O que é iluminação?

De acordo com a tradição védica, o que é iluminação? O que esse termo significa e de onde ele vem? Iluminação é um termo que tem acompanhado a história da espiritualidade moderna e também é utilizado em outros campos de conhecimento como na filosofia e psicologia.

Se olharmos os diversos usos dessa palavra, podemos ter uma noção geral do seu significado, embora exista uma conexão quanto ao seu uso, ela não é suficiente para definir um significado único para a palavra “iluminação”.

  • Coloquialmente, uma pessoa iluminada é uma pessoa especial, uma pessoa que brilha, que se sobressai. Pode ser uma pessoa talentosa, carismática ou simplesmente alguém privilegiado em um grupo social.
  • Religiosamente, o iluminado é aquele que tem uma “atenção divina”, uma “luz”, como uma benção que permite que ele faça coisas que outros não fazem ou que dê a ele capacidades humanas acima do normal. Em alguns grupos religiosos existem ainda os chamados “seres de luz” que podem ser associados ao termo “iluminado”.
  • Filosoficamente, a pessoa iluminada pode ser vista como aquela que é capaz de render seu intelecto para o entendimento de um ponto de vista, vindo de outra pessoa mais informada. Isso pode ocorrer em qualquer relação desde que exista uma disparidade de conhecimento, como, por exemplo, na relação médico paciente.
  • Psicologicamente, é aceitável dizer que uma pessoa iluminada é uma pessoa emocionalmente madura, que tem a habilidade de lidar com suas emoções e seu passado.

Apesar de existirem diversas linhas que podem divergir entre si em todos esses campos de conhecimento, o conceito de uma pessoa iluminada traz a idéia de uma pessoa “especial” no contexto onde ele é usado, seja por uma capacidade mundana ou divina.

É válido dizer que como todos são livres para usar o termo da maneira que lhe convêm, nosso propósito ao analisar a palavra é entender seus diversos usos e o contraste com a visão originária dos Vedas.

Na tradição védica o termo “iluminado” ou em inglês “enlightened” vem da tradução da palavra “budha”. Essa palavra vem da raiz “budh” que significa conhecer, literalmente “budha” significa “aquele que conhece”, ou em outras palavras um “sábio”.  A conexão do “sábio” para o “iluminado” vai ocorrer de uma forma indireta, pois é comum nos Vedas e também coloquialmente, associar o conhecimento à luz e ignorância à escuridão. A própria palavra “guru”, que se refere a um professor, significa “aquele que remove escuridão”. Então o sábio aquele que possui o conhecimento é um “iluminado”, pois ele possui a “luz” que é o conhecimento. No contexto dos Vedas como o assunto é o autoconhecimento, o iluminado é aquele que possui o conhecimento de si. Essa é a definição clássica da palavra iluminado e a origem etimológica da palavra “budha”.

Foi com a propagação do budismo que esse termo se popularizou com um significado alternativo. O Budha ficou conhecido como “o iluminado” e o propósito do seu caminho espiritual foi denominado de iluminação, associado a uma experiência alcançada através da meditação.

Apesar da tradição védica reconhecer o “Budha” e seu caráter divino, é dito que provavelmente seus ensinamentos se diferem do que hoje é conhecido como budismo, pois existem 2 diferenças básicas entre o conceito de iluminação definido pelos vedas e o conceito disseminado pelo budismo em termos de objetivo espiritual .

A primeira diferença é quanto à natureza da iluminação ou liberação como também é chamada. De acordo com os Vedas, a iluminação é a natureza do indivíduo e não algo que possa ser alcançado no tempo e espaço. Um estado ou um objeto que é obtido no tempo e espaço é limitado por natureza, pois ele é um produto de uma ação finita, como uma meditação ou um ritual. Não é lógico conceber que de uma causa limitada possa se obter um produto ilimitado ou um estado ilimitado. Por isso não é aceitável, diante da lógica, dizer que a iluminação ou liberação é definitiva, sendo um produto de ações realizadas no mundo. Sem dizer que nossa experiência no mundo também vai contra a idéia de um estado ou lugar eterno. Nossa experiência é que tudo obtido no tempo e espaço se vai no tempo e espaço da mesma forma. Então a primeira diferença é que a iluminação não pode ser um estado, porque esse é finito e como vimos a existência de um “estado infinito” também é contrária à lógica e a experiência também.

A segunda diferença é o “caminho para a iluminação”. Essa diferença é uma consequência natural do entendimento da primeira. Uma vez que percebemos que o que está por detrás do conceito de “iluminação” como proposto no budismo ou até mesmo do conceito de “paraíso” que existe em outras religiões, é algo que seja eterno, permanente, uma felicidade plena ou em outras palavras a própria eternidade, o caminho para obter esse objetivo não pode ser uma combinação de ações, seja meditação, ajudar o próximo ou qualquer outro tipo de ação. Por mais que elas tenham um papel importantíssimo no caminho espiritual de uma pessoa, temos que admitir que nem elas, nem a combinação de nenhuma delas, podem produzir algo eterno, pois a eternidade não começa. Se começar não é eternidade e tudo que começa acaba. Eternidade é sempre.

Esse segundo ponto é muito importante, pois não basta saber qual é o objetivo sem saber como obtê-lo. Apesar da eternidade ou plenitude não poder ser obtida através da ação, existe ainda uma possibilidade em geral não explorada pelo ser humano. Toda busca por um objeto ocorre quando não temos o objeto desejado ou quando não sabemos que temos o objeto desejado. Se realmente, o que desejamos nós não possuímos, precisamos ir atrás dele ,mas às vezes o que eu busco já está comigo e nesse caso não adianta ir atrás dele. Como a “caneta perdida” que esteve a todo tempo no bolso, podemos passar a vida inteira procurando a “bendita” que não vamos encontrar enquanto não olharmos para o bolso. Assim não podemos encontrar a eternidade no tempo, entrar em um estado de liberação eterna, mas se existir uma eternidade ela também tem que estar no momento presente e, nesse caso, só o que se precisa é de conhecimento. Conhecimento que explique com mais profundidade a experiência que já está ocorrendo nesse momento.

Assim, conforme a tradição védica, iluminação não é um estado, é a natureza do próprio indivíduo e, sendo ilimitada, não pode ser alcançada no tempo ou espaço. A maneira de obtê-la é o conhecimento. Os Vedas se colocam como um meio para esse conhecimento para a natureza do “ser”, quando operados por um professor capacitado para tal. Todas as práticas de asanas, as meditações e a vida de yoga são o meio para que haja o preparo para tal conhecimento.

A necessidade de um professor não acrescenta um valor humano ao processo que pode comprometer a verdade final?

Na verdade, é exatamente o oposto, o professor não é uma pessoa dando sua interpretação para o texto, é apenas uma pessoa que entendeu e está tornando possível o ensinamento para outra. Porque para que esse entendimento ocorra, existe um tanto de se entregar, de largar as opiniões sobre si, que não é possível fazer com um livro.

Porém todo ser humano nasce com essa capacidade de se entregar a outro e, é através desse arquétipo que o conhecimento é transmitido e não para pessoa estudiosa, inteligente, que quer resolver o problema do universo e controlar tudo a sua volta para ser feliz. A relação mestre discípulo protege a tradição permitindo que as pessoas larguem essa “casca antiga” para ouvir o que os Vedas têm a dizer e, não tentar interpretá-lo a luz da sua própria ignorância.

E se isso não for o suficiente para entender a necessidade do professor, podemos ficar seguros que nada será comprometido devido a natureza do conhecimento que estamos buscando. Estamos em busca de ser completo, ser livre e, ser completo não possui perspectivas. Por isso, mesmo que o professor fale com um sotaque diferente, com um background de uma cultura totalmente diferente, no final das contas, eu sou aquele que tem que ser completo e livre.  Por isso ninguém pode nos enganar, podemos ser incompletos, limitados e “pecadores” de muitas formas, mas o completo não permite variações, porque afinal de contas, ele é completo!

Por fim, quando entendemos os Vedas como um meio de conhecimento, apenas a sua utilização com a atitude e a sinceridade de quem busca a resposta pode validá-lo como verdadeiro ou falso. Da mesma maneira que pela lógica podemos entender todos os princípios de funcionamento de um telescópio, mas só quando o usarmos saberemos perfeitamente se podemos ver as estrelas.

 

Showing 0 comments
  • Evelina
    Responder

    Thank you! That was enlightening:) Hari Om

  • Vicente
    Responder

    Namaskar por mais um belo texto! Simples, claro como a luz!!! Hari Om

  • Teerna
    Responder

    Muito bom o texto! Gratidão por compartilhar!!!
    Hari Om

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