O Contexto da Gita

A Bhagavad-Gītā é a canção do Senhor Kṛṣṇa: mais de setecentos versos de ensinamento sobre a realidade que fluíram da boca da encarnação de Viṣṇu para abençoar os ouvidos do seu discípulo, Arjuna, o grande guerreiro da terra de Bhārata, Índia.

A Gītā é, por si só, uma escritura bastante extensa, com suas centenas de versos, mas ela é só um pequeno trecho de um poema épico muito maior, chamado Mahābhārata, que conta a história dos príncipes Pāṇḍavas e Kauravas, e da guerra entre eles. Dentro do Mahābhārata há diversas outras passagens de ensinamento de Vedānta, mas a Bhagavad-Gītā é a mais importante e a mais famosa delas.

Os Pāṇḍavas eram os herdeiros de Pāṇdu: Yudhiṣṭhira, Arjuna, Bhīma, Nakula e Sahadeva. Os Kauravas ­eram os filhos do rei Dhṛtarāṣṭra, irmão mais velho de Pāṇdu que, por ser cego, não podia reinar, deixando assim o direito do trono para Pāṇdu. Dentre os filhos de Dhṛtarāṣṭra destacavam-se Duryodhana e Duḥśāsana. Pāṇḍavas e Kauravas eram, portanto, primos.

Pāṇdu morreu muito jovem, e os Pāṇḍavas foram criados por Dhṛtarāshtra junto com os primos. Como Yudhiṣṭhira era o filho mais velho de Pāṇdu, ele foi nomeado como o sucessor ao trono pelo próprio Dhṛtarāshtra, ainda que o rei cego desejasse ter nomeado Duryodhana. A cobiça pelo trono, acrescida da inveja que Duryodhana nutria pela nobreza natural dos cinco primos, fez com que ele tentasse matá-los em uma emboscada que não deu certo.

Por fim, determinado a livrar-se de alguma maneira dos primos, Duryodhana desafiou os Pāṇḍavas para um jogo de dados viciados, no qual Yudhiṣṭhira, que jogou os dados, perdeu literalmente tudo: as posses, o reino, a liberdade. Os Pāṇḍavas, segundo o combinado, teriam que se retirar para um exílio na floresta por doze anos, e depois viver incógnitos na cidade por mais um. Apenas depois disso poderiam ter o reino de volta. Os Pāṇḍavas cumpriram o trato e, passado os treze anos, voltaram para reclamar o trono que de direito lhes pertencia, mas Duryodhana negou-se a dar aos primos qualquer extensão de terra. Se eles quisessem algo, bradou Duryodhana, teriam que ganhar na guerra. E guerra foi o que Duryodhana teve.

A Gītā começa com o rei cego perguntando ao seu ministro, Sañjaya, o que ela via no campo de batalha (Sañjaya havia sido agraciado com o poder de ver a guerra à distância). Dhṛtarāṣṭra diz:

dharmakśetre kurukśetre samavetā yuyutsavah ।

māmakāḥ pāṇḍavāścaiva kimakurvata sañjaya ॥ 1-1 ॥

Sañjaya, o que fizeram os filhos de Pāṇdu e os meus, reunidos e desejosos de lutar em Kurukshetra, o campo do dharma?

A cegueira de Dhṛtarāṣṭra, antes de ser meramente física, era um símbolo da sua cegueira mental, emocional. Ele sabia que Duryodhana havia usurpado o reino, sabia que o trono pertencia aos Pāṇḍavas, mas o apego ao filho não o deixou agir. Ele foi omisso, poderia ter impedido aquela guerra mandando Duryodhana devolver o que pertencia aos primos. A pergunta a Sañjaya revela a o ponto da sua cegueira mental: “O que fizeram os Pāṇḍavas e os meus?” Ora, os Pāṇḍavas foram criados por Dhṛtarāṣṭra junto com Duryodhana e os outros; eles eram como seus filhos também! Como ele podia fazer essa divisão entre os meus, māmakāḥ, e os Pāṇḍavas, pāṇḍavāḥ? Essa divisão foi a semente da guerra. O conflito, antes de se tornar externo, existe internamente, no conceito “meu” e “não meu”.

A pergunta de Dhrtarashtra, além disso, revela seu medo, seu desejo de que a guerra não ocorresse, de alguma maneira antevendo, pela própria noção natural que a mente humana tem de uma justiça final, a desgraça dos “seus”: “O que eles fizeram reunidos desejosos de lutar no campo de batalha, Sañjaya?” Ora, o que dois exércitos desejosos de lutar fazem no campo de batalha? Jogam amarelinha? Dhrtarashtra pergunta isso na expectativa de que Sañjaya lhe dissesse que os Pāṇḍavas haviam desistido da guerra. Ele sabia que Arjuna e seus irmãos eram corretos e bons, sem qualquer cobiça por poder ou riquezas, e nutria a expectativa que eles desistissem da batalha em cima da hora. Contudo, não foi isso que aconteceu…

No campo de batalha, Arjuna tinha sua carruagem de guerra dirigida por Kṛṣṇa. Arjuna pede a ele que posicione a carruagem mais perto, entre os dois exércitos, para que ele pudesse ver de perto as pessoas com quem lutaria. Kṛṣṇa obedece, levando Arjuna até as imediações da fileira inimiga.

Então, Arjuna, bem como esperava Dhrtarashtra, é tomado de súbita compaixão ao se dar conta que iria matar aquelas pessoas queridas: seus primos, seus professores, parentes e amigos. Pessoas que eram, afinal, os “seus”. Ele larga o arco e senta-se na carruagem, onde pouco antes estava de pé, com o peito estufado, animado para a guerra. Ele diz para Kṛṣṇa: “Não posso lutar”.

Arjuna se dá conta, naquele momento, talvez pela primeira vez na sua vida, que não havia o que ele pudesse fazer. Nada, nenhuma ação seria capaz de dissipar sua tristeza. Se ele ganhasse a guerra, o reinado não faria qualquer sentido sem aquelas pessoas que ele teria que matar. E, se perdesse, seria o fim de tudo. Ele se vê completamente impotente. Mas então ele olhou para Kṛṣṇa, que tinha um quase sorriso nos lábios. Ele sempre soube que Kṛṣṇa era alguém especial, alguém que sabia algo que ninguém mais parecia saber. Vendo uma esperança de resolver o seu problema, ele diz:

Yat śreyaḥ syāt tad niścitam me brūhi

aham te śiṣyaḥ śādhi mām tvām prapannam ॥ 2-7 ॥

Diga-me definitivamente o que é o bem supremo, eu sou o seu discípulo, ensine-me, eu estou entregue a você.

Arjuna foi especial entre os Pāṇḍavas porque foi capaz de discernir o problema humano. Não há nada que possa ser feito para aplacar a tristeza, porque no fim há só perdas, morte e lamento. A natureza humana é limitada, e qualquer ganho envolve tantas outras perdas. O que fazer? Será que existe alguma ação que possa levar à felicidade? O que eu ganho cumprindo com o meu dever de lutar? O que é śreyas, o bem supremo, mokṣa, a liberação, falada em tantos versos nos Vedas? Diga-me, Kṛṣṇa, , só você pode me explicar!

O ensinamento, então, começa.

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  • Lica C
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    lúdica e com leveza, a história relatada fascina….
    à espera do próximo relato.

  • Heitor P
    Responder

    Que bonito!! Fiquei curioso com esse sorriso de Krsna.
    Lembro-me quando percebi/senti esse sentimento de impotência e entrega. E “o ensinamento, então, começa”… 🙂

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