primordial pelos devas e asūras?”

A resposta para todas essas e demais semelhantes perguntas é: não.

Entretanto, os símbolos e nomes presentes nas histórias da tradição védica podem enriquecer bastante o estudo de Vedānta, caso nos interessemos em examiná-los. Afinal, sendo verdadeira a premissa de que o conhecimento de Vedānta (que trata do absoluto) é o oceano para o qual finalmente se encaminham os rios, riachos e córregos de todos os Vedas, as histórias da tradição védica devem também conter, então, analogias, mais ou menos bem sucedidas, do conhecimento do absoluto.

E assim é com a história de Kṛṣṇa. Assim é com o mero nome de Kṛṣṇa: “karṣati iti kṛṣṇaḥKṛṣṇa é aquele que atrai”.

A beleza física de Kṛṣṇa, sua doçura e compaixão; o encanto da sua personalidade, sua sagacidade arteira misturada com sua sabedoria insondável; o som da sua flauta… Essas e muitas outras características que encontramos descritas nas suas histórias (contadas pelas Purāṇas e pelo Mahābhārata) nos encantam e, irremediavelmente, nos atraem para ele.

Aqui não interessa mais saber se Kṛṣṇa realmente existiu ou não. Essa é agora uma falsa questão. Pois é evidente que não só ele existiu como existe, agora, na forma da viçosa presença do eu que se torna atraído pelas histórias de Kṛṣṇa. Afinal, se você de fato torna-se atraído, torna-se encantado, a presença de uma força de atração e encantamento é algo de que não se pode duvidar.

A única pergunta que se pode fazer é: “Onde este Kṛṣṇa, que me atrai, está?” E a resposta é: aí mesmo onde você está, tão evidente quanto a sua própria presença. Pois tudo aquilo que nos atrai e nos encanta, só nos atrai e encanta na medida em que descobrimos, através desse objeto, um eu encantado, um eu satisfeito, um eu feliz.

Há uma famosa sentença de uma Upaniṣad: “ātmanastu kāmāya sarvaṃ priyaṃ bhavatiTudo que é querido se torna querido pelo bem do ātmā, do eu.” Isto é, nada é querido por si mesmo, nenhum objeto é atrativo em virtude do próprio objeto. Apenas quando esse objeto nos desperta alguma felicidade é que ele se torna querido. O que amamos, o que queremos, o que nos atrai, portanto, é nossa própria natureza livre de limitação, tão evidente para nós nos momentos de felicidade. Quem pode duvidar, assim, da existência de Kṛṣṇa, e de que ele é o que há para ser buscado e conhecido na vida?

Que esse Kṛṣṇa tão evidente e íntimo nos abençoe e revele para cada um de nós toda a grandiosidade da sua natureza.

Hare Kṛṣṇa!

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