O que é liberdade? Liberdade e compromisso andam juntos?

“O que você fazia antes de buscar Vedanta, em tempo integral? O que a guiou? ” Essas foram algumas das perguntas que as pessoas me fizeram aqui, no curso de 3 anos de Vedanta no ashram do swami Dayananda na Índia. Em resposta, aqui esta um reflexo da minha jornada pessoal de liberdade e compromisso, bem como alguns fatores de consideração para liderar a mudança. Então abro assim o tema: o que é liberdade? Liberdade e compromisso andam juntos?

Quando eu era mais jovem e insensata, eu costumava pensar que a liberdade significava que eu poderia fazer o que eu gostava e evitar o que eu não gostava. Palavras como “compromisso”, “dever”, “responsabilidade” eram palavras que só as pessoas mais velhas utilizavam, especialmente quando queriam dar conselhos. Liberdade era livre de responsabilidades e compromissos. Sim, foi isso. Conforme fui crescendo e ficando mais sábia (assim espero), parecia que havia algo de errado com o entendimento anterior de liberdade, o entendimento da independência.

O meu trabalho em Mumbai envolvia administrar um centro de aconselhamento para crianças de rua – crianças que foram abandonadas e que tinham fugido de casa. Ao ouvir e responder as histórias comoventes de perda e esperança, coragem e impotência, uniões e rupturas familiares, houve muito o que aprender. Nós trabalhávamos com crianças afetadas pelas drogas, violência e abuso, para ver como com pequenos passos, a vida poderia ser mudada e para melhor. Talvez, para o pequeno “R’’, os problemas com a madrasta ainda estejam lá, mas a sua relação positiva e suportadora, com sua irmã e professora na escola, poderia ajudá-lo a trabalhar arduamente na escola”. E assim a vida continuava, nos permitindo  ajudar 30-40  crianças e jovem,  uma criança de cada vez.

Para minha inquietude, isso não era suficiente. Mais crianças tinham que ser alcançadas e isso era inegociável. Nessa época, minha exposição à Vedanta, a minha compreensão limitada da Índia – sua realidade politica e sócio-econômica, o meu entendimento da cultura indiana e como isso tem sustentado o crescimento exponencial do dharma. Como uma cidadã indiana, dia 15 de agosto – o dia da Independência, ao longo dos anos, passou a ser associado a um monte de símbolos: a bandeira tricolor, o hino nacional, assistir o Dia da República na TV, canções patrióticas e etc. Pesquisando os símbolos, havia poucas coisas que se tornaram evidentes – a independência da Índia implicava viver de forma independente – sua cultura, seus modos de vida, seus modos de fazer as coisas, o processo de pensamento que unificou a Índia e o mais importante são as pessoas da Índia, que os transmitiam, de geração para geração. A Independência da Índia dos britânicos, pela sua importância, foi um retorno ou uma reconquista da independência que pertencia à Índia em primeiro lugar. O que significa viver uma vida de liberdade?

Do processo de pensamento cético e cínico de que “A Índia é tão corrupta, nada vai mudar, não se pode contar com os políticos… a índia teve um passado glorioso, mas na realidade, quando olhamos para as condições de vida de algumas pessoas, cheira mal.” etc, mudou de forma proativa para, “Eu vou fazer o que eu posso fazer pela Índia, porque isso precisa ser feito. Eu tenho o privilégio de nascer neste grande e livre país. Eu devo isso a este país, preservar a sua herança e cultura. A cultura é transmitida de geração em geração por seu povo. Se a cultura tem que ser protegida, as pessoas precisam ser protegidas. Crianças e jovens são especialmente aqueles que estão em desvantagem e logo precisam ser protegidos ao máximo. “Do processo de pensamento, de que” O que uma pessoa pode fazer?”, mudou para,” Mudar sempre começa com uma pessoa’’. Assim que começamos a alinhar com as agências que trabalhavam com crianças e jovens no país, a cada ano mais de 12.000 crianças começaram a ter suas vidas mudadas, em todo o país. Este trabalho fenomenal continuou por 10 anos e ainda continua. A dependência de crianças e jovens vindos de condições limitantes de analfabetismo, pobreza e violência estava sendo afrouxada, pouco a pouco. Algumas dessas mudanças foram: melhor acesso à educação, mantendo-se longe das drogas, voltando para casa, recebendo cuidados médicos, tendo relações de suporte, melhoria nas condições de abrigos do governo para as crianças e aumento da sensibilidade da polícia com as mesmas.

Para nossa inquietude (nessa altura, o eu tinha crescido para nós – um grupo comprometido), isso não foi o suficiente. E as famílias? E os sistemas de governo com os cuidados e proteção das crianças? Como a mudança pode ser positiva e sustentável? E assim, mais uma série de projetos começou, o qual colaborou com os sistemas de governo, desafiando-os, tornando-os responsáveis por fazer algo simples – pedindo-lhes para se explicar sobre o que eles disseram que iriam fazer e o que eles realmente fizeram. Ao mobilizar o poder de um grupo e o pensamento coletivo, a pressão sobre os sistemas do governo foi construída não por leva-los a executarem a tarefa, mas por focar na boa governança – como cidadãos, como podemos ajudar o governo a fazer o seu trabalho melhor? Não foi assumindo uma posição de vítima indefesa “, Governo deve proteger os mais fracos, afinal nós não temos poder.” Estava se assumindo uma posição proativa “, como cidadãos, temos certos direitos e devemos cumprir nossas responsabilidades. O que podemos fazer para garantir que o Governo cumpra as suas responsabilidades? “Afinal de contas, os sistemas do governo não foram feitos por pessoas do espaço sideral, mas  por pessoas como você e eu. Não foi fácil. Nunca é fácil, mas nós reconhecemos que a mudança leva tempo, paciência e perseverança.

O estado de liberdade para a Índia e seu povo está em ser livre de condições limitantes de burocracia, corrupção, analfabetismo, pobreza e dependência indefinida de países maiores, para a ajuda internacional. Viver em Liberdade não significa fazer o que se gosta ou não. Viver em liberdade significava viver uma vida de compromisso com a liberdade – fazendo o que é necessário que seja feito, mudando o que precisa ser mudado – promover condições adequadas para o bem-estar dos cidadãos, em todos os aspectos. É assim que a nação  se desenvolve e prospera.

Como conseguimos contribuir para a mudança social e conseguimos viver uma vida de compromisso com a liberdade? Quais são as coisas que se deve considerar, quando se quer liderar a mudança?

  1. Você é um líder, se você pode liderar a mudança em sua própria vida. É melhor colocar a sua vida em ordem, antes de tentar ajudar os outros a resolver as deles.
  2. Identificar uma condição (problema) que precisa ser mudada: Um problema é qualquer condição que comprometa o bem-estar de uma pessoa, grupo ou comunidade. Isto requer ver a situação do grupo de forma objetiva e ouvir o seu ponto de vista. Não é imaginar um problema onde não existe. A maioria das pessoas tenta combater a impotência, distraindo-se ou racionalizando-a. Transforme a impotência, fazendo o que precisa ser feito e no que terá algum impacto. Identifique qualquer problema social no bairro e comunidade. Poderia ser crianças carentes, idosos que precisam de algum apoio, amigos que necessitam de algum tipo de assistência, em uma habilidade que você possui.
  3. Definir mudança usando o princípio SMART – Mudar o que é específicos, mensuráveis, atingíveis, realistas e que tenha prazos definidos. O exemplo de uma afirmação de mudança, que implementamos: xxx crianças carentes de rua em 8 estados da Índia seriam protegidas e teriam um desenvolvimento integral em xx anos. Os números de crianças eram específicos (baseado em pesquisas), “desenvolvimento integral” – o desenvolvimento educacional, físico e emocional focado em ser atingível e realista. O número de anos para a execução, indicava os aspectos de prazo -curto / médio ou longo prazo, que poderiam se alcançados. Uma boa afirmação de mudança incorpora uma mudança que leva em consideração o bem estar das pessoas e é uma condição que é sustentável.
  4. Sempre mantenha o “quadro geral” em mente e se comprometa com a mudança – Mudança nunca é um processo mágico de uma noite. Ela exige cuidado, planejamento minucioso do tempo, pessoas e recursos envolvidos. Mudanças em uma sociedade levam gerações, o que não nos impede de fazer o que precisa ser feito. Identificar os fatores que sustentam e restringem os fatores para a mudança. É desnecessário dizer: tenha um plano tentativo. Qualquer pessoa que tenha tentado implementar uma mudança em um nível pessoal, por exemplo, parar de fumar, sabe que se dá muitos passos para a frente e para trás. No final, manter-se no caminho é o que importa, apesar dos contratempos. Quando se foca na afirmação de mudança ou em outras palavras na meta, se planeja ao contrario em termos das formas mais eficazes e eficientes para alcançá-lo. Só porque alguém tem 1.000 cobertores de uma fábrica de atacado, não significa que o que as crianças no sul da Índia mais precisam são os cobertores.
  5. Concentre-se no que você pode fazer e não no que você não pode fazer: A razão pela qual muitos de nós nos sentimos frustrados, impotentes e paralisados em uma situação problema é porque nos concentramos naquilo que não podemos fazer. No momento em que quebramos a solução em uma série de passos simples e começamos a nos concentrar no que se pode fazer com os recursos disponíveis, tempo, habilidades que temos, as coisas começam a mudar.
  6. Simplesmente faça
  7. Compartilhe sua história de mudança. Histórias reais tem um poder mágico de informar, inspirar, promover o pensamento independente e integrar o aprendizado. Eu acabei de fazê-lo.

Feliz Dia da Independência!  Viva uma vida Feliz de liberdade!

“Escrito por Mrinalini Rao”

Showing 2 comments
  • Phillipe Machado
    Responder

    Excelente reflexão sobre liberdade!

  • Rosa Corrêa
    Responder

    Adorei a proposta de não focar no problema e sim na solução daquilo que se pode obter, passo a passo. Pensar em soluções e não naquilo que nos limita e que, em geral, são auto impostos. Isso tb é liberdade!

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