O Legado de T.K.V Desikachar

Faleceu hoje, 08/08/2016, em Chennai, Índia, aos 78 anos, o notório professor de yoga T.K.V Desikachar, filho de T. Krishnamacharya, o responsável pela popularização do yoga no ocidente através, principalmente, de seus alunos Pattabhi Jois e B.K.S Iyengar.

O que Desikachar ensinou por muitas décadas não foi um estilo de yoga, ainda que as pessoas, presas nos rótulos de tipos de yoga, não pudessem deixar de rotular o que ele ensinava, chamando de “vinyoga” (uma palavra comum em sânscrito que significa apenas “aplicação, emprego, uso”, e que por si só não diz muita coisa), talvez pela ênfase em que dava no caráter individual da prática e do ensino de yoga.

Mas o caráter individual do ensino de yoga não é um estilo de yoga. Desikachar não ensinava “vinyoga”, mas yoga, como seu pai havia ensinado. T. Krishnamacarya não ensinou Ashtanga Viniyasa Yoga para Pattabhi Jois, nem Iyengar Yoga para Iyengar. Ele ensinou apenas yoga para ambos, quando eram jovens. A sistematização que os dois depois fizeram das suas próprias práticas como algo fixo a ser aplicado a todas as pessoas, de idades, sexo, capacidades e aspirações diferentes, não era certamente algo pretendido por Krishnamacarya. Mas isso talvez só possa ter sido entendido pelo seu filho Desikachar, que teve a chance de estudar e morar com seu pai e professor por décadas, absorvendo o que era a visão de yoga do seu pai de uma forma mais ampla.

Que o yoga deva ser aplicado ao indivíduo e não o indivíduo ao yoga é algo bastante intuitivo, se sabemos de antemão que yoga se interessa com a produção de uma experiência interna de calma, foco e clareza da mente. Mesmo a parte mais explicitamente física da prática de yoga, os asanas ou posturas, tem em vista a experiência de estabilidade e conforto (sthira-sukham) do praticante, o que, mesmo se considerado uma qualidade meramente física, não deixa de ser um padrão bastante inclusivo, de modo que um senhor septuagenário sentado em uma cadeira, se estiver suficientemente estável e confortável, pronto para praticar pranayama ou meditação, está mais bem preparado do que um jovem atlético esbaforido depois de uma prática física intensa de 2 horas.

Foi com esse tipo de entendimento que Desikachar ensinou aos seus estudantes o seu “método” de yoga (Desikachar-Yoga? Não, por favor…). Ainda que não seja um estilo de yoga, do modo como entendemos hoje, a forma como Desikachar ensinou yoga possui certas características a serem notadas, algumas das quais enumerei abaixo.

1) O praticante é quem diz o que busca.

Não é o professor que estabelece os objetivos da prática, mas o aluno. O professor apenas o auxilia no processo de avaliar e escolher o que é melhor para o aluno, mas nunca lhe impõe nada (a não ser em casos particulares, principalmente dentro da cultura hindu, em que o aluno confie muito no professor e este já o conheça bem). Se a meta do yoga é a liberdade, esta deve ser exercida e protegida de algum modo já nos primeiros passos da prática.

2) A prática tem um objetivo peculiar em vista do qual será montada.

O objetivo escolhido é o que guia a prática, é o que ela visa e pretende realizar da forma mais simples possível. O objetivo escolhido pode ser, é claro, apenas exercitar o corpo como um todo, o que poderá ser alcançado por uma prática um tanto genérica. Mas, também, pode ser algo pontual como aumentar a capacidade de inalação, relaxar a região cervical das costas, ou preparar para a meditação, o que pedirá, em geral, por uma intervenção mais curta e específica. Em cada um desses casos, as práticas terão posturas, tamanhos, tempos de permanência, ênfases na respiração, na atenção, e outros detalhes completamente diferentes entre si.

3) A prática segue viniyasas.

Vinyasas são a maneira como a respiração se liga a cada movimento, guiando a entrada e saída de cada postura, e como cada postura do corpo se liga a outras posturas, o que exige o conhecimento de contra-posturas e de como essas contra-posturas devem ser feitas sem antagonizar o efeito das posturas principais. Os vinyasas clássicos deverão ser adaptados, se possível, à condição física e mental do praticante. Também se dá o nome de viniyasa ao planejamento a médio prazo de como várias séries de práticas vão, com o decorrer do tempo, se desenvolver para se alcançar um fim específico.

4) Não há regras (além da ética e do senso comum) no estabelecimento do que deve ser feito sob o nome de “yoga”.

Em uma prática individual, desenvolvida para um aluno concreto que está na sua frente, um professor não está preso a nenhuma regra de etapas ou técnicas a serem seguidas. Nem sempre um professor utilizará dos recursos mais clássicos como asanas ou pranayamas para tratar algum desequilíbrio do aluno. Muitas vezes, coisas como uma atividade ao ar livre, uma mudança na rotina, ou a conversa com alguém poderão ser prescritas, se forem mais eficazes do que a prescrição de uma prática de yoga “formal”.

Desikachar conta (salvo engano, no livro “O Coração do Yoga”) o caso de um aluno seu, motorista de riquixá, que tinha muitas dores nas costas. Desikachar havia tentado várias práticas com ele sem muito sucesso, até que um dia, ao atender o aluno, ele se deu conta da carteira que ele usava no bolso de trás da calça. Uma carteira enorme, que causava uma diferença de altura considerável nos dois lados das suas costas, ainda mais se considerarmos que ele trabalhava o dia inteiro praticamente todos os dias. A prescrição foi fácil: “Use a carteira no bolso da frente, Apu”! Isso é que verdadeiramente se chama de eficiência no yoga!

5) Yoga é algo que pode se dar no relacionamento verdadeiro do aluno com o professor

Antes de qualquer técnica, o relacionamento verdadeiro com o professor é o que garantirá o sucesso no yoga. É preciso bastante confiança, sinceridade, coragem e paciência mas, se essas coisas estiverem presentes, mesmo que o professor não saiba de tudo e o aluno não tenha nenhuma capacidade física para fazer asanas, nem energéticas para fazer pranayamas ou mentais para fazer meditação, ele terá sucesso no yoga.

Acho que se meditarmos nesses cinco pontos poderemos, como professores e praticantes, fazer jus ao legado deixado por esse grande mestre, T.K.V Desikachar. Que aquilo que o iluminou em vida ilumine também o nosso caminho no yoga.

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