O Autodidatismo no Yoga

Por diversas razões que não nos interessa aqui listar, existe no ocidente (e mesmo a Índia é, hoje em dia, nesse sentido, “ocidente”) uma valorização do individualismo em vários aspectos da vida. Há, por exemplo, no mundo do trabalho, a figura do “self-made man” – o homem que construiu sozinho sua fortuna sem a ajuda de ninguém – como o exemplo máximo de empreendedorismo, competência e sucesso. Nas ciências existe o ideal do conhecimento como aquilo que pode ser experimentalmente testado e comprovado por cada um individualmente, o que supostamente eliminaria a crença ou a sujeição a uma autoridade externa do campo do saber. E, no que diz respeito à vida pessoal de cada um, a realização se mede basicamente na habilidade que cada indivíduo tem de realizar maximamente seus gostos e aversões particulares.

Ainda que haja benefícios civilizacionais inegáveis nessa adesão ao que estou chamando aqui de individualismo, há também certas perdas inevitáveis nesse modo de ser. Quando o assunto é yoga e autoconhecimento, esse mesmo individualismo torna-se geralmente um obstáculo. Vejamos o porquê disso.

O primeiro ensinamento da escritura que embasa o yoga, o Yogasutra, diz: “atha yoga-anushasanam, agora, o ensinamento de yoga”. Em uma interpretação individualista – do sujeito autodidata que está sentando na sua biblioteca com o livro do Yogasutra em mãos, ávido por obter o conhecimento de yoga – esse primeiro sutra parece um tanto desnecessário, pois qualquer um sabe que o assunto do Yogasutra é o ensinamento de yoga. Geralmente apenas lemos esse sutra e, sem mais, passamos ao segundo onde yoga é definido.

Isso é muito triste. Um sutra não pode ser desnecessário, pela própria definição de sutra. O que torna esse primeiro sutra aparentemente desnecessário é a maneira como o indivíduo está abordando o assunto, i.e., de forma individualista, por si mesmo, sem a ajuda de um professor. Como se o livro Yogasutra fosse por si mesmo alguma garantia de ensinamento de yoga, como um livro de receitas.

Em matérias objetivas como engenharia, química ou física, e até mesmo nas matérias ditas ‘humanas’ como filosofia ou sociologia, existe certa independência no modo de se estudar o assunto. Ainda que essas matérias sejam de fato mais facilmente entendidas com a ajuda de um professor qualificado, é possível imaginarmos nesses assuntos um autodidata, porque se trata de algo objetivo, que independe inteiramente das fantasias, medos, desejos e expectativas do sujeito que conhece. Por exemplo, um triângulo é um triângulo: a soma dos seus ângulos internos é cento e oitenta graus. Um livro pode ensinar ao sujeito as demonstrações geométricas que provam esse fato, e o sujeito as entenderá muito bem.

Mas agora imagine que o sujeito queira estudar a si mesmo. Não existe o mesmo nível de objetividade, pois o assunto não é independente da subjetividade do sujeito, das suas fantasias, medos, desejos e expectativas. O sujeito tem que entender suas fantasias, medos, desejos e expectativas, mas como ele fará isso se, por exemplo, um dos seus medos mais básicos é o medo de se expor? E, se ele não se expõe, aquelas fantasias, desejos, medos e expectativas não podem se manifestar e, não se manifestando, não há nada para ser estudado, para ser entendido.

O sujeito, para estudar a si mesmo, precisa de um professor não meramente como alguém que o informa de algo objetivo, que já está dado de antemão, o que afinal poderia ser feito por um livro de receitas. O professor de autoconhecimento tem a função de fazer manifestar aquilo mesmo que é o objeto de estudo. Por exemplo, se o aluno precisa, aos olhos do professor, entender e ultrapassar uma dificuldade de dizer não, ele deve colocar o aluno em situações nas quais ele precise dizer não, para que a dificuldade então apareça, manifeste-se. Só aí o aluno poderá entendê-la melhor e, com a ajuda do professor, ser cada vez mais capaz de lidar objetivamente com ela.

Nesse sentido, o primeiro sutra é extremamente significativo. Anu-shasanam não significa simplesmente ensinamento, mas um ensinamento que é ‘anu’, que vem sendo passado de professor a aluno de forma contínua. Poderíamos traduzir como ‘ensinamento tradicional’. E ensinamento tradicional não diz só o conteúdo do ensinamento, mas o modo como esse conteúdo é passado, i.e. de professor para aluno, em uma relação viva. É na relação com o professor que o aluno terá a oportunidade de ver suas reações e de lidar com elas, sendo ajudado ativamente nesse processo pelo professor.

A relação entre professor e aluno é muito bonita. Nas outras relações que estabelecemos existem sempre outros interesses que estão em jogo e que sustentam aquelas relacionamentos, que nos impedem de sermos completamente sinceros ou “abertos”. Em um relacionamento empregado-patrão, por exemplo, não é adequado que o empregado exponha completamente suas fragilidades ao patrão, porque existe um certo jogo de expectativas e fantasias a serem mantidas para o funcionamento daquela relação e, sobretudo, porque o patrão não é o seu terapeuta. O mesmo se dá em diferentes medidas na relação marido-mulher, cidadão-governo, pai-filho, e mesmo nas relações de amizade. Mas o que sustenta uma relação professor-aluno em yoga é única e exclusivamente o interesse pelo crescimento, pela maturidade, por yoga. Isso faz com que a relação possa e deva ser completamente aberta, havendo espaço inclusive para demonstrações de coisas que em outros relacionamentos poderiam ser consideradas inadequadas. Quando há esse tipo de relacionamento, o aluno pode ter pela primeira vez uma visão de si que não está sendo reprimida por nenhuma exigência de como ele deve ser, e aí então várias fichas podem cair, e ele pode entender melhor a si mesmo.

Agora vocês mesmos podem dizer: existe possibilidade de isso ser feito pela pessoa sozinha, sem ajuda de um professor? Pode haver autodidatismo em yoga?

O primeiro sutra do Yogasutra é um ensinamento muito belo contra o autodidatismo em yoga. Ele diz: “Atha, agora que uma pessoa descobriu em si o desejo pelo autoconhecimento e pela maturidade e, tendo encontrado um professor que passou (e esteja passando) ele mesmo pelo processo de maturidade e que queira unicamente ajudá-la a descobrir essa maturidade, yoga-anushasanam, o ensinamento de yoga é passado de forma adequada, tradicional.

Comments
  • Gerson R
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    Gostei do texto, realmente o conhecimento sem o professor não faz nenhum sentido, e a relação aberta com o professor faz com que haja essa interação com o estudo e consigo mesmo.

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