O Embuste das Quatro Buscas

O primeiro tema a ser estudado em Vedānta é chamado tecnicamente de puruṣārtha-niścaya, a investigação sobre o que um ser humano (puruṣa) busca na sua vida, de qual é o fim ou objetivo (artha) da sua vida. A escolha deste como primeiro tema não é, obviamente, aleatória, mas tem como razão de ser o fato de que, para buscar a libertação com a prioridade e urgência que ela necessita, uma pessoa tem que entender que é só esse o único objetivo de todas as suas ações, e apenas isso ela quis e buscou quando dizia buscar querer tantas outras coisas.

Por uma mera questão didática é que somos informados, no início do estudo de Vedānta, de que existem quatro puruṣārthas, quatro buscas humanas: dharma – mérito; artha – segurança; kāma– prazer; e mokṣa – libertação, sendo esta última a busca mais nobre, a que mais “valeria a pena” caso eu a desejasse.

Mas já dizem os ditados: “Didática demais é moléstia” e “Quando a didática é demais, o santo desconfia”. Essa maneira de ensinar é usada muitas vezes no início do estudo apenas para não bater muito de frente com a ignorância das pessoas que estão apenas começando a investigação. Em outras palavras, ela, de fato, não faz realmente sentido. Vejamos por quê.

Quando falamos em mokṣa, libertação, estamos falando de libertação com relação a alguma prisão, bandha, alguma amarra que nos prende, em maior ou menor medida, com mais ou menos força, a algo específico do qual gostaríamos de nos livrar.

Quando dizemos que existe uma busca por segurança, artha-puruṣārtha, parece que buscamos realmente por riqueza, basicamente, na forma daquilo que proporciona os recursos materiais necessários para nossa sustentação e a sustentação dos nossos. Ou, se a pessoa for mais “esperta”, artha-puruṣārtha torna-se uma busca mais explícita por poder, já que ser poderoso significa dispor à vontade dos recursos dos outros, sem ter que se incomodar em levar a bolsa ou o cartão do banco quando sair de casa.

Contudo, se analisarmos rapidamente o que queremos quando queremos ser, em diferentes graus, ricos ou poderosos – protegidos de todo e qualquer contratempo com um bom emprego (público, de preferência), uma boa conta bancária, um bom plano de saúde, uma boa casa, bons amigos, etc. – veremos com toda a clareza que o que queremos não é o objeto dinheiro, ou as coisas que ele compra, ou as pessoas amigas ou subordinadas a mim; o que queremos de fato é estarmos livres da insegurança, o que, por sua vez, implica diretamente que queremos estar livres da noção de que “Eu sou inseguro”, pois a noção de insegurança só é uma prisão da qual quero me livrar quando eu mesmo estou metido bem no meio dela.

Acontece que, curiosamente, quando busco por segurança, indo trabalhar todo o santo dia e cercando-me de tudo aquilo que, imagino com alguma lógica, me garantirá mais um dia de confortável ou ao menos tolerável existência (nota para matutar depois: quem foi que me provou que sair no meio dessas grandes cidades brasileiras para trabalhar me garantirá estatisticamente uma maior possibilidade de existir por mais 24 horas do que simplesmente ficar em casa, na minha segura cama, que não é um beliche?!) não estamos reconhecendo e reforçando – de forma tanto mais implícita ou inconsciente quanto mais psicologicamente profunda, taxativa e inquestionável – que eu sou mesmo, solto por mim, um nada, a própria insegurança encarnada na forma de uma insignificante poeira no meio de um universo infinito que, no fim das contas, está me mastigando vivo a cada vez que como uma banana? (o leitor já sabe que, depois de certa idade, a vida é como na velha Rússia Soviética: não é você que come a comida, mas a comida que come você!).

Querem maior contradição? Buscar por artha, segurança, não significa admitir de antemão aquilo mesmo que você pretendia negar por meio da própria busca? Porque a busca por uma gorda conta bancária deveria servir para me deixar seguro; para, enfim, dizendo mais claramente, livrar-me da insegurança que eu sinto em mim; para, dizendo ainda mais precisamente, livrar-me da conclusão de que eu sou esse ser essencialmente inseguro e insignificante. Mas a conta bancária, a própria busca por ela, a própria necessidade atávica que sinto dela serve justamente ao propósito oposto: ela confirma a minha noção de insegurança da qual eu quero por meio dela me livrar. E a busca por um aumento da conta apenas aumentará a conclusão inicial de insegurança, assim como a maior quantidade de muletas e acessórios compensatórios apenas confirmam mais e mais a limitação de um pobre aleijado. Entendam: isto não se chama busca: chama-se embuste.

Neste sentido, a busca por segurança, artha, como uma meta da vida humana (dentro dos seus limites de manutenção cotidiana, e não como meta ou fim da vida, a busca por segurança é uma necessidade natural e indispensável, acho que posso assumir que entendemos isso sem maiores explicações) é inútil, anartha. Mais do que inútil, é contraproducente: produz o contrário daquilo que visa produzir, na medida em que confirma e legitima para o ser humano a sua conclusão natural de limitação.

Verdadeiramente, ao buscar por segurança na forma dos vários meios que a sociedade apresenta, o que o homem busca é ser livre do status de ser inseguro. Ele quer, portanto, mokṣa, libertação da noção de insegurança que o aprisiona e aflige. Desde quando, então, existem dois puruṣārthas, artha e mokṣa? Existe apenas conhecimento e confusão.

Assim como artha, o ser humano também busca por kāma, prazer, conforto, felicidade. Uma vez que os meios básicos de segurança estejam mais ou menos garantidos por um período de tempo em que possa relaxar, o ser humano, assim como outros animais, busca pelo prazer, por um momento onde possa relaxar das exigências da sobrevivência e se divertir. Kāma, a felicidade na forma de situações confortáveis e prazerosas torna-se uma busca, um puruṣārtha. Pois o ser humano não quer apenas existir sempre, não quer apenas ser por mais um dia. Ele quer ser e, sendo, ser feliz.

Contudo, não existe algo que seja felicidade no mundo. O mesmo pôr-do-sol, para duas pessoas diferentes, pode ser respectivamente uma grande felicidade e uma grande tristeza. A mesma pessoa que se alegra com o pôr-do-sol hoje, pode se entristecer com o mesmo fenômeno amanhã. De modo que, rigorosamente, o que uma pessoa quer encontrar ao buscar pela felicidade não é um objeto específico, mas o “eu feliz”, qualquer que seja a desculpa para que ele apareça.

Se a praia desperta em alguém, por algum meio, claro ou obscuro, o “eu feliz”, então a pessoa terá a praia como felicidade, ao menos até que se enjoe dela, o que cedo ou tarde acontecerá. A este respeito, recomendo um documentário pitorescamente intitulado “Neuronha”, que pode ser visto pelo menos em parte no Youtube, sobre pessoas que se encantaram com Fernando de Noronha e tiveram a (talvez não tão) brilhante ideia de se mudar para lá.

Não é difícil descobrir, analisando com a ajuda de Vedānta a experiência que todos temos de vez em quando deste “eu feliz”, que ele não é a soma do “eu” mais um objeto chamado “felicidade”. Se é que podemos falar em qualquer aritmética da felicidade, ela será uma aritmética de subtração, e não de soma. Eu sempre me encontro feliz comigo mesmo quando as conclusões de limitação, dor, mágoa e infelicidade não estão manifestas na mente. Exemplo máximo: sono profundo. No sono sem sonhos não há nada, isto é, a dualidade eu e mundo não está presente. Há apenas a minha presença, acompanhada universalmente pela experiência de felicidade, que reconhecemos ao acordar e inferimos da extrema boa vontade com que todos os seres se entregam ao apagão do sono, sem terem sequer a garantia de que se acenderão novamente no dia seguinte.

Poderíamos pensar que esta hipótese da subtração não vale para as situações em que ficamos felizes ao somarmos objetos e conquistas no mundo. Ela, no entanto, continua valendo, na medida em que o contato com o objeto de desejo só produz felicidade se conseguir, pelo impacto da sua presença, nocautear por algum tempo as conclusões de limitação que o sujeito faz sobre si mesmo. Se isso não ocorrer, a mesma piada engraçada que, somada a você, o faria gargalhar como um desarranjado mental, não lhe arrancará o mínimo sorriso, caso esteja você no mesmo instante preocupado com a mulher que o traiu, com a dívida do banco ou com seu filho gravemente doente.

Assim, na esteira da mesma lógica com que abordamos artha-puruṣārtha, podemos ver passar com clareza o fato de que ninguém busca realmente kāmas, objetos de prazer, mas apenas o status de estar livre da infelicidade, o que implica estar livre da conclusão de que eu sou essencialmente, por mim mesmo, infeliz. Todos, em nome da busca por kāma, queremos realmente mokṣa, a libertação da noção de infelicidade centrada no “eu”.

Como, porém, tudo se trata de um grande embuste, quanto mais uma pessoa busca por alcançar e manter objetos e meios para prazeres físicos, intelectuais, emocionais e tantas outras coisas para se sentir feliz e satisfeita, tanto mais ela carimba para si mesma a sua reiterada anuência de ser basicamente, por si mesma, infeliz e insatisfeita, de modo que nunca há um fim na busca por kāma, pois esta infeliz conclusão não só permanece intacta em qualquer experiência de prazer, mas é reforçada por ela, pela sua necessidade dela. Realmente não há nada de tão eficiente e produtivo como a contraproducência da ignorância. Kāma não é, portanto, uma meta, um fim (artha) da vida humana (puruṣa).

Por fim, chegamos ao chamado terceiro puruṣārtha: dharma, a busca por ser adequado em termos éticos e morais e também por acumular mérito no campo religioso ou espiritual. Em ambos os casos, trata-se de uma preocupação exclusivamente humana, não compartilhada com os animais, que agem apenas por instinto ou programação. Sendo programada para pastar, a vaca não ganha mérito em ser vegetariana e nem o leão leva demérito por comer carne de vaca.

Um ser-humano, entretanto, pode escolher o que comer levando em conta não só seu gosto pessoal ou sua tradição familiar. Ele pode decidir livremente levar o sofrimento dos animais em consideração e tornar-se vegetariano. Como isso, segundo os Vedas, ele ganha mérito, puṇya, um resultado invisível que será a causa de situações cômodas e prazerosas aparentemente fortuitas no futuro. Além desse resultado invisível, o ser-humano fica em relativa paz consigo mesmo quando age de acordo com o dharma, com o seu dever. Quando, ao contrário, ele pega atalhos morais para buscar por segurança ou prazer, a tendência é que ele fique culpado, internamente dividido, o que lhe impede qualquer relaxamento verdadeiro e, portanto, qualquer apreciação verdadeira do mundo.

Quer busque por uma mente em relativa paz no momento presente, quer busque por mérito para situações agradáveis futuras, a busca por dharma revela a busca humana por ser livre da noção de ser inadequado, errado, amaldiçoado. Não há busca por tornar-se adequado e nem busca por tornar-se merecedor se não houver, em primeiro lugar, a conclusão de que eu sou inadequado e não merecedor. O que uma pessoa busca não é o dharma, mas a libertação, mokSha, da noção de inadequação e não-merecimento centrada no “eu”.

É claro que, como nas outras buscas, a busca pelo dharma através de uma vida de orações e ajuda ao próximo – uma vida que diríamos “santa” – não trará para a pessoa a total e completa libertação da noção de inadequação. Ao contrário, quanto mais santa for, mais terá consciência da limitação da sua capacidade de realmente ajudar o mundo, e silenciosamente confirmará aquilo mesmo que pretendia a princípio eliminar: a conclusão de que “Eu sou mesmo inadequado e não merecedor, afinal de contas”. O que se busca não é o dharma, mas o “eu feliz” que é obtido quando a mente não se julga inadequada e não merecedora. A ausência desses julgamentos não será alcançada se fizermos mais dharma, mais ações adequadas. Pelo contrário, a necessidade de ajudar mais é apenas o consentimento silencioso com a conclusão básica de inadequação, da qual eu quero me ver livre, total e completamente livre.

Se o dharma-puruṣārtha é também, como as outras buscas, apenas uma forma de o ser humano buscar ser livre das limitações que o acompanham, então todas as buscas são apenas por libertação, mokṣa. Não há nem nunca houve quatro buscas. Só existe uma, que definitivamente não é por dinheiro, poder, prazeres ou mérito. A única coisa que um ser humano busca é ver-se livre de ter que buscar, de ser um buscador constante. Em outras palavras, a sua única busca é pelo “eu” tão completamente adequado, pleno e livre quanto seja possível ser.

Se esse “eu” pleno é possível, então ele já existe, pois algo livre de limitação não pode ser produzido. Se já existe e não pode estar distante de você nem por um segundo e nem por um centímetro, pois é pleno, então você o ignora. Se você o ignora, você precisa de um meio para eliminar essa ignorância. Esse meio de conhecimento para o eu pleno chama-se Vedānta.

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