O Cálculo da Felicidade

Pergunte para qualquer pessoa com o mínimo de bom senso e experiência de vida e ela lhe confirmará o que você mesmo teme no fundo do seu coração: a felicidade plena não existe.

Pleno significa algo completo em si mesmo, desprovido de qualquer carência e impossível de ser aumentado. Ora, esse atributo não se aplica à experiência de felicidade de nenhuma pessoa. Qualquer experiência de felicidade pode ser aumentada ou diminuída, na medida em que os fatores dos quais essa felicidade depende variem.

Antigamente as pessoas achavam que eram felizes vendo televisão em péssima resolução, e ainda diziam que a imagem estava ótima (depois de meia hora arrumando a antena). Se elas pudessem ver, viajando no tempo, a qualidade de uma imagem ultra-hd em uma dessas tevês modernas, elas voltariam da viagem tristes: “Essa imagem é na verdade horrível!”

Não há limite para o aperfeiçoamento das condições de conforto, prazer e segurança que supostamente nos fazem felizes, assim como não limites para a decadência desses fatores (a não ser que consideramos a morte como a decadência máxima, o que não está de acordo com as escrituras). Portanto, como chegar à plenitude da felicidade?

Ademais, não há como alguém mensurar a felicidade, numa escala de 1 a 10. Essa impossibilidade se deve essencialmente ao fato de a felicidade ser uma experiência subjetiva, o que significa que ela não tem extensão e, portanto, não pode ser realmente medida. Notem: podemos medir as correspondências físicas que em geral estão associadas à experiência subjetiva: podemos medir os níveis de certos hormônios e neurotransmissores, por exemplo, mas eles não são a própria experiência da felicidade, apenas sua contra-parte física.

É verdade que dizemos corriqueiramente que estamos mais ou menos felizes, em comparação com algum outro momento das nossas vidas. Isso, contudo, está longe de ser uma medição precisa. Na verdade, não é medição alguma.

Medir algo exige sempre um padrão fixo contra o qual se mede. Por exemplo: o padrão para medir a febre é a temperatura de 36,5 graus na escala celcius. Passando disso, o sujeito está febril. Agora, qual o padrão para medir a felicidade?

O padrão da felicidade é o sem limite. Ser feliz significa simplesmente ser livre, livre de tudo, inclusive de comparação. Uma pessoa é feliz quando, por algum momento, esquece de si mesma, esquece dos outros, dos seus problemas, etc. Podemos ir além e dizer que uma pessoa é tão mais feliz quanto maior for o seu grau de esquecimento de si, da sua personalidade, o que nos confirma a experiência de sono profundo: uma experiência extremamente prazerosa onde o esquecimento é total.

Sendo assim, como alguém mediria sua felicidade, se o medidor influencia diretamente na medição? Na verdade, tanto maior a presença do medidor, menor será a constatação da felicidade medida. Pois não é contraditório alguém constatar: “Estou maximamente feliz?” Porque tomar consciência da experiência de felicidade em sua totalidade exige que se tome consciência, dentre outras coisas, da fugacidade que pertence a essa experiência, o que imediatamente traria algum grau de tristeza no medidor, contradizendo imediatamente a medição feita.

É por isso que nem gostamos de pensar muito nessas coisas. Sempre acabamos concluindo que não somos felizes. Mas não se preocupem, isso não é exatamente verdade.

Há, interessantemente, em uma das principais Upanishads, uma passagem que faz um cálculo de felicidade. É muito curioso a maneira como o cálculo foi concebido. Primeiro, é preciso estabelecer objetivamente o que é uma unidade de felicidade, para que essas unidades possam ser contadas e comparadas e, por meio disso, a medição possa ser feita.

Pois bem, diz a Upanishad: imagine um jovem (yuva). Não qualquer jovem, mas um rapaz de boa índole (sadhu-yuva), culto (adhyayakah), dinâmico, empreendedor (ashishtah), resoluto (dridhishthah) e muito forte (balishthah). Suponha que a terra, com toda a sua riqueza, seja inteirinha dele. Isso é uma unidade de felicidade.

A felicidade de fato está associada à juventude, ao corpo belo e saudável com todas as possibilidades da vida ainda em aberto. Contudo, ser jovem implica geralmente uma inquietude, um descontentamento básico que impede que um jovem possa, por exemplo, apreciar algo simples e ficar feliz consigo mesmo, sozinho. Por isso a Upanishad diz que o jovem descrito é um sAdhu, que significa alguém de boa índole e relativamente tranquilo consigo mesmo.

Ser jovem também significa ser impulsivo e cabeça-dura, ignorante de muitos fatos da vida, o que gera muito sofrimento. Não é o caso do nosso rapaz aqui: ele é culto, sábio, sabe muito bem como as coisas funcionam, das causas e consequências de tudo. Não faz, portanto, as besteiras normalmente associadas à juventude, como engravidar a namorada, pegar, bêbado, o carro do pai e bater no muro, etc. Ademais, sendo culto, pode usufruir dos prazeres que apenas as pessoas com mais experiência e conhecimento poderiam.

Mas ele não é só um bom rapaz, muito inteligente e perspicaz, mas que fica em casa sem fazer nada. Ele é dinâmico, empreendedor. Quando somos jovens temos medo de muitas coisas tolas, evitamos fazer coisas que poderíamos muito bem ter feito com sucesso. O rapaz aqui não é desses: ele vai buscar aquilo que quer e faz o que acredita. O problema com esse tipo de personalidade é que, quando somos assim, muito saidinhos, podemos nos meter em muitos problemas com os outros. O garoto aqui, contudo, é muito forte, balishthah. Ele pode se dar ao luxo de se meter em confusão porque, enfim, se garante. Por fim, de que adiantaria tudo isso, se o sujeito fosse um pé rapado? Imagine que toda a terra, com toda a sua riqueza, é dele.

Isso – a experiência desse rapaz – é 1 unidade de felicidade, diz o texto. Multiplique essa felicidade por cem e você tem a felicidade de um manushyagandharva, uma espécie de anjo, ou deva, na terminologia Védica. Assim como existem vários graus de anjos, existem vários graus de devas. Multiplique a felicidade de um manushyagandharva por cem e você tem a felicidade de um devagandharva, e, assim por diante, a Upanishad continua, multiplicando por cem e listando vários devas até Brahma, o criador.

A descrição é sem dúvida interessante, curiosa, mas, a princípio, não há nada demais. O que tiramos disso? Nada. De fato, essa descrição não estaria na Upanishad não fosse um pequeno detalhe que eu não mencionei. Em todas as passagens da fantástica experiência de felicidade de um deva para outro deva a Upanishad diz três palavrinhas: ca shrotasya akamahatasya, significando: “e também do sábio que não é destruído pelo desejo”. Ou seja: cem unidades de felicidade do rapaz descrito no início corresponde à uma unidade de felicidade do manushyagandharva, e também do sábio que não é destruído pelo desejo. E essa observação se repete com todos os devas até Brahma.

O que isso quer dizer? O sábio é akamahata, aquele que não é destruído pelo desejo, o que significa aquele para quem a satisfação ou não satisfação de desejos, a conquista ou não conquista de coisas, o sucesso ou o fracasso em empreendimentos, etc., não são o padrão desde o qual ele calcula ou mede ao tamanho da sua felicidade. Ele não mede ou compara a si mesmo, pelo simples fato de que não há nada com o que comparar. Como medir a grandeza do eu, da consciência que é a própria existência que sustenta tudo? Não existe referência. Portanto, não existe cálculo. Não sendo o calculista, o sábio sequer está lá para obstruir a felicidade que, verdadeiramente, é apenas um sinônimo de existência e consciência.

Showing 2 comments
  • Ana Camila P
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    Gratidão pelo lindo texto!!!

    OM

  • mara
    Responder

    já desconfiava disto… por isso a busca pelo conhecimento….

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