O que acontece depois da morte?

Segundo os Vedas, um indivíduo não termina com o término do seu corpo físico. Como diz a Bhagavad-Gita: “Assim como uma pessoa abandona roupas velhas e coloca outras novas, da mesma maneira o habitante do corpo abandona corpos velhos e assume outros novos” (2-22). É interessante notar que narah, a palavra em sânscrito usada no verso citado para dizer pessoa, significa, etimologicamente, “aquele que não pode ser destruído”, e a palavra usada para dizer corpo, sharira, significa “aquele que está sujeito à desintegração”.

Portanto, ao mesmo tempo que o corpo é aquilo cuja destruição é inevitável, o habitante do corpo é aquele que não pode ser destruído. Além das afirmações das escrituras sagradas, que são a autoridade principal quando o assunto é o pós-morte, temos outras indicações de que a morte do corpo não significa a morte do indivíduo.

Há uma prova lógica usada pela tradição védica para dar suporte à distinção entre o corpo e o habitante do corpo. O argumento diz que tudo aquilo cujas partes são inteligentemente montadas serve para um ser consciente necessariamente distinto das partes. Isto é: se pensarmos em um relógio, vemos que suas várias partes – a pulseira de couro, o visor de vidro, os ponteiros de ouro, etc. – são todas inteligentemente dispostas de modo a realizar uma função para alguém necessariamente distinto dessas partes. A pulseira não serve para o visor, nem o visor para os ponteiros, mas todos eles em conjunto servem o propósito de mostrar as horas para um ser consciente que é necessariamente distinto do relógio e não faz parte dele.

Com relação ao nosso corpo físico, a lógica é rigorosamente a mesma. O braço direito não serve para o esquerdo, nem o olho para o ouvido ou o cérebro para o fígado. Deve existir um ser consciente distinto dessas partes e para o qual todas elas trabalham, com o propósito de fornecer-lhe a experiência do mundo. Portanto, eu não sou nem a soma das partes do meu corpo, que apenas em si mesmas não teriam sentido algum (assim como a soma das partes do relógio em si mesmas, sem pensarmos em uma pessoa que o use, não tem sentido nenhum), e tampouco sou alguma parte específica do corpo, que claramente trabalha junto com as outras partes para fornecer a experiência para mim, o ser consciente inteiro, independente e distinto das partes.

Há também, para corroborar a lógica de que somos distintos do corpo, a nossa experiência direta. Pois, quando tínhamos cinco anos, nosso corpo era outro, completamente distinto deste que temos agora. Podemos dizer que aquele corpo morreu para dar lugar ao corpo de hoje. No entanto, nós mesmos não morremos, pois reconhecemos que somos a mesma pessoa que tinha cinco anos e que agora tem trinta, e que seremos os mesmos quando completarmos noventa e cinco. Ademais, se alguém corta a unha, corta o cabelo, ou mesmo corta fora um membro do corpo como um dedo ou um braço, essa pessoa não se torna menos ela mesma. Ela continua o mesmo ser consciente inteiro, com sua auto-identidade básica preservada, o que inclusive pode deixa-la triste, já que reconhece que é a mesmíssima pessoa que antes tinha um braço e agora deixou de tê-lo. Assim, ainda que o materialismo científico ache uma blasfêmia a suposição de que uma pessoa é distinta do corpo e sobrevive a ele, há provas suficientes de que isso é de fato assim.

Há, inclusive, provas irrefutáveis mesmo do ponto de vista do método científico. São centenas os casos documentados de pessoas dadas como clinicamente mortas em ambiente hospitalar, que retornaram à vida e relataram, para espanto dos médicos e das pessoas ali presentes, o que cada uma das pessoas naquele ambiente estava fazendo ou falando no momento em que o indivíduo foi oficialmente dado como morto: o médico anunciando o momento da morte com a hora exata, a mulher chorando, o filho saindo do quarto, e assim por diante.

Assim, que o indivíduo é distinto do corpo e não morre com a morte deste é um fato corroborado pela lógica, pela experiência e por todas as escrituras sagradas da humanidade. Existe alguma razão, fora simples e puro medo irracional, para ficarmos incertos quanto a esse fato? Parece-me que não. A única dúvida que fica é: o que acontece com essa pessoa que sobrevive à morte do corpo?

Os Vedas dizem que o indivíduo está nascendo e morrendo continuamente desde sempre, e a cada nascimento humano ele acumula karma – mérito e demérito – por meio das suas ações. Esse karma acumulado é a sua conta kármica, de onde saem os nascimentos futuros com misturas diferentes de mérito e demérito, de acordo com o tipo de nascimento.

Um nascimento em uma forma animal, por exemplo, possui mais demérito do que mérito, porque, ainda que a vida do animal possa ser boa, ele não possui livre arbítrio para gerar mérito e alcançar nascimentos melhores, ou mesmo para alcançar a liberação por meio do autoconhecimento.

Um nascimento humano, por sua vez, é causado por uma predominância de mérito, porque um ser humano, além de poder gerar mais mérito por meio de boas ações deliberadas, pode também alcançar o autoconhecimento e a liberação.

Também são possíveis nascimentos em planos superiores, divinos, com grande predominância de mérito, onde a experiência de sofrimento é ínfima, ou em planos inferiores, onde a experiência de sofrimento é predominante. De qualquer maneira, nenhuma dessas experiências em qualquer nascimento é eterna, sendo terminada assim que os méritos e deméritos que a causaram forem exauridos.

Não existe uma ordem na sequência de nascimentos e, ao contrário do que diz a doutrina Espírita, os Vedas dizem que um ser humano pode renascer como um animal e vice-versa. No entanto, para aqueles que estão em busca do autoconhecimento, Krishna garante, na Bhagavad-Gita, que eles continuarão sua busca logo no próximo nascimento, nascendo como seres humanos em uma condição conducente ao ganho do conhecimento espiritual. Diz o Senhor Krishna: “Tendo atingido os mundos produzidos por mérito e tendo vivido lá por muitos e muitos anos, alguém que não alcançou a meta do yoga nasce em uma casa com valores espirituais, cultura e riqueza. Ou ele nasce na família de sábios yogis; um nascimento como esse é de fato muito difícil de alcançar neste mundo”.

 O fim do ciclo de nascimentos e mortes se dá unicamente pela aquisição do autoconhecimento, pelo qual o indivíduo entende sua natureza absoluta e livre de tudo, anulando sua conexão com qualquer karma, positivo ou negativo, e acabando assim com a causa para qualquer nascimento.

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