O mundo gira pelo amor: uma análise dos 5 níveis da experiência humana

Tudo o que uma pessoa faz, ela faz pelo amor de si mesma. Se alguém espontaneamente e sem ter em vista nenhuma publicidade ou ganho pessoal ajuda muitas pessoas, ela faz isso porque descobre a si mesma no ato da caridade como alguém adequado, completo e feliz. Se alguém, por outro lado, assalta um banco ou mata uma pessoa, ela também o faz visando o mesmo “eu” pleno e feliz.

Sim, mesmo o mais condenável criminoso só faz o que faz pelo amor de si mesmo. Pois, se ele não acreditasse que ganharia alguma felicidade no ato de matar alguém, ele não o realizaria.

A diferença entre o assassino e o altruísta reside apenas no fato de que o raciocínio do assassino é muito mais confuso e equivocado em relação aos meios para a obtenção de felicidade. Ele considera, muito distorcidamente, que a eliminação de algum pequeno ou grande obstáculo na sua vida compensa a morte de outra pessoa, ignorando todas as nefastas decorrências karmicas, emocionais, mentais, e materiais que o assassinato de uma pessoa trará.

Não há nenhuma diferença, no entanto, entre o altruísta e o assassino na perspectiva do amor de si. Ambos fazem o que fazem visando o encontro com o “eu” pleno, livre de carências.

Tudo o que qualquer pessoa faz (do altruísta ao assassino passamos por todos os matizes de pessoas e atos) ela faz pelo amor de si. E, “pelo amor de si”, significa: amando o encontro com aquele “eu” livre de carências que é descoberto nos momentos de felicidade.

É pelo amor a esse “eu” que uma pessoa se torna alguém que pretende fazer uma ação (um karta, ou agente da ação), porque ninguém faz nenhuma ação senão para encontrar este “eu” feliz. Uma pessoa acorda cedo de manhã e pula da cama por amor a esse “eu”, e outra pessoa desliga o despertador e continua dormindo pelo mesmo amor. Uma mulher se separa do marido por amor a esse “eu”, e outra mulher casa-se com ele pelo mesmo amor. E assim por diante.

O agente da ação, karta, é aquele intelecto que decide por certos meios para alcançar determinados fins, que em última análise servirão o propósito de transformá-lo em um usufruidor de felicidade, bhokta. No entanto, para que uma decisão possa ocorrer, é preciso que antes ocorra na mente um processo dialético de considerações que se opõe mutuamente até que alguma decisão seja tomada. Esse processo é feito pela mente.

Por exemplo: pode simplesmente surgir na mente o desejo de tomar café. Este desejo será questionado pela mente, que iniciará um diálogo interno consigo mesma:

  • “Será que agora é uma boa hora para um café?”
  • “Sim, é preciso terminar o trabalho.”
  • “Mas já são quase seis horas; depois eu não durmo.”
  • “Tudo bem, posso dormir até tarde. Amanhã é sábado.”

Então o sujeito toma o café. A determinação de tomar o café é feita pelo intelecto, depois que algumas considerações foram dialeticamente apresentadas pela mente.

Para essa oscilação da mente visando a determinação de uma ação pelo intelecto, que por sua vez visa a felicidade, é preciso de vitalidade, prana. É a energia vital, na forma da nossa disposição, que anima uma pessoa a pensar nas várias possibilidades e escolher dentre elas a melhor. Essa vitalidade é como um apetite, e é chamada de prana. O prana põe a mente para funcionar, visando a determinação de uma ação, que visa a felicidade.

Por fim, para haver vitalidade, prana, é preciso de um corpo físico como o veículo material desta energia vital. O prana está inicialmente presente nos alimentos que nosso corpo ingere. Não é a toa que se fizermos um jejum mais prolongado nossa disposição começa a baixar, nossa mente fica lenta, não conseguimos decidir mais nada, e ficamos apenas letárgicos deitados em algum canto.

A experiência humana de estar vivo envolve esses cinco níveis: corpo físico, energia/disposição, mente, intelecto e felicidade. Cada subsequente é mais sutil e abrangente que o precedente. A experiência de felicidade é aquilo que há de mais sutil e abrangente, porque é aquilo que é visado pelo conjunto dos quatro antecedentes. De fato, não há nenhum propósito em uma pessoa ter um corpo, energia/disposição, mente e intelecto se não for para ela poder se tornar uma usufruidora de felicidade. E tanto isso é assim que, se o intelecto de alguém concluir que a felicidade definitivamente não é mais possível, essa pessoa será levada ao suicídio.

A felicidade, o que há de mais profundo em nós, contudo, não serve para nenhuma outra coisa. Ela é um fim em si mesma. Ninguém pergunta, “Para que felicidade?”, porque ela não é um instrumento, mas a meta final de toda a instrumentação. Que ninguém tenha nenhuma dúvida quanto a isso é mais um indicativo de que as escrituras Védicas são muito sensatas ao dizerem que o “eu” – aquilo que não serve para nada, mas para o qual tudo o mais serve – é a própria felicidade.

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