O Conhecimento na Gita

Yoga é capaz de dar a uma pessoa uma mente relativamente tranquila. Confiando em Deus, ela não só está tranquila aqui neste mundo, fazendo suas ações, mas também está tranquila de que existe algo depois da morte do corpo, e que ela seguirá o caminho que tiver que seguir. Mas essa tranquilidade é apenas relativa. Ainda resta uma insatisfação básica, relacionada à limitação de ser um indivíduo.

Um indivíduo, jiva, pode ser definido basicamente como aquele que está tentando se tornar melhor do que é. Se você tem um bom emprego, com plano de carreira, você estará se esforçando para “subir na carreira”. Ou, se não for muito ambicioso, ainda sim estará tentando manter seu cargo, o que às vezes pode ser igualmente difícil. Se você é casado, provavelmente está tentando implementar seu casamento, talvez planejando uma segunda lua-de-mel, como a colega de trabalho sugeriu. Ou quem sabe esteja pensando em como seria bom voltar a ser solteiro, assim como o solteiro estará em algum momento enjoado da sua vida sozinho, querendo alguém para compartilhá-la. O ponto é que não há uma satisfação definitiva em qualquer aspecto da vida de um indivíduo. Há, isto sim, ilhas de satisfações temporárias, parciais, rodeadas de insatisfação por todos os lados.

Não há meio de alcançar uma plenitude na vida conservando ao mesmo tempo a individualidade. Dizendo de outro modo, o indivíduo não pode alcançar um estado de plenitude, porque tudo o que é alcançável por um individuo através dos seus meios de ação limitados é limitado. Isso é algo que deve ser entendido por uma pessoa, analisando as suas experiências de vida e as experiências das outras pessoas. Todos estamos nesse mesmo buraco.

No entanto, não podemos simplesmente abandonar a expectativa da plenitude, porque ela é experimentada em vários momentos em que a individualidade se dissolve. Quando você está com bons amigos, dando risada, sem quaisquer expectativas, o que há ali é plenitude, ausência de carências. Um homem só ri se conseguir suspender por aquele ínfimo momento todas as noções de limitação que carrega consigo: as contas a pagar, as culpas do passado, as mágoas dos relacionamentos, as decepções amorosas, e assim por diante. No momento da risada ele não quer ser diferente do que é. Pela nossa definição de indivíduo, ele deixou de ser um.

Essa experiência de ser livre de querer ser diferente, de ser livre da individualidade, também ocorre nos momentos de dissolução completa da mente, como no sono profundo. E é apenas por isso que o sono é um estado altamente desejado e buscado por todos os seres.

O que um individuo busca, portanto, realmente falando, não é um aprimoramento na individualidade, mas a sua dissolução em uma experiência de plenitude. E yoga, enquanto uma atitude na ação a ser cultivada, ensinada para Arjuna por Kṛṣṇa em tantos versos na Bhagavad-Gītā, pode apenas aprimorar a individualidade, torná-la menos iludida e mais em consonância com a realidade relativa do mundo. Mas o yogī, fazendo o seu dharma e recebendo os frutos da sua ação com equanimidade, ainda considera a si mesmo um indivíduo, limitado por todas as limitações de uma individualidade.

Yoga prepara a mente do indivíduo, mas só o conhecimento o liberta. O conhecimento ensinado na Gītā por Kṛṣṇa revela ao indivíduo que sua individualidade é apenas aparente. O eu que sustenta todas as noções de individualidade não carrega consigo nenhum dos atributos sobrepostos nele por ignorância. Por exemplo, o individuo pode se sentir mal por ser gordo, mas a gordura do corpo físico não é um atributo do “eu”, que é testemunha do corpo. O mesmo corpo pode perder o peso excessivo sem que a testemunha do corpo sofra qualquer modificação. Inclusive, é por não sofrer nenhuma modificação que a pessoa pode reconhecer que ela agora é magra, sendo a testemunha imutável da passagem do corpo gordo para o magro. A mesma coisa vale para os atributos mentais: eles são passageiros e não pertencem ao eu imutável.

Todas as noções de limitação e, portanto, todo o sofrimento, é causado por essa sobreposição errônea no “eu” de atributos que pertencem a objetos como corpo e mente. O autoconhecimento é o conhecimento de que o “eu” – a testemunha do corpo e da mente – não possui os atributos e as limitações desses objetos. O “eu” é reconhecido como a consciência livre da dualidade sujeito-objeto: justamente aquela realidade plena, livre de carências, experimentada pelo indivíduo nos momentos de satisfação.

O indivíduo, reconhecendo o significado real da palavra “eu”, dissolve cognitivamente sua individualidade, e, tendo este refúgio cognitivo, a sua vida deixa de ter a necessidade, antes urgente e imperiosa, de atender à expectativa de resolução temporária da individualidade por meio da satisfação de todos os gostos e aversões que porventura se manifestem na sua mente. Em outras palavras, a vida não precisa mais satisfazer os gostos e aversões do indivíduo para que ele se encontre feliz consigo mesmo. Em ainda outras palavras, a pessoa é livre para viver qualquer coisa sem que a sua felicidade esteja realmente em jogo.

Foi só por meio desse conhecimento, revelado por Kṛṣṇa, que Arjuna pode dizer, na conclusão da Gītā:

naṣṭo mohaḥ smṛtilabdhā tvatprasādānmayācyuta ।

sthito’smi gatasandehaḥ kariṣye vacanam tava ॥ 18-73 ॥

A confusão se foi. Pela sua benção, Ó Acyuta, recuperei a memória. Estou livre de dúvidas. Farei como você diz.

Comments
  • Heitor P
    Responder

    “Memória” do eu imutável que sempre esteve lá!

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